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Lista de falecimentos - 14/04/2015

Laurindo Soares de Gouveia: 103 anos de cidadania e de história

 | Arquivo da família
(Foto: Arquivo da família)

Laurindo Soares de Gouveia levou 103 anos, 8 meses e 25 dias para cumprir a sua trajetória. Quando lhe perguntavam a idade, costumava precisar nos mínimos detalhes os anos, os meses e dias para destacar a importância que dava à vida. O ferroviário se sentia parte da história do Brasil e do mundo. O voto até as últimas eleições, em 2014, e a renovação da carteira de motorista aos cem anos, em 2012, estavam entre os capítulos vividos.

O primeiro voto, em cédula de papel, foi depositado na urna em 1930, aos 19 anos, para Getúlio Vargas. Recentemente, estava lendo novamente a biografia do político gaúcho. Política e História era dois dos assuntos preferidos de Laurindo. Afinal, desde 1930, viu passar 21 presidentes, além da junta militar provisória, movimentos revolucionários, uma guerra mundial, o período de redemocratização, o impeachment de um presidente, entre outros fatos. Nos últimos anos, acompanhava curioso e preocupado os escândalos e os casos de corrupção.

A renovação da carteira de motorista causou tanta surpresa que Laurindo foi parar no programa de televisão de Luciano Huck. Entrou dirigindo um carro e ficou 30 minutos conversando com o apresentador. Contou suas peripécias desde a primeira habilitação, em 1963. Com bom humor, avisou que queria dirigir até os 150 anos. “Na época, o pai se sentiu um superstar”, relata, sorrindo, a filha Rosicler.

Dava um dedo por uma boa conversa. Extremamente calmo, sempre foi a favor do diálogo e do carinho no trato com as pessoas. Ferroviário desde os 17 anos, iniciou sua vida sobre os trilhos em União da Vitória, no Sul do Paraná. Era arrimo de família desde os 13 anos, quando o pai morreu, em Clevelândia, no Centro-Sul do estado. Só abandonou os trilhos ao se aposentar pela RFFSA, aos 57 anos. Era chefe- geral em Curitiba.

Rosicler se lembra, com saudades, dos retornos do pai das viagens de trem, normalmente para a Serra do Mar, quando ele vinha carregado de sacolas com presentes. Para ela, sempre trazia as frutas típicas do Litoral. Na chegada, além da festa do retorno, Laurindo juntava os filhos, entregava os bilhetes das passagens e pedia que recontassem um a um – mesmo já tendo feito isso – e os picotassem. Enquanto contava as últimas histórias, as crianças “fechavam o balanço do dia”. “Queria que os filhos participassem da vida dele”, afirma a filha.

Também tinha suas vaidades. Quando a família morou em União da Vitória, Laurindo chamava a atenção pelos ternos de linho e pelo perfume. Chegou a fazer parte do grupo dos dez mais elegantes da cidade. “Nunca aparentou a idade que tinha” e sempre manteve o cuidado com o corpo.

Quando veio morar em Curitiba, ia trabalhar na RFFSA de bicicleta somente para se exercitar, quando ainda ninguém pensava nesse modal. Até os 102 anos, participou da academia da terceira idade. Duas vezes por semana, fazia caminhadas com uma das filhas no Parque Bacacheri.

Ele guardava o desejo de integrar o Guiness Book como a pessoa mais velha do mundo. Por coincidência, no mesmo dia em que Laurindo deu adeus ao mundo, a japonesa Misao Okawa, de 117 anos, reconhecida oficialmente como tal, também encerrou sua jornada. Viúvo, Laurindo deixa os filhos Jair, Maria de Lourdes, Juarez, Rosicler e Mariza, noras e genros, dez netos e dez bisnetos.

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