
Casamentos, festas de aniversário, compras, chá com as amigas. Não importava a ocasião, em horário de jogo, Doricea Alves Rosseto não abria mão da companhia do bom e velho radinho de pilha. Tudo para não perder um só lance dos jogos do Paraná Clube, time que acompanhava desde a época em que era Esporte Clube Água Verde.
Nascida em Paranaguá, mas criada em Curitiba, dona Ceia – como era chamada carinhosamente pelos amigos e pela família – era uma apaixonada não só pelo Tricolor da Vila, mas pela arte do futebol. Tinha até curso de árbitro no currículo.
A paixão foi, inclusive, compartilhada com o marido, Mário. Militar da Aeronáutica, ele ajudou diversos jogadores amadores da cidade em início de carreira, numa época em que o futebol ficava longe do glamour e dos altos salários.
“Minha mãe brincava ao dizer que aquilo que a gente não tinha de dinheiro era por causa do futebol”, relembra, divertida, a filha Everly. Da união, que durou 34 anos, também nasceu Marisa.
Outra característica marcante de Doricea era a personalidade forte. Miudinha na aparência, levava a vida de um jeito ímpar. Não gostava de depender de ninguém – mesmo na velhice – e era difícil vê-la chorando. O que não significa, porém, que fosse uma pessoa dura. Orgulhava-se dos netos, bisnetos e era muito carinhosa com os genros. Com as amigas, reunia-se quinzenalmente para um lanche, tradição que durou quase 50 anos.
Para comer, não tinha frescura. Gostava ela mesma de ir ao mercado e escolhia com esmero os ingredientes dos pratos que fosse cozinhar. Quando estava sem tempo, recorria aos famosos cachorros-quentes de uma rede de fast food perto de sua casa – e adorava. A única coisa que não substituía era o café das 15h30. Esse era sagrado.
Vaidosa, não abria mão de fazer as unhas toda semana. Eram perfeitas, sempre pintadas de “rosa antigo”. Era louca por sapatos: tinha nada menos que 300 pares no armário, que adornavam os pezinhos tamanho 34.
A filantropia também teve espaço na vida de Doricea, que unia um de seus hobbies ao ato de fazer o bem. Sempre que podia, fazia sapatinhos e gorros de tricô para o Hospital Erasto Gaertner. Deixou uma centena deles para serem doados.
Há 16 anos, passou por uma cirurgia para a retirada de um tumor na tireoide. Enfrentou o câncer como uma fera, e superou a expectativa de dois anos de vida dada pela médica. Mas quando a doença voltou. Ceia decidiu que não queria mais saber do sofrimento das operações.
Apesar dos 90 anos muito bem vividos, descansou com alma jovem. Deixa duas filhas, quatro netos e três bisnetos.
Dia 17 de maio, aos 90 anos, em Curitiba, em decorrência de um câncer na tireoide.
Colaborou: Mariana Balan.






