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Cena do seriado “Dark”, da Netflix | Julia Terjung / Netflix
Cena do seriado “Dark”, da Netflix| Foto: Julia Terjung / Netflix

A primeira produção alemã da Netflix, “Dark”, é uma série de suspense que tem como mola-mestra a ideia de viagem no tempo: túneis subterrâneos conectam, inicialmente, três momentos da vida de uma mesma cidade da Alemanha, e pessoas que desaparecem em 2019 podem ser ver lançadas em 1986 ou 1953, assim como desaparecidos do passado às vezes se materializam no futuro.

Os criadores da série decidiram – ao menos pelo que se depreende na primeira temporada, e a despeito de alguma iconografia ocultista – que seu túnel do tempo seria um produto de ficção científica, e para tanto abraçaram as ideias de espaço-tempo e de “wormhole” – “buraco de minhoca” – que estão no arcabouço da Teoria da Relatividade Geral. 

Publicada por Albert Einstein em 1915, dez anos depois da Relatividade Restrita, a Teoria da Relatividade Geral oferece uma descrição do Universo em que tempo e espaço não existem como entidades separadas, mas como diferentes dimensões de uma entidade única, o espaço-tempo: o Universo deixa de ser visto como um conjunto de coisas que avança do passado para o futuro e passa a ser encarado como a totalidade dos pontos do espaço e dos instantes de tempo. 

Essa ideia já havia sido proposta por outro cientista, o matemático alemão Hermann Minkowski, em 1908, mas foi seu papel crucial na teoria de Einstein que a tornou popular. 

Hoje e amanhã 

Uma vez formulada, a noção de espaço-tempo abre caminho para o salto conceitual expressado na frase de Einstein que abre a série: “a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente”. Isso porque um mapa do espaço-tempo contém não apenas todos os lugares, mas também todos os momentos: passado, presente e futuro. Sob esse ponto de vista, nem o passado desapareceu, nem o futuro ainda está porvir: tudo já faz, sempre fez e sempre fará parte do Universo. 

Essa forma de ver as coisas traz uma série de questões filosóficas e científicas intrigantes, como por que não conseguimos nos mover no tempo com a mesma liberdade com que nos movemos no espaço, ou por que nossas mentes não registram informações do futuro, mas apenas do passado, ou se há realmente livre-arbítrio, uma vez que a história completa do Universo, do início ao fim, já estaria gravada no espaço-tempo. 

Existem algumas tentativas de resposta, embora ainda nada de definitivo. Cientistas já sabem, por exemplo, que a identidade entre passado e futuro não é tão perfeita quanto a frase de Einstein sugere. 

Existem algumas assimetrias, sendo a principal delas a da entropia, ou desordem: sistemas deixados à própria sorte, sem receber energia de fora, tendem a se tornar mais desorganizados com o passar do tempo. Por exemplo, se você assiste a um filme em que cacos de vidro e gotas de líquido espalhados pelo chão se juntam magicamente no ar, pulam para o alto de uma mesa e formam um copo cheio de leite, sua intuição logo lhe diz que as imagens estão passando em ordem temporal reversa. 

Buracos negros 

Além de incorporá-lo como conceito, a Relatividade Geral mostra que o espaço-tempo é maleável: a presença de massa ou energia é capaz de deformá-lo. Uma descrição popular da teoria, dada pelo físico americano John Archibald Wheeler, resume-a da seguinte forma: “o espaço-tempo diz à matéria como andar; a matéria diz ao espaço-tempo como curvar”. A gravidade que sentimos, por exemplo, seria um efeito da curvatura do espaço-tempo causada pela massa do planeta Terra. 

O buraco de minhoca, ou Ponte de Eisntein-Rosen, como também é chamado no seriado, representa uma deformação radical do espaço-tempo: em vez de apenas acomodar-se ao redor de uma massa, como um colchão sob o peso do corpo, ele é esticado até criar um funil, ou túnel, que conecta regiões distantes. 

A ideia da Ponte de Einstein-Rosen vem de um artigo, publicado em 1935 e assinado por Albert Einstein e Nathan Rosen, que sugeria que túneis no espaço-tempo poderiam ser uma alternativa para singularidades – regiões do espaço-tempo onde os cálculos da relatividade indicam que alguma quantidade física atinge valores absurdos, como uma massa concentrada num ponto infinitamente pequeno. 

Alguns anos depois da publicação desse artigo, singularidades como as que preocupavam Einstein e Rosen começaram a ser chamadas de buracos negros, e os cientistas propuseram a teoria dos horizontes de eventos – barreiras que impedem que os efeitos absurdos das singularidades afetem o Universo em geral. 

Buracos no tempo 

Com isso, a hipótese das pontes tornou-se desnecessária, e outros desenvolvimentos da física mostraram que, mesmo se existissem, elas seriam instáveis: não durariam o tempo necessário para que uma única partícula de luz as travessasse. 

Em 1988, um grupo de físicos do Instituto de Tecnologia da Califórnia propôs que, se fosse possível criar buracos de minhoca estáveis, eles poderiam funcionar como máquinas do tempo, conectando momentos diferentes sobre um mesmo ponto do espaço. 

Essas passagens, no entanto, teriam apenas um par de pontos de entrada, não três – como em “Dark” – e é improvável que a energia de um acidente nuclear (ou de um dispositivo à base do isótopo radioativo césio-137, como o construído pelo relojoeiro misterioso da série) bastasse para criar uma delas. A descrição da máquina do relojoeiro é pura “technobabble”, nome dado por escritores e fãs de ficção científica à conversa que parece ser sobre tecnologia, mas na verdade não passa de jargão sem sentido, e só existe para criar tensão e fazer avançar o enredo. 

Quanto à possibilidade de buracos de minhoca reais, os autores do artigo de 1988 também demonstraram que a estabilização de um deles, para permitir a passagem segura de seres humanos, requer algo como matéria com massa negativa, coisa que talvez não exista no Universo.

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