
Em 10 de abril, o protesto de alunos da rede estadual em frente ao Núcleo Regional de Educação de Curitiba em consequência da greve foi a deixa para Deuzita Cardoso da Silva, chefe do núcleo, mostrar a sua personalidade. Era uma gestora tranquila e conciliadora, mas determinada. A educadora recebeu prontamente o grupo e prometeu visitar todas as escolas e identificar os problemas; e assim fez. Reuniu os professores e pediu o retorno das aulas, justificando a situação dos alunos. “Viveu o magistério”, conta a irmã, Cristiane Cardoso Santos.
O sonho de Deuzita era assumir a chefia do Núcleo de Educação, o que conseguiu realizar em março, depois de 25 anos como professora e diretora da rede estadual. Estava entusiasmada com as mudanças. Segundo a irmã e atual Coordenadora da Educação Profissional do NRE Curitiba, em “dois meses de mandato, Deuzita revolucionou o núcleo”. Também desenhava outro projeto para futuro: daqui a quatro anos queria ser empossada como secretária da Educação do Paraná.
Cristiane acompanhou de perto a dedicação da irmã e colega. O objetivo era encontrar soluções para alunos e diretores; e também manter um bom ambiente de trabalho. Tinha pelos colegas o mesmo carinho que sempre demonstrou pelos alunos. Todos os dias chegava pela manhã e passava para dar bom dia aos funcionários dos cerca de dez departamentos existentes na sede do NRE de Curitiba, no Alto São Francisco. Eram quase 130 pessoas que recebiam a sua atenção, um abraço e um beijo. “Ela tinha uma necessidade de abraço e aproximação”, define a irmã.
A estreia à frente do quadro-negro foi como professora de 1.ª a 4.ª série na Escola Estadual Dom Bosco, no bairro CIC –que atualmente é municipal. Ela cobriu a licença-maternidade de uma colega. Quando o período finalizou, seguiu para o Colégio Ivo Leão, no mesmo bairro, para ministrar aulas de 5.ª a 8.ª série.
Era uma professora participativa. Fazia teatro e dança com os alunos; viajava com eles; ia à escola aos fins de semana; e participava com entusiasmo dos eventos sociais com a comunidade. Foram sete anos em sala de aula. No Ivo Leão conheceu o marido, José Antonio da Silva, que na época era diretor da escola. Casaram-se em 1992. O matrimônio foi breve, pois Deuzita ficou viúva em 2001. Desde então nunca mais se relacionou com ninguém, conta a irmã. “Cada vez mais dedicou-se à profissão”.
Em 2002, foi transferida para o Colégio Estadual Pedro Macedo, no Portão. Dois anos depois, aceitou o cargo de diretora da escola e permaneceu nele por 11 anos.
Formada em Letras, Deuzita era apaixonada por literatura. Quando faltava algum professor na escola, ela se prontificava para entrar em sala de aula e discorrer sobre o assunto que mais gostava. Era comum também vê-la sentada com um aluno no pátio conversando; ou até mesmo entregando lanche na hora do intervalo. Mesmo diante de todo esse carinho, Deuzita era firme. Assumiu a escola em um período complicado, mas superou as dificuldades com a colaboração dos funcionários, professores e da comunidade. “Ela ‘batia’ com uma mão, enquanto a outra afagava”, define Cristiane, tamanha aproximação que gostava de manter com o outro. Também dava abraço e beijo nos alunos.
Fora da escola, fazia todas as vontades dos sobrinhos. As reuniões de família eram o seu divertimento. Se não estava trabalhando, curtia a companhia dos pais, irmãos e sobrinhos. Era comum voltar para casa somente de madrugada; depois de tomar café, jantar e relaxar na casa dos pais. Mantinha o apartamento somente para dormir. Durante o dia ainda fazia três ou quatro ligações para o pai, seu Amadeuzinho, como o chamava, para saber como ele e sua mãe estavam. Era dedicação exclusiva.
Os sobrinhos fizeram inúmeras viagens com a “tia do coração”. Passavam os fins de semana e feriados na chácara em Campo do Tenente, na Região Metropolitana de Curitiba, ou na casa em Guaratuba, no Litoral do Paraná. Era comum também a reunião dos amigos dos sobrinhos, os quais viravam seus amigos. Com tantos convidados, sempre mantinha estoques de comida. Se o jantar era para dez pessoas, a quantidade feita era para 30. Tudo tinha de sobrar. Sushi era sua comida preferida, lembra a irmã. Deuzita não se esqueceu de pedi-lo para a irmã mesmo quando esteve hospitalizada.
Deuzita descobriu um câncer de mama nos últimos meses. Passou por um mês de tratamento. Mas foi para o hospital por causa de complicações de uma hérnia no estômago. Estava hospitalizada quando soube que iria receber um prêmio da Assembleia Legislativa pela dedicação à educação, em 30 de maio. Sem condição de ir à cerimônia, pediu que a irmã fosse em seu lugar. Cristiane negou porque iria chorar muito. Deuzita deu adeus naquele dia. Deixa os pais Amadeu e Maria Lorena, os três irmãos e três sobrinhos.
Dia 30 de maio, aos 49 anos, de câncer, em Curitiba.
Lista de Falecimentos - 17/06/2015
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