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O taxista Caio Boher, do Café no Táxi.
O taxista Caio Boher, do Café no Táxi.| Foto: Arquivo Pessoal/ Caio Boher

Em meio à pandemia de Covid-19 causada pelo novo coronavírus, o serviço de delivery vem sendo um ponto de apoio fundamental para quem pode seguir as recomendações do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde de manter o isolamento social, comprovadamente a medida mais eficaz para diminuir a curva de contaminação e não sobrecarregar o sistema de saúde. No Paraná, por exemplo, o governador Ratinho Jr. colocou a entrega entre a lista das profissões essenciais, que podem continuar atuando. Mas, mesmo com a orientação das foodtechs sobre os cuidados de higiene e distanciamento necessários neste período, entregadores também têm trabalhado com a insegurança de precisar estar nas ruas.

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Rony Olibrici, 29 anos, tem nas entregas de aplicativo a sua segunda fonte de renda: imigrante haitiano, está no Brasil há seis anos e, depois do seu turno como auxiliar veterinário em uma clínica 24 horas, faz delivery com a sua moto. Ao pegar uma entrega no último domingo em um restaurante no Centro de Curitiba, estava paramentado com máscara descartável. Antes de coletar a sacola, passou álcool gel nas mãos e repetiu depois de guardar a comida na mochila, que higieniza com álcool 70% líquido. Também coloca uma jaqueta grande por cima da roupa, que deixa logo na entrada de casa. Os materiais, segundo ele, foram comprados com recursos próprios. “Me cuido ao máximo, mas só Deus pode cuidar. Penso que esse momento é bom para as pessoas refletirem, ficarem junto com as suas famílias, conversarem”, diz. Mesmo com o vaivém das motos e bicicletas pelas ruas, Rony não tem reparado em um aumento considerável das entregas. “Hoje de manhã só fiz quatro viagens, antes eu costumava fazer até 12 corridas. O preço dinâmico também não está alto”.

Para a entregadora Josiane Mariano dos Santos, 32, que trabalha como motogirl há oito anos, o movimento se mantém na média – o que subiu vertiginosamente foram as compras no supermercado. Apesar da importância do serviço, fazer compras é o menos vantajoso para quem atua no ramo. “A gente leva mais tempo, às vezes não tem o produto, demora para o sistema modificar e demora mais tempo para ganhar do que o delivery, que você só pega a encomenda e deixa na porta do cliente. Você precisa comprar, passar no caixa, às vezes o app trava. Já aconteceu de eu perder a corrida e o tempo também”. A higienização das mãos e da caixa da moto é o cuidado que ela vem tomando, além do distanciamento na hora de deixar o produto aos clientes.

Mesmo com o empenho desses profissionais, tanto Rony quanto Josiane falaram que as gorjetas não aumentaram (opção disponível em todos os apps de entrega – esse valor é destinado integralmente ao profissional). “Às vezes ganho R$ 1, mas é bem de vez em quando. Com certeza as gorjetas fariam muita diferença nesse momento”, fala Josiane.

iFood anunciou fundo de R$ 1 milhão para entregadores dos grupos de risco. Foto: divulgação.
iFood anunciou fundo de R$ 1 milhão para entregadores dos grupos de risco. Foto: divulgação.

Dinâmica alterada

Parte dos restaurantes e pequenos empreendimentos locais como cafés e docerias intensificaram a sua divulgação via delivery, trabalhando principalmente com as foodetechs (como iFood, Rappi e Uber Eats). Apesar da facilidade na parceria com os apps, Camila Frankiv e Amanda Kosinski, do restaurante Central do Abacaxi, deixaram de oferecer essa forma de entrega aos clientes depois do primeiro fim de semana da quarentena em Curitiba. “A maior crise pra gente foi moral. Ao mesmo tempo que a gente precisa da Central para viver e pagar as meninas, a gente não queria expô-las ao risco e preservar os clientes. Percebemos também que os motoqueiros estavam sem instrução. Entendemos que eles precisam do trabalho para sobreviver, mas a gente não se sentiu segura. Ficamos apreensivas e mudamos o sistema”, conta Camila. Agora, os pedidos são realizados apenas via WhatsApp.

Entre as medidas adotadas, o restaurante, que trabalha com ingredientes orgânicos e produtores locais, reduziu o cardápio, atende apenas encomendas antecipadas e diminuiu os dias de atendimento (somente aos sábados e domingos). Isso permitiu que elas trabalhem com uma equipe reduzida na cozinha e revezem as funcionárias – uma delas, que tem 50 anos, ficará em casa durante todo o período de isolamento social. Quem está trabalhando também não utiliza transporte público. “Reduzimos o cardápio só para termos o suficiente para que todo mundo receba o seu salário. Nós poderíamos fazer entrega todos os dias, temos demanda. Muita gente não tem tempo, não sabe cozinhar, mas o momento é ficar em casa. É a melhor solução agora”, acredita Camila.

Os fornecedores também não entram no restaurante e os clientes que pegam os pedidos direto na casa se deparam com uma espécie de barreira feita com mesas. Os horários de retirada são organizados para que um cliente esteja presente por vez e há álcool gel para higienização das mãos. Camila e Amanda também estão solicitando que os pagamentos sejam feitos digitalmente, para evitar contato.

Fora a rotina mais rigorosa de higiene na cozinha, a Central do Abacaxi fechou parceria somente com um entregador, o taxista Caio Boher, do projeto Café no Táxi (antes da pandemia, ele servia café passado na hora e chá aos clientes, além de trabalhar em eventos que envolvem cafés especiais). A escolha foi pela cautela tomada por Caio: usa máscara e luvas, higieniza o carro com produtos bactericidas, tem álcool gel no veículo e até tirou a barba; ele fechou parceria com alguns estabelecimentos locais, o que o permite ter alguma renda nesse momento em que o táxi está parado. Também está cobrando taxas fechadas, e não o valor do taxímetro. “Reduzi os preços para ajudar os lugares e para eu sobreviver também”. Outro serviço prestado por ele é fazer compras de supermercado para pessoas em grupo de risco, farmácia, e levar em consultas médicas ou vacinação. Mas, para preservar a própria saúde, Caio atende apenas as corridas agendadas e tem tentado ao máximo se manter também em isolamento social.

A consultora de negócios do Sebrae Paraná Márcia Giubertoni avalia que fechar com um único entregador terceirizado ou realizar o delivery com equipe própria é uma boa alternativa para esse momento. “Dessa forma é mais fácil garantir que todos os cuidados de higiene estão sendo tomados. Também analise se negócios próximos estão precisando do serviço. Isso barateia os custos e fica mais interessante para a pessoa que faz a entrega”. Se o estabelecimento já trabalhava com aplicativos, Márcia orienta que o empreendedor esteja atento para as medidas de segurança e higiene. Caso contrário, ela indica testar a dinâmica e analisar os custos do delivery e ver e se eles cabem no negócio neste momento. Reforçar a comunicação é outro aspecto fundamental, ressalta a consultora. “Deixe claro que está fazendo o serviço e todos os cuidados”. Márcia frisa ainda que o Sebrae está com atendimento via internet intenso voltado aos empreendedores, via canais de WhatsApp, telefone e consultoria online sem custo.

Apoio

Passados os primeiros dias de isolamento social, as foodtechs começaram a anunciar medidas de apoio aos entregadores. O iFood divulgou um fundo no valor de R$ 1 milhão para afastar entregadores com mais de 65 anos ou em condições de risco como doenças pulmonares, cardíacas, diabetes, insuficiência renal ou pessoas com obesidade mórbida, que se encaixam no chamado grupo de risco da doença (onde há mais probabilidade de complicações e óbito). Entregadores com mais de 65 anos terão a conta inativada por 30 dias e receberão um valor baseado na média dos seus repasses dos últimos 30 dias. Os demais grupos de risco devem entrar em contato via Portal do Entregador para solicitar o acesso aos valores. Profissionais com sintomas ou infectados por Covid-19 recebem valor solidário por um outro fundo (também de R$ 1 milhão) pelos 14 dias de quarentena; por segurança, a conta do parceiro fica inativa.

Na última sexta-feria (27), a foodtech começou uma ação para distribuição de kit com álcool gel e material informativo nas cidades mais afetadas pelo Covid-19: São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Brasília e Curitiba. Vans serão espalhadas pelas cidades e o entregador receberá um chamado para ir até o veículo. Segundo o iFood, os chamados serão individuais para evitar aglomerações e grandes deslocamentos. Todas as empresas estão orientando para que o delivery seja feito sem contato físico e os pagamentos realizados antecipadamente via app.

O Rappi e também o Uber Eats informaram que haverá um fundo para atender financeiramente colaboradores com sintomas ou com comprovação de infecção por Covid-19, com auxílio durante 14 dias. O Rappi contratou mais personal shoppers para atender pedidos de supermercados e farmácias parceiras (segundo eles, há disponibilização de máscaras e álcool gel gratuitamente aos trabalhadores). Para os restaurantes parceiros da plataforma, o prazo de pagamento foi reduzido de 14 para sete dias, a partir de 1.º de abril. Em seu site, o Uber destaca que entre as medidas haverá recursos extras para motoristas e entregadores manterem seus carros limpos, e que é possível solicitar um reembolso de até R$ 20 para adquirir álcool gel ou outros produtos que auxiliem na higiene da pessoa e do veículo.

A Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba reforçou as recomendações de segurança para o delivery: os entregadores precisam manter distância de 1,5 m dos demais entregadores e funcionários dos restaurantes enquanto aguardam os pedidos, higienizar as mãos com álcool, deixar a entrega preferencialmente na portaria e higienizar as máquinas de pagamento. As empresas também devem oferecer acesso para lavagem das mãos, com água, sabão e toalhas descartáveis. A secretaria destaca ainda a importância dos consumidores optarem por pagamento digital antecipado, além de descartar todas as embalagens antes de consumir o produto.

Conteúdo editado por:Ricardo Sabbag Zipperer
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