“Pequeno Segredo”, escolhido para tentar uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro | Divulgação/
“Pequeno Segredo”, escolhido para tentar uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro| Foto: Divulgação/

Nunca na história desse país, ou pelo menos na história recente, a possibilidade de um filme brasileiro concorrer ao Oscar causou tanto furor. Discussões políticas, troca de farpas, cineastas retirando suas produções, membros abandonando a comissão responsável por escolher o filme que vai tentar ficar entre os cinco indicados à estatueta de filme estrangeiro em 2017.

Na última segunda-feira (12) saiu o veredito: “Pequeno Segredo”, de David Schürmann, foi o escolhido. Sob protestos de muita gente, que via “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, como favorito devido à boa recepção pela crítica estrangeira. O fato de a equipe do filme pernambucano ter protestado contra o impeachment de Dilma Rousseff no Festival de Cannes, em maio, suscitou comentários de que a produção estaria sendo alvo de perseguição política. Integrantes da comissão garantem, no entanto, que a escolha não teve nenhum direcionamento ideológico.

Leia também: Cinco vezes em que o discurso engajado falou mais alto que a arte em premiações de Hollywood

Mas, afinal de contas, como é feita essa seleção? Quem escolhe? Quais os critérios? Conheça a seguir todos os passos para se chegar ao possível representante brasileiro no tapete vermelho.

Quem pode concorrer?

Qualquer filme nacional exibido entre 1º de outubro de 2015 e 30 de setembro de 2016 pode se inscrever. Nesse ano foram 16 produções inscritas. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas exige que, para estar habilitado a disputar o Oscar, o filme seja exibido em circuito comercial pelo menos durante sete dias consecutivos nesse período. Aí reside a controvérsia. A página oficial de “Pequeno Segredo” informa que ele estreia somente no dia 10 de novembro, o que o tiraria da disputa. No anúncio da segunda-feira, porém, a comissão do MinC disse que a estreia será antecipada para o próximo dia 22. A assessoria de comunicação do filme informou que a data de estreia ainda não está definida.

Quem escolhe o filme?

Uma comissão com nove integrantes foi designada no início de agosto pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura para fazer a seleção.

Eram eles: Adriana Rattes (ex-secretária de estado de cultura do Rio de Janeiro), Beto Rodrigues (diretor da Panda Filmes), George Torquato Firmeza (Diretor do Departamento Cultural do Itamaraty), Paulo de Tarso Basto Menelau (diretor de programação da rede de cinemas pernambucana Moviemax), Silvia Maria Sachs Rabello (presidente da Abeica - Associação Brasileira de Empresas de Infra-estrutura de Indústria Cinematográfica e Audiovisual), Sylvia Regina Bahiense Naves (assessora técnica em Acessibilidade do Audiovisual da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura) e Marcos Petrucelli (crítico e jornalista).

Os outros dois integrantes deixaram a comissão após a polêmica instituída sobre “Aquarius”: Guilherme Fiuza Senha, cineasta mineiro, e Ingra Lyberato, atriz baiana. Eles foram substituídos por Bruno Barreto, diretor e produtor, e Carla Camurati, atriz e diretora.

Em nota, o secretário do Audiovisual do MinC, Alfredo Bertini, disse que a composição da comissão “buscou contemplar as diversas etapas da cadeia produtiva do audiovisual e ter diversidade regional, com nomes com currículo robusto de diversas partes do Brasil.”

Quais os critérios para a escolha?

Durante o anúncio do escolhido, na segunda-feira, coube a Beto Rodrigues ser o porta-voz da comissão. De forma sucinta, disse apenas que a escolha levou em conta dois critérios: “qualidade técnica e artística, e adequação ao ‘pensamento da Academia’”. Mas o que seria esse “pensamento da Academia”? Há um consenso de que, entre os votantes da Academia de Hollywood, a maior parte é de pessoas conservadoras, que têm simpatia por filmes com temáticas pouco ousadas, como dramas protagonizados por crianças ou histórias de redenção.

Integrante da comissão, Bruno Barreto falou sobre o assunto em entrevista ao site do MinC. “O comitê [do Oscar] tem que ter tempo para ver os filmes nas projeções marcadas, não pode ver em DVD. A idade deles é muito alta, geralmente acima de 60 anos. Tem gente até que brinca, dizendo que se alguém quer ser indicado a melhor filme estrangeiro, bota um cachorro, uma criança ou velhinho de personagem principal, para ficar mais fácil de agradar”, afirma.

Leia também: Nove exemplos de que o Oscar nem sempre premia os melhores filmes

Os últimos filmes escolhidos para representar o Brasil, no entanto, não seguiram essa lógica. “Que Horas Ela Volta?” (2016) era um drama urbano com forte crítica social, assim como “O Som ao Redor” (2014), de Kleber Mendonça Filho. Em 2015 o escolhido foi “Hoje eu Quero Voltar Sozinho”, que tratava de homossexualismo na adolescência.

Ainda é possível que outros filmes brasileiros concorram ao Oscar?

Sim, mas em outras categorias que não a de filme estrangeiro. Nesse caso, o filme deve ser lançado em circuito comercial nos Estados Unidos até o dia 31 de dezembro. Foi o que aconteceu com “Cidade de Deus”, que não foi indicado como melhor filme estrangeiro em 2003, mas em 2004 recebeu outras quatro indicações, inclusive de melhor diretor para Fernando Meirelles.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]