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lista de falecimentos - 03/08/2015

Danilo Baggio: o viajante do Mundo Novo

 | Arquivo da família
(Foto: Arquivo da família)

Quando lhe nasceu o primeiro neto – Leonardo – Danilo Baggio arranjou uma placa para o sítio que mantinha em Campo do Tenente, na Região Metropolitana de Curitiba. “Rancho do Nonno”, escreveu na frente, rebatizando o lugar onde se refugiava nos fins de semana. Ficou contente de fato. A família tinha aumentado, motivo o bastante para tilintar ao alto fartas copas de vinho. Mas não só. O novo membro tornava Danilo ainda mais parecido com outro Baggio, Pedro, titular no cargo de “grande avô”.

Pedro Baggio é hoje o nome de uma bela travessa arborizada – entre as ruas Samuel Cezar e João Antônio Xavier – na velha Água Verde. Justa homenagem. Difícil contabilizar quantos quarteirões do bairro são ocupados por seus descendentes. Ali, teve seis meninos e duas meninas com Ema Batista, todos criados numa chácara, às margens de onde hoje passa uma nervosa Via Rápida. O mais novo se chamava Danilo – e quis o destino que ele e Pedro fossem não só pai e filho, mas companheiros de viagem.

Danilo era pouco mais do que um guri quando Ema morreu, vitimada por uma hemorragia. A tragédia fez do caçula dos Baggio um personagem de Charles Dickens. Passou pela vida lembrando o calvário daqueles tempos. Durante as narrativas, deixava a audiência com os olhos marejados. Difícil não se comover ao ouvir a saga do pequeno órfão que entregava leite numa Curitiba que o vento levou.

O serviço era feito na madrugada, debaixo de cerração, com os pés expostos às geadas que caíam sem clemência na década de 1940. A neblina fria foi sua paisagem de menino. Vez ou outra, uma boa senhora lhe oferecia bebida quente e uma palavra. Era um “sem mãe”, afinal. Mas não se fez triste. Tinha os irmãos e, sobretudo, seu Pedro, o pai, com quem formava uma dupla imbatível nos campeonatos de bocha. No carteado, ilustres ases. Pareciam-se. Causavam.

Assim permaneceram mesmo depois de Danilo completar 18 anos, subir a Avenida República Argentina e se empregar no Posto Santo Antônio. Estava disposto a aprender um ofício, regra na sua colônia, pródiga em produzir artesãos de todas as castas. Tornou-se pintor automóveis, um bamba. Não lhe faltava mais nenhum predicado para a vida adulta – ou quase.

A família Marodin foi bem recebida ao trocar “Campo Largo da Piedade” pela Água Verde. Eram imigrantes como os outros, seguiam os costumes. Para Danilo, havia um motivo a mais para tratar os novos vizinhos com rapapés: a adolescente Joana Inês – a Joaninha. De longe, dizia sentir pena ao vê-la, tão menina, cruzar os campos rumo ao Borguetto, nos altos do bairro, onde trabalhava como operária da fábrica da Todeschini, a exemplo de dezenas de outras gurias italianas da região.

Numa festa de Natal na Sociedade 25 de Maio, ali perto, tirou-a para dançar. Ele fazia boa figura no salão. Engataram namoro – primeiro no portão, depois na sala –, tudo controlado nos ponteiros do relógio. À noite – depois do expediente na firma –, Danilo ia ao barracão dos Dorigo, acepilhar cada tábua da casa que erguia para poder se unir a Joaninha. Casaram-se em 19 de dezembro de 1959, na capelinha da paróquia. Foram felizes para sempre.

Logo vieram as crianças – Gilson, Gilcezar e Gilciane. O Posto Santo Antônio foi trocado por uma oficina própria, no quintal dos Baggio. Em um dia de 1972, Pedro se foi. Em memória do patriarca, Danilo continuou praticando la dolce vita. A cidade duplicou de tamanho, mas ele criava animais, tratando-os como da família – patos, gansos, porcos, cachorros e até macacos. Às sextas-feiras, era sagrado: partia para a pescaria – podia ir ao Ribeirão dos Padilhas, ao Rio da Várzea, a Guajuvira, sempre a bordo de um Chevrolet apinhado de gente. Voltava domingo, munido de histórias de pescador. Nos meses de maio a agosto, não resistia às caçadas, enquanto foram permitidas.

Nas noites da semana, costumava ir ao “negócio”, como se dizia, para algumas doses de beberagem com prosa. Se Danilo Baggio não estava, não tinha graça. Enchia qualquer lugar. Esbanjava talento para as frases de efeito. Sabia ser dramático como um astro de ópera. A depender do tamanho da festa, todos previam que o veriam chorar, mas nada que lembrasse um enterro: paralelo ao pranto, cantava.

Entre as canções prediletas, a guarânia Índia e a embriagada O ébrio, de Vicente Celestino. Um historiador que quisesse estudar a cultura dos imigrantes italianos encontraria em Danilo uma síntese perfeita – na relação umbilical com a natureza, no gosto pelo trabalho e pela aventura, no apreço pelas amizades. Não há camada do cotidiano à qual não tenha comparecido como um viajante em busca de um Mundo Novo. Foi qual os seus que desembarcaram no litoral na década de 1870, não gostaram do que viram, e ergueram uma sociedade a seu modo, Serra acima, na “Colônia Dantas” – como chamavam a Água Verde naqueles idos.

É verdade que se chateava – sem despistar. Certa vez, desgostoso com os fiados da oficina, baixou as portas e virou motorista de táxi. Seis anos depois, reabriu seu martelinho de ouro. Não tinha remédio, o quarteirão dos Baggio era seu país. Um país que tinha time – o Pinheiros F.C. A primeira camiseta azul gralha, com uma araucária pintada no peito, foi feita por Joaninha, parceira das emoções à flor da pele do marido. Limpava os peixes, fazia as cervejas artesanais, mantinha a casa cheia. Chegou a confidenciar que não saberia viver sem ela.

O futuro seguiu lhe dando nos nervos. Desobedecia. Deixava a chave do carro na ignição – um Fusca branco 1960, que emprestava sem frescura para amigos e conhecidos que queriam aprender a dirigir. Na feira da Rua Coronel Dulcídio, estacionava ao bel prazer – o guarda municipal desistiu de censurá-lo. Proibido de criar pintassilgos, soltou cobras e lagartos contra o Ibama. Em protesto, pediu que o fotografassem varrendo uma rua – simulando que foi obrigado a prestar “serviços comunitários” por insistir nas gaiolas. Conformou-se que não podia ter uma Arca de Noé, mas tratava o pinscher “Tipo” como o “número um” da escala da evolução.

Depois de muito resistir, seu terrenão na Água Verde deu lugar a uma fila de sobrados. Sofreu, mas até que curtiu a placa “Condomínio Danilo Baggio”. Posou para os retratos na inauguração, depois seguiu fiel a si mesmo, um “anarquista, graças a Deus”. Levou a casa de madeira – aquela que ergueu para viver com Joaninha – para o “Rancho do Nonno”, em Campo do Tenente. Lá a reconstruiu, perto do rio, encurtando de vez a distância entre tudo o que mais amou. Deixa viúva, três filhos e cinco netos.

Dia 21 de junho, em Curitiba, aos 82 anos, de complicações cardíacas e diabete.

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