
O médico curitibano Ralf Kyrmse merece ser nome de praça, de rua, de prédio, ponto do livro escolar. Seus méritos são incontáveis – está listado entre os fundadores de hospitais como o Evangélico e o César Perneta (Pequeno Príncipe); e é autor do primeiro livro sobre otorrinolaringologia pediátrica – sua especialidade – publicado no Brasil. É impossível precisar quantos pacientes atendeu nos 51 anos em que clinicou, boa parte no conjunto 306 da Galeria Lustosa, Centro de Curitiba. Tampouco o número de alunos que acompanhou como professor de Medicina da Faculdade Evangélica, entre 1969 e 1982.
O doutor Ralf por si só era um gigante, como se diz, mas havia o cidadão Ralf, o escritor Ralf, o amigo Ralf – que frequentava a confraria Os Cotonetes, de alemães veteranos. Sobretudo, vale citar o “Ralf, o curioso” e de “Ralf, o apaixonado” – todos igualmente grandes. “O Ralf descobriu uma ponte que leva do nada ao lugar nenhum”, irrompeu, certa feita, a jornalista Rosy de Sá Cardoso, na redação da Gazeta do Povo. Já passado dos 80 anos, numa viagem a Cerro Azul, no Vale da Ribeira, fez parar o carro ao perceber, de longe, uma ponte “aposentada” sobre o Rio Piedade. Relatou o que pôde, avisou a redação. A matéria rendeu e o resultado está prestes a virar um documentário. Antes disso, o mesmo Ralf e sua amiga Rosy escreveram uma matéria de investigação cultural sobre o estranho caso do teatro que sumiu, em Paranaguá – cidade onde ambos viveram quando pequenos.
Não faltam exemplos de onde a curiosidade podia levá-lo. Se não encontrava as novas “dando sopa” por aí, fuçava-as nos livros, não raro em alemão – língua que dominava como se fosse fácil. Era capaz de falar sobre conchas, história, política – sempre com a mesma proficiência. Caso a conversa pesasse, sempre havia o jazz: discorria sobre Gershwin, Cole Porter e Billie Holliday como se tivessem estudado juntos no Colégio Progresso. Aliás, foi colega de jardim de infância, em escola da Rua Aquidaban, de ninguém menos que Dalton Trevisan, o vampiro.
Na última entrevista dada à Gazeta , no início deste ano, o médico falou de temas que lhe foram caros na mocidade, como a germanofobia que levou ao confisco e queima de livros da comunidade alemã de Curitiba, um verdadeiro bibliocausto.
Se a erudição impressionava, não ficava para trás no quesito espontaneidade. No início dos anos 2000, deu-se conta de que conhecia três continentes, mas que desde os tempos das calças curtas, quando era marumbinista, tinha deixado de se aventurar pelas redondezas. Calçou um tênis, catou a máquina fotográfica e se lançou numa maratona urbana. Fez do começo ao fim 180 linhas de ônibus, ao longo de quatro anos, somando 4 mil quilômetros. Falava com entusiasmo do Rio Barigui e do bairro Pinheirinho – sua descoberta da América. Relatou tudo em diários, que preferia manter no anonimato, assim como outros escritos, a exemplo do livro de crônicas autobiográficas A dosagem certa, xerocado para os conhecidos. Publicar, só o que escreveu sobre ouvido, nariz e garganta.
Cerebral, preciso e conciso, em segundos Ralf podia se assemelhar ao mais passional dos latinos. Bastava falar em Margot Blum, a mulher que ele amou. A história dos dois habita o imaginário romântico de Curitiba. Conheceram-se em 1944, no Interamericano do Edifício Garcez. Ao vê-la pela primeira vez, muito loura, em blusa creme, criou coragem, aproximou-se e se declarou. “Meu nome é Ralf e quero me casar com você”. Ela aceitou. Viveram juntos cinco décadas.
Num grande livro de recordações, que deixava sobre a mesa da sala, Ralf arquivava os bilhetes trocados, as flores secas, os ingressos de teatro que partilharam. “Quando minha mãe adoeceu, ele se internou com ela na UTI”, conta o filho caçula Ricardo Alberto Kyrmse, otorrino como o pai. Ao perdê-la, em 2003, passou a visitar o túmulo da mulher todos os domingos, no Cemitério Luterano, nem que fosse debaixo de tempestades. Foram 13 anos de ausência. Bastava falar de Margot e lhe caía uma lágrima.
Para surpresa, morreu no dia em que ela faria aniversário, uma coincidência talhada de encanto para aqueles que tiveram o prazer de conhecê-los. Deixa dois filhos – Ronald e Ricardo –, 4 netos e 2 bisnetos.
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