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Politização de tudo

O caso Felca e o filme “Guerra Civil”: como a guerra cultural afeta a política

Influenciador frustrou esquerda após divulgar vídeo às vésperas do pleito e não se posicionar.
Influenciador frustrou esquerda após divulgar vídeo às vésperas do pleito e não se posicionar. (Foto: Reprodução/YouTube/Felca)

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Felca, um influencer famoso, divulgou um vídeo sobre bullying e fobia social, contando sua experiência pessoal. Publicou no Dia Mundial de Combate ao Bullying, 20 de outubro, que calhou de ser também na última semana antes do segundo turno da eleição presidencial brasileira.

Militantes políticos, que esperavam um vídeo de denúncia contra seu adversário de estimação, ficaram furiosos com Felca que, segundo creem, deu a entender que seu vídeo seria sobre isso. Passaram a hostilizá-lo despudoradamente nas redes sociais, praticando o mesmo bullying denunciado por Felca, sem se darem conta do quanto o desumanizavam.

É o exemplo mais recente, de milhares já dados, de como a guerra cultural adoeceu a sociedade, fragmentou-a e deixou neurastênica - como se dizia antigamente quando alguém estava esgotado física e mentalmente.

Se continuarmos assim, o que acontecerá?

Guerra Civil?

Anos atrás, Alex Garland imaginou um cenário desses em Guerra Civil, disponível na Netflix, filme que conta uma história dos Estados Unidos em guerra consigo mesmos. O país se desintegra, cidades se transformam em campos de batalha e grupos armados disputam territórios.

Não há explicação de como o país chegou a isso, quem são exatamente os lados em disputa e quais ideias justificam a luta de cada um. Há sinais de autoritarismo, ruptura institucional e violência política, mas não um mapa ideológico que organize o conflito em duas facções facilmente identificáveis.

Em vez de explicar as causas, o filme nos faz experimentar a inutilidade de sabê-las quando se está a viver dentro da guerra. Até mesmo o desenrolar do conflito é obscuro. Não há internet, boa parte da infraestrutura de comunicação ruiu. O pouco que sobrou são jornalistas como os da história que atravessam o país em direção a Washington, tentando apenas registrar os acontecimentos enquanto o mundo que conheciam desaparece ao redor.

Aos poucos, o espectador percebe estar mais diante de um drama jornalístico do que de uma tragédia política. O filme permite enxergar algo essencial do jornalismo, que consiste justamente em transformar acontecimentos em imagens, relatos e narrativas que permitam a outras pessoas compreender o que está acontecendo.

Esta tarefa nunca é tão simples quanto pode parecer. Ainda que o jornalista somente busque a verdade dos fatos, todas as suas escolhas para noticiar influenciam a maneira como ela será percebida. Fotografar é escolher um enquadramento. Reportar é decidir o que merece ser contado, quais testemunhos serão ouvidos e que informações são necessárias para compreensão do que se passa.

Mas em um contexto como o do filme, é possível apenas registrar o que se vê ou há obrigação de tomar partido? E o que acontece quando a convicção de estar do lado certo começa a determinar antecipadamente aquilo que se está disposto a enxergar?

O filme não formula essas perguntas explicitamente, nem oferece respostas. Mas o drama moral que apresenta ilumina também aquilo que veio antes de a guerra começar.

Da polarização ao autoritarismo

A existência de divergências profundas na sociedade não constitui, por si só, uma ameaça à democracia. Ao contrário, é porque as pessoas discordam sobre o que é justo, desejável ou necessário que precisam de instituições capazes de organizar o debate, a disputa pelo poder e conter os detentores provisórios do governo de extrapolar seus limites.

A polarização, portanto, é intrínseca à democracia. O problema começa quando o adversário deixa de ser alguém cujas ideias devem ser combatidas e passa a ser alguém cuja própria participação na disputa é considerada intolerável. Não se trata de derrotá-lo nas urnas, mas de negar-lhe legitimidade para concorrer, falar ou representar uma parcela da sociedade.

Nas eleições brasileiras de 2026 temos um exemplo disso. No segundo turno, a esquerda iniciou sua campanha afirmando que seria “ok” ser de direita, mas o bolsonarismo seria inadmissível. Uma retórica assim alimenta um autoritarismo que se julga moralmente autorizado a determinar quem pode ou não participar da democracia.

Quando a política se transforma numa luta pela negação da legitimidade do adversário, dois desfechos se tornam possíveis. Se a deslegitimação se consolida nas instituições, o autoritarismo pode se instalar como regime. Se nenhum dos lados consegue se impor de modo estável e duradouro, mas tampouco aceita a presença do outro, o conflito pode se acirrar e escalar para episódios de violência, até chegar a um cenário como o que vemos no filme.

Um Problema de Imaginação

Rosenstock-Huessy, autor de A Origem da Linguagem, considera que uma guerra civil começa antes dos tiros e da violência: começa quando os lados em disputa se tornam voluntariamente surdos à voz um do outro. A partir daí, a imaginação política perde a capacidade de conceber o adversário como parte da mesma comunidade.

As bolhas criadas pelos algoritmos das redes sociais intensificaram essa surdez e deram à crueldade uma escala e uma facilidade de expressão que talvez assustassem até o mais impiedoso valentão de escola. É o que sofreu Felca. Foi xingado de tudo quanto é nome não pelo que fez, mas por não ter feito o que a turba militante esperava dele.

É aí que filmes como Guerra Civil se revelam mais importantes do que parecem. A destruição a que assistimos na tela não é apenas a derrota de uma facção ou a vitória de outra. É o retrato de uma sociedade na qual a política não conseguiu preservar o espaço comum em que os conflitos poderiam ser disputados sem que a existência do adversário se tornasse insuportável.

Uma sociedade começa a se aproximar da guerra civil quando muitos já não conseguem imaginar como continuar convivendo com aqueles que consideram seus inimigos. O filme termina sem que possamos sair com a confortável certeza de que compreendemos inteiramente o que aconteceu. Não deixa de ser uma provocação para buscar essa compreensão, algo somente possível se recuperarmos aquilo que a guerra cultural nos fez perder: a disposição de ouvir quem pensa diferente.

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