
Um empreendedor visionário, batalhador e organizado ao extremo. Assim sempre foi Gil Tadeu Cristani, conhecido popularmente como “Tio Gil” em Foz do Iguaçu, no Oeste do Paraná. Ele foi o idealizador de uma conhecida rede de lanches da cidade. Natural de Concórdia (SC), passou a infância e adolescência em Erechim (RS) antes de chegar à fronteira, em 1977.
O pensamento empreendedor nunca lhe permitiu cogitar ser funcionário de alguém. A primeira empreitada foi um mercado na Vila B – conjunto construído para abrigar engenheiros e chefias da Itaipu Binacional. Lá, foi sócio de uma pequena parte do negócio.
Depois disso, aproveitou o “boom” do crescimento de Foz durante a construção da Usina de Itaipu – quando a população quase quadruplicou entre as décadas de 70 e 80 – para montar uma banca de revistas na antiga Companhia Brasileira de Alimentos (Cobal), espécie de mercado municipal na época. O negócio deu tão certo que expandiu para a primeira livraria de Foz: a Renapel, na Rua Almirante Barroso. A loja de três andares serviu como palco para lançamentos de vários autores locais e regionais. Mais tarde a experiência culminou na organização da primeira Feira do Livro do município, realizada na terceira pista da Avenida JK.
Nesse período, Gil casou com Tânia e eles tiveram três filhos: Ana Lúcia, em 1979; Rafael, em 1981; e Gil, em 1983. Tudo ia bem até o casal sofrer um grave acidente de carro, em 1987, quando retornava de uma viagem a São Paulo. Tânia morreu na hora. O episódio foi um baque na vida do empresário. Cerca de um ano depois enfrentou uma nova tragédia: um curto-circuito no bebedouro foi a causa de um incêndio de grandes proporções na livraria. O seguro cobriu apenas parte dos prejuízos.
Desanimado, reformou e vendeu a livraria para tentar a sorte com um novo empreendimento, dessa vez longe dos filhos, que ficaram em Erechim aos cuidados dos avós. Abriu um posto de combustíveis no trevo próximo ao distrito de Relógio, região de Guarapuava. O negócio foi por água abaixo após os brasileiros passarem pelo episódio do bloqueio às poupanças durante o governo Collor. Para conseguir quitar as dívidas, reformou uma borracharia e transformou-a numa churrascaria.
A saudade dos filhos apertou e, em 1992, decidiu recomeçar a vida apostando, novamente, na venda de livros. A pequena Livropel até que se expandiu rapidamente, mas a estabilidade durou pouco. A quebra acarretou num prejuízo bem maior do que nas vezes anteriores. A fase difícil fez com que a família chegasse a passar necessidades. O filho Gil, por exemplo, só continuou no colégio particular após conseguir uma bolsa de estudos e tirar boas notas – além de manter o sangue frio para evitar brigas com os colegas que caçoavam de sua situação.
Foi então que surgiu a ideia de vender lanches. Com R$ 70, comprou um velho carrinho e começou a vender cachorro-quente no centro de Foz. Depois vieram os hambúrgueres preparados em casa. Os filhos ajudavam em tudo o que era possível.
O carrinho só foi deixado de lado após um ultimato da prefeitura. O primeiro espaço físico era do tamanho de uma vaga de estacionamento. A lanchonete se consolidou com o x-pila, um x-salada vendido a R$ 1, o qual agradava o público tanto pelo preço como pelo sabor. O negócio se consolidou com a segunda lanchonete, na Rua Santos Dumont e, recentemente, um quiosque na mesma rua. Com o esforço do pai, Ana Lúcia formou-se em Administração e Gil, em Enfermagem. Como legado, Gil deixou o empreendedorismo na veia dos três filhos, que hoje também levam a vida vendendo lanches.
Em 2004, uma nova paixão apareceu na vida de Gil: Laide, que conheceu na própria lanchonete. “Eu ajudava na cozinha. Gil era um homem rigoroso, mas de coração muito bom”, recorda. Dessa união vieram os filhos Thayla e Pedro, além de Vitória, que deve nascer em junho.
No dia 23 de dezembro do ano passado, Gil sofreu um enfarte e chegou a ficar na UTI. Meses depois, em 5 de março, teve um acidente vascular cerebral (AVC) e não resistiu. “Ele sempre dizia que iria morrer aos 60 anos”, lembra Ana Lúcia.
Deixa a esposa Laide, dois filhos dessa união, os três filhos do casamento com Tânia, seis netos e quatro irmãos.






