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Lista de falecimentos - 10/06/2015

João Carmosino Pereira: o aposentado que se tornou internauta aos 74 anos

 | Arquivo da família
(Foto: Arquivo da família)

Quando João Carmosino Pereira ficou viúvo de Zilma, aos 74 anos, os filhos precisaram encontrar uma ocupação para o comerciante aposentado. A ideia de Solange, uma das filhas, foi presentear o pai com um computador. Deu certo. O septuagenário não só aprendeu a ligar a máquina como gostava de conversar horas e horas por meio do aplicativo popular que permite o envio de mensagens instantâneas. “Era muito esperto”, define a filha.

A mensagem enviada a um político e a resposta recebida eram os troféus do aprendizado. O aviso da filha de que tinha apenas 15 dias para entender como aquele mundo funcionava serviu como desafio. O tempo era curto porque a filha tinha de retornar para os Estados Unidos. “E não é que aprendeu?”, ri. As tarefas eram escritas ou desenhadas passo a passo em um papel para que o pai não se esquecesse de nada.

Quando a tecnologia já não era um problema, João conseguia falar com a filha todos os dias por meio das mensagens instantâneas, depois que ela voltou para New Jersey (EUA), onde morava. O aposentado também lia os principais jornais e se familiarizou com os jogos online. Jogava dominó e bingo. Por último, João já sabia até cuidar de uma conta no Facebook. “Fuçava em tudo”, conta.

Foi na terceira idade que pôde aproveitar a vida. Antes passou por tempos difíceis. Aos sete anos, precisou “abraçar” a enxada juntamente com um dos irmãos para ajudar o pai, doente, na lavoura, no pequeno município de São José Cerrito, na região serrana de Santa Catarina. Eram 13 irmãos. Pela dedicação ao trabalho pesado, estudou até a 4.ª série.

Ao deixar a lavoura, no início da fase adulta, assumiu o caminhão e as intempéries de caminhos tortuosos e estradas enlameadas. “Puxava carga” de Santa Catarina para o Paraná.

Aos 23 anos, na década de 1950, casou-se com a conterrânea Zilma. O casal esperava ter uma vida mais tranquila, mas descobriu que os filhos gêmeos – os primeiros de seis herdeiros – nasceram prematuros e não iriam sobreviver. Os médicos avisaram: “leve-os para casa para morrerem”. Mas os bebês “vingaram” pelo carinho e atenção recebidos, conta a neta Sônia.

João, aos 38 anos, subiu a serra em direção à capital paranaense. Vinha com a família em busca de uma vida melhor e de oportunidades de negócio. Largou o caminhão e abriu um moinho de farinha de trigo, no bairro do Xaxim. Foi moageiro por pouco tempo. Partiu para o atacado de alimentos e montou um comércio no bairro Boqueirão. Ficou à frente dos negócios até os 55 anos. Dizia que “já tinha ajudado muito o governo”, afirma Solange.

Muito caseiro, tirando as pequenas e rápidas viagens para visitar a família, João conseguiu viver um sonho em 1994. Ele e Zilma permaneceram por quase dois meses em viagem pelos Estados Unidos em visita à filha Solange. Foi a primeira viagem de avião e a primeira para o exterior. Sem falar nada em inglês, o casal não se apertou. Na chegada, Solange era pura preocupação; já os pais eram puro encantamento. Visitaram Orlando, os cassinos de Atlantic City, a cidade de Nova York. Quando voltaram para o Brasil, João dizia que estava “americanizado” com o hábito de almoçar às 15 horas, comer hambúrguer e hot dog. Tudo virava uma brincadeira nos encontros de família aos domingos. Essa era mais uma história para contar de quem já gostava – e muito – de repetir os causos do passado. “Era muito falador e cativante”, lembra a filha.

A filha Solange acredita que o pai tenha realizado todos os seu sonhos. Trabalhou muito; “não era rico, mas não faltava nada em casa”. “Pensava muito no futuro”, diz. Seu medo era chegar à velhice sem ter condições financeiras e passar por situações semelhantes de quando era jovem.

Era um homem vaidoso. “Tomava banho de perfume”. Não seria diferente no dia em que foi hospitalizado para se submeter a uma angioplastia. A filha conta que levou roupa para “uma semana e um kit de perfume, sabonete e pós-barba”. Mas João não resistiu e faleceu logo após o procedimento. Deixa seis filhos, 11 netos, sete bisnetos, a companheira Rosa e muitas saudades dos amigos.

Lista de falecimentos - 10/06/2015

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