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O último passeio do último flâneur
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Para Ricardo Zip

Ele começou a se sentir mal logo pela manhã. Aquela dor no braço característica de quem sabe que está na hora de partir. E, justamente por saber, ele resolveu deixar para lá. Já nas primeiras pontadas, resignado como só ele sabia ser, Pedro Holanda, o flâneur maior desta cidade e de todas mais que ele explorou graças ao Google Street View, deitou-se na cama, pegou o celular, ligou para o serviço de emergência (e foi atendido por uma moça muito educada, afetando aquela mistura essencial de falsa calma e falso desespero), fechou os olhos e rezou. Não lhe restava outra coisa.

Nem muito tempo de vida. De olhos fechados, e depois da reza que no fundo considerava inútil, ele se permitiu flanar, possivelmente pela última vez, pelo quarto e sala no qual morava desde que Lucinda o deixara. Lucinda. Talvez Pedro Holanda (Pedroca, Pedruca, Pedrão, Pedrinho, Pedrunha, etc.) devesse ligar para ela e dizer que estava tendo um ataque cardíaco, que ela tinha de ir ao velório e fazer um discurso e mandar tocar Guns and Roses quando o caixão fosse baixado à cova ou quando as portinhas do crematório se abrissem.

Mas não. Antes de flanar pelo apartamento Pedro se permitiu flanar pelo tempo que compartilhou com Lucinda, que ele carinhosamente apelidara de “A Belicosa” – sem que ela soubesse. Começou a caminhar ali na pracinha do primeiro beijo, ela morrendo de vergonha, ele morrendo de desejo, os dois sabendo que aquele beijo marcava o “para sempre” temporário dos relacionamentos contemporâneos. Durou 25 anos aquele “para sempre”, embora ele preferisse chamar o casamento de “semissucesso”.

No segundo seguinte estava com os pés imaginários doendo de tanto andar pelas avenidas largas, ruas aconchegantes, becos escuros, esquinas fétidas e parques claustrofobicamente amplos e verdes do seu casamento. Pedroca riu ao se lembrar das gargalhadas que ele a muito custo conseguia arrancar de Lucinda. Como as rugas do rosto dela combinavam perfeitamente com os dentes arreganhados naquela expressão que era quase uma derrota para ela. Ah, Lucinda, por que você não viu e não vê?, perguntou-se ele, já chegando ao cul-de-sac da separação.

Se um de seus leitores, principalmente o grande e furioso crítico Ricardo Zip, visse a lágrima que escorreu naquele momento pelo canto dos olhos muito pequenos e escuros e velhos e cansados do Pedruca, reclamaria da imagem piegas demais que marcava a obra do flâneur. Mas, neste caso, a lágrima é de dor física, não dessas bobagens românticas, meu caro Zip. O Pedruca sabe que lhe resta pouco tempo de vida e que daqui a algumas horas, se tanto, tudo o que ele sentiu e um dia teve a suposta coragem de expor ao mundo com as metáforas mais gastas do idioma será alvo do escrutínio de pessoas como você.

Pedro ouviu sirenes. O socorro estava chegando. Mas logo ele se imaginou morrendo por não ter deixado a porta do apartamento aberta – um descuido patético e fatal. Tarde mais. Faltava-lhe forças para se levantar. Pedrunha ficou ali, em silêncio, esperando ouvir o estrondo da porta sendo arrombada. Mas horas se passaram (na verdade, dois minutos) e nada. Resignado, o flâneur fez o que sabia fazer de melhor e o que foi anunciado no começo do terceiro parágrafo.

Ele começou dando a volta na cama mesmo. E, ah, se aquela cama pudesse falar, seria a mais sorumbática e monossilábica das camas. Ela soltaria um “é...” para os romances recentes, todos fracassados, um “ai, ai” para os amores imaginários, todos fracassados, e um “ok” para casos que surgiram como esperança de uma grande paixão, mas que morreram logo que ele se virou para o lado e dormiu. Pensando em Lucinda, mas não contem para ela.

Ali no criado-mudo, feito em jacarandá maciço, num tempo em que não havia nenhum problema em chamar a mesinha de cabeceira de criado-mudo, o resumo dos seus últimos anos de solidão: os livros que ele prometeu ler, o infalível remédio para dormir, o copo d´água de dois dias atrás, o celular sem acesso à Internet e um velho telefone de disco que não tocava há pelo menos uma década. Tinha também um cinzeiro sem cinzas e uma luminária sem lâmpada.

Pedrinho flamou mais um pouco ali pelo quarto, admirando uns raios de sol insistentes que mandavam a física para as cucunhas e sabe-se lá como atravessavam o blecaute. Ele pensou em fótons e na estrela amarela e em metáforas sem originalidade alguma que poderia escrever a respeito daquela cena – para o desespero de Ricardo Zip.

Ainda deitado na cama aguardando a morte ou o socorro, o que chegasse primeiro, ele flanou pelo corredor e parou diante do único quadro da casa: uma colagem do mestre do neocubismo tardio curitibano, Jota Xis. Grande Jota Xis. Beberrão, fanfarrão, mulherengo – e sem o menor talento para as artes plásticas. Se ele vendia alguma de suas obras era por pena dos amigos, entre eles Pedro, nos áureos tempos em que a nata da inteligência fazia parte do Grupo Vanguardista e Escola de Samba Curruíras Nanicas.

Era uma colagem abstrata que não expressava nada além da já citada falta de talento do artista. Ali diante do quadro, ou melhor, diante da lembrança de si mesmo no corredor em frente do quadro, Pedro se lembrou da última conversa que teve com Jota Xis, antes de ele ser atropelado por um biarticulado. Tinham falado mal de Ricardo Zip e combinado um frango a passarinho no Stuart – cenário inesgotável das flanadas literárias de Pedrão.

De repente (porque em toda crônica de flâneur que se preste tem que ter uma reviravolta anunciada com “de repente”), Pedro é tirado de seu transe por batidas na porta. Ele quer se mexer, mas não consegue. Ele quer gritar para que os socorristas entrem, sejam bem-vindos, não reparem a bagunça, aceitam um drink?, mas não consegue. Ele quer sobreviver, caramba!, e esfregar na cara de Ricardo Zip a certeza de que sua vida caminhando pelas ruas de Curitiba, pisando em paralelepípedos soltos e se sujando todo de lama, conversando com mendigos que se recusam a serem chamados de moradores de rua, bebendo mais na prosa do que na realidade, admirando pássaros e árvores que não conhece, e entrevistando personagens entediantes e dando importância com seus dramas irrelevantes valeu a pena.

Porque valeu mesmo.

Quando os socorristas finalmente conseguem arrombar a porta, Pedroca está no proverbial túnel escuro, caminhando bem devagar para a luz. Os médicos aplicam adrenalina e fazem massagem cardíaca e dão choques e sentem o pulso do moribundo. Se há pulsação, há esperança, diz um dos paramédicos, roubando uma frase que, por coincidência poética (outra coisa que não poderia faltar neste momento), leu na coletânea mais recente de Pedro Holanda, As Mulas Também Sabem Coicear (Editora Amor & Dor, 2018). Eles colocam o quase-cadáver na maca e saem desembestados para a ambulância.

Lá de dentro, Pedro não podia ver nem ouvir nada. Uma pena. Em seu último caminho como flâneur, ele passou pelo toco do guapuruvu podre que recentemente caiu ao lado do Teatro Guaíra. Pedro rascunhava uma crônica daquelas sobre o assunto. Ele pretendia falar sobre o oxigênio que emanava dos galhos frondosos e sobre o descaso da população, que reclamou do tráfego causado pelo colapso do ser vivo sem nenhum obrigado pelos anos de sombra. Ele imaginou os aplausos de seus leitores fieis pela observação perspicaz, bem como pela crítica sócio-econômica-política mordaz e pontual. Tenho certeza de que essa até Ricardo Zip aplaudiria.

Adiante, passou pela banca do Zé Bento, onde Pedro sempre parava para comentar as manchetes dos poucos jornais impressos que ainda restavam. Zé Bento que fumava cigarros de palha e tinha uma voz naturalmente palmípede, característica que ele gostava de exaltar só para fazer com que os outros corressem para o dicionário. Um pouco mais à frente, a ambulância com o flâneur passou pelo apartamento de Lucinda, mas ela não estava lá porque foi dormir na casa do novo namorado.

Em sua corrida, Pedro Pedrão Pedroca Pedrunha, o flanerinho, como o chamava Muraro, aquele, passou por todos os cenários e personagens que tornam o ato de flanar em Curitiba tão entediantemente óbvio, na opinião de Ricardo Zip (que, agora mesmo, da sacada do seu apartamento no Mossunguê – mas chame de Ecovile, por favor - acabou de sentir um calafrio e comentar com sua mulher que o aperolzinho começou a fazer efeito, até porque ele não é de acreditar em túneis escuros e almas que, mesmo na discordância, se comunicam) e tão caoticamente rotineiro, como diziam os membros Grupo Vanguardista e Escola de Samba Curruíras Nanicas, hoje todos doutores-tolos que em suas aulas na Reitoria exaltam a beleza da pobreza e anunciam os bons ventos da Revolução.

Passou ele pela Borboleta 13 e pelo Plá, que já não aguentam mais dar entrevistas para estudantes de jornalismo. Passou pelas moças do Passeio Público e por todos aqueles aspirantes a Nelsinho que ali jogam dominó. Passou por araucárias, cada qual digna de uma flanerice. Passou pela fauna dos terminais de ônibus, mamíferos e aves e uns poucos répteis com cara de cansaço e tédio. Passou pelos arranha-céus de vidro que são ao mesmo tempo uma ode ao mau-gosto e um antídoto à nostalgia. E passou pelos mendigos, com suas escolhas desastrosas e histórias de vida paradoxalmente edificantes.

E ali na Praça das Nações, ao transpor a catraca do hospital, responsabilidade de um tal João Lossi, personagem que aqui aparece só de relance, mas que nas horas vagas fabrica lambrequins, Pedro foi flanar em outros reinos, sob árvores de Silêncio que margeiam avenidas de Inexistência pontuadas por praças de Saudade onde os mendigos passam a Eternidade falando de um Outro Tempo.

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