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O pesquisador Andoni Cossio procurava outra coisa quando se aventurou numa pilha de papéis na Biblioteca Bodleiana, em Oxford. Professor da Universidade do País Basco, estudava o lado acadêmico de Tolkien para uma obra de referência da editora da própria Universidade de Oxford, o Oxford Handbook of J.R.R. Tolkien, que reúne ensaios de vários especialistas sobre o autor. Trabalhava ao lado de Nelson Goering, da Universidade de Oslo, quando encontrou um datiloscrito (texto datilografado) de dez páginas que ninguém jamais descrevera. Cada folha trazia correções à mão. No alto, na caligrafia caprichada que Tolkien reservava ao que levava a sério, lia-se o título dado por ele: Soul's Ward.
Cossio disse ao jornal The Telegraph que mal acreditou no que via. Os manuscritos de Tolkien costumam ser fragmentários e cobertos de revisões. Este era um datiloscrito limpo, com emendas em letra miúda e legível, que passara despercebido por décadas porque fora catalogado entre outros papéis, longe de onde alguém o procuraria.
O que estava escrito
Soul's Ward (A Guarda da Alma) é a versão que Tolkien deu a Sawles Warde, uma homilia em prosa do início do século XIII, que ele datava por volta de 1210. O texto é uma adaptação livre de uma obra latina, o De custodia interioris hominis, feita para anacoretas e freiras de clausura. Pertence ao chamado Grupo de Katherine, um conjunto de escritos devocionais reunidos num manuscrito da própria Bodleiana.
A homilia é uma alegoria. O corpo aparece como uma casa onde a alma imortal está guardada, sob cerco dos vícios que o Diabo comanda. A Razão é o senhor da casa, e a Vontade, a esposa indisciplinada que ele precisa repreender. Os cinco sentidos são os criados, e as filhas do senhor, as quatro virtudes cardeais. À Prudência cabe a porta: decide quem entra e quem fica do lado de fora.
Boa parte do texto é diálogo. Batem dois mensageiros. O Medo, que anuncia a Morte e diz ter visto o inferno, descreve um lugar sem fundo e sem medida, mais quente do que qualquer fogo da terra. Depois vem o Amor-da-Vida, mensageiro da alegria, que viu o céu e fala da visão de Deus. A Prudência interroga os dois. Tolkien afirmava detestar alegorias na literatura criativa, mas dedicou incontáveis horas ao longo de décadas estudando e traduzindo esta.
O medievalista
Quem conhece o autor pelos hobbits raramente encontra esse Tolkien. Antes da fama mundial, ele foi um dos maiores estudiosos de língua e literatura medievais do século XX. Sua especialidade era um dialeto do início do inglês médio, escrito nas West Midlands inglesas, que ele batizou de língua AB, nome derivado dos manuscritos conhecidos como A e B, nos quais identificou características linguísticas comuns. .
Em 1929, num ensaio que os medievalistas ainda citam, defendeu que aqueles textos apontavam para uma língua literária já padronizada na região no começo do século XIII. Cresceu nessas mesmas terras, cujas paisagens em torno de Birmingham depois alimentariam a Terra-média. Suas traduções de poemas medievais, como o Beowulf e Sir Gawain e o Cavaleiro Verde, já serviram a muitos leitores de porta de entrada para textos que de outro modo ficariam restritos aos especialistas. No Brasil, chegaram a circular pela Martins Fontes e hoje estão fora de catálogo. Cossio aposta que Soul's Ward pode cumprir o mesmo papel.
Como ele traduziu
Os pesquisadores datam o trabalho de 1955 ou 1956. Numa folha de rosto do rascunho, Tolkien rabiscou "maio de 1956". São os anos em que O Senhor dos Anéis chegava às livrarias e começava a torná-lo conhecido fora da universidade. Enquanto o público descobria o Anel, ele passava o tempo livre vertendo para o inglês moderno uma homilia de mais de setecentos anos.
A opção foi por uma tradução literal, num inglês fluente de tom levemente arcaico, com direito ao pronome thou. Tolkien não tentou reproduzir a densa aliteração do original, e preferiu a clareza do sentido ao efeito sonoro. Onde o texto medieval trazia "ase liun iburst", ele escreveu "as a lion with bristling mane" (como um leão de juba eriçada). A juba é acréscimo dele: o original falava apenas de um leão eriçado.
Que não tenha publicado a tradução diz pouco sobre o que pensava dela. Tolkien publicava pouquíssimo do que escrevia, a ponto de um colega lamentar, no obituário, que tanta coisa excelente nunca tivesse chegado às mãos de ninguém. A primeira versão de sua tradução de Sir Gawain levou cerca de trinta anos para ficar pronta.
Outra gaveta, em Dublin
O caminho do datiloscrito até a Bodleiana passou por uma gaveta em Dublin. Em meados dos anos 1950, Tolkien enviou uma cópia da tradução a Thomas Patrick Dunning, padre católico, medievalista e seu ex-aluno, especialista justamente em homilias, o que fazia dele um juiz ideal para o trabalho. Não se sabe se Dunning chegou a dar sua opinião. Não há cartas sobre o assunto, e o datiloscrito não tem uma só anotação dele.
Dunning morreu em 1973 e a tradução continuou guardada. Dez anos depois, Alan Bliss, que ocupara o antigo posto de Dunning na University College Dublin, fazia uma faxina na sala quando achou numa gaveta um envelope com a letra do antecessor: "Tolkien, Soul's Ward". Bliss escreveu a Christopher Tolkien, filho e executor literário do escritor. Christopher nunca tinha ouvido falar daquilo. Numa nota de 1985, registrou que o texto fora datilografado pelo pai e que, pela aparência, parecia dos anos 1950.
A edição assinada por Cossio e Goering saiu nesta semana na revista The Review of English Studies, da Oxford University Press, em acesso aberto. A descoberta mostra que, mesmo meio século após sua morte, Tolkien continua produzindo inéditos, seja como o criador da Terra-média ou o filólogo que passou a vida mergulhado nos textos medievais que ajudaram a moldar sua imaginação.






