
A curitibana Bianca De Mio Ferraz bem que tentou resistir às alegrias da boa mesa. Depois de passar pelos tradicionais colégios Tistu e Nossa Senhora Medianeira, ingressou no curso de Engenharia Florestal da UFPR, disposta a seguir os passos do pai – Lívio – também engenheiro. Até que se viu, aos 23 anos, passaporte nas mãos, com embarque marcado para Paris e matrícula feita no conceituado Le Cordon Bleu, de alta gastronomia.
Voltou quatro anos depois, em vias de se tornar a chef Bianca De Mio, uma das mais respeitadas profissionais de gastronomia do Paraná, com nome inscrito no circuito nacional. Nunca se deixou seduzir pela fama, como atestam os que provaram de sua intimidade. Era comum, algum de seus irmãos, em viagem, se deparar com os créditos dados a ela em menus de restaurantes estrelados. Soltavam de traques a fogos. Ela se portava igual, um tipo italianíssimo, despachada, azeitada em humor e ironia, “dona de uma firmeza carinhosa”, como define a mãe, Iva De Mio, 79 anos.
Mesmo ao se transformar numa grife – com pedidos de consultorias aqui e ali – Bianca manteve por tempos uma cantina no fundo do endereço em que foi criada, na Avenida Água Verde. O local era infinitamente menor do que os espaços criados por seu antepassado famoso, o construtor João de Mio – autor de igrejas como a Santa Terezinha e a Nossa Senhora das Mercês. A escala diminuta lhe agradava. Recebia não mais de 20 pessoas por vez. Para ela, tinha de ser serviço completo: estar à mesa com tempo, comer bem e conversar.
Num desses petit comité uma amiga lhe apresentou o educador Marco Ferraz – a quem amou e foi correspondida. Tinha 36 anos e deixou Curitiba para acompanhá-lo, adotando o bairro Higienópolis, em São Paulo, como seu novo lugar no mundo. Passaram uma década juntos – pelo que se conta, a melhor de suas vidas.
Bianca cresceu numa casa com cozinha barulhenta, apinhada de tias e nonnas aptas a dar cabo das melhores receitas – sem margem de erro. Para sua tristeza, desfrutava pouco dessas refeições. Foi menina e adolescente com problemas crônicos de saúde – o que a proibia de se entregar aos melhores quitutes. Na vida adulta – contra todas as evidências – revelou-se dona de um paladar aguçadíssimo. Era um desafio à ciência. “Esta bolacha da torta está passada”, avisava, para surpresa dos que se fartavam, sem nada perceber. Quando trocou a engenharia pela cozinha, à sua volta ninguém discutiu. A gastronomia a tinha salvado de um longo inverno.
O reconhecimento veio a galope – no Capoani Caffé, do qual foi dona, ou em Brasília, onde trabalhou. Caberá aos pesquisadores de alimentação calcular as inúmeras citações a Bianca De Mio nos jornais, revistas e publicações especializadas. Difícil será calcular a extensão de seu carisma. “Como ela era? Ora, só alegria”, resume Iva, tirando das estantes os porta-retratos em que filha é sempre a feição mais radiante em meio a salas e refeitórios tomados de gente, nas muitas viagens que fez ou em meio à programação cultural da cidade – uma de suas paixões. Convidá-la para preparar um casamento ou evento era sinônimo de saber que seria mais cumprimentada que os noivos ou os anfitriões.
Uma de suas últimas fotos data de 21 de julho de 2014, com Marco, em Paris. Na imagem, oferece um brinde. Os tempos seguintes seriam de luta. Passou por um ano e oito meses de provações. Perguntava-se “por que eu?”, para em seguida voltar às raias da cordialidade, sua marca registrada. Mãe e filha ficaram 45 dias de mãos dadas – na longa vigília dos hospitais. Nesse tempo, Iva ouviu os mais belos depoimentos que poderia esperar sobre sua Bianca. “E eu que nem imaginava que era tão amada”, confidenciou, diante do banquete de palavras que os seus lhe reservaram ao fim.
A chef só aceitou remédios para conter a dor oncológica nos dois últimos dias. As declarações continuaram, apesar de seu silêncio. Os médicos asseguraram que estava ouvindo o que lhe diziam amigos e parentes. Todos eram só gratidão à mulher que lhes fez sentir figurantes de uma Festa de Babette.
Deixa marido, pai e mãe, quatro irmãos, oito sobrinhos e duas enteadas.
Dia 28 de abril, aos 46 anos, de complicações de um câncer, em São Paulo.






