
Abril deste ano foi mês de festa na casa da família Nocera – em Santa Felicidade. Era preciso correr para preparar o aniversário da matriarca, Lígia Beatriz, na passagem dos seus 60 anos. Dada a receber, dessa vez Lígia teria de se superar. E conseguiu. Os amigos não esquecem. Reconstroem cada cena – como se falassem de um filme de Ettore Scola. Seus dotes se espalharam pelo caimento das toalhas, pela simetria das baixelas, chegaram à decoração dos doces. Uma noite para o álbum de retratos – até porque seria o último jantar da grande anfitriã.
Lígia Beatriz Müller Nocera era mulher elegante. Ninguém fala dela sem se referir aos modos de moça bem-comportada do “Sacre-Coeur”, dona de prendas culinárias e talento para a costura. Nem deixam de citar seu perfume, Angel, da Thierry Mugler. Caía-lhe como um dom de nascença. Tinha também outra marca – uma cicatriz no rosto. Ganhou-a na estrada de Antonina, em julho de 1960, aos 5 anos de idade, num acidente de automóvel, no qual os pais morreram. Cedo o destino ficou impresso na sua pele. Lígia respondeu à vida breve acolhendo as pessoas, plantando flores, cozinhando os melhores pratos – e se fazendo artista.
Formou-se em Pintura, na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap), a “Belas”. Conheceu a fama. Não a fama outorgada pelos críticos e curadores, mas aquela que vem do público. “Não faço a menor ideia de quantas telas de copos de leite ela pintou”, diz a filha Giovana, sobre o tema de natureza morta que por pouco não escravizou a mãe. Batiam-lhe à porta, pediam-lhe por favor, mais um “copo”. Na Galeria Nini Barontini, ficavam em destaque.
Até que disse basta. A essa altura, as paredes estavam talhadas não mais de copos de leite, mas de pinturas monumentais, tão labirínticas quanto sua autora. Até havia flores, mas flores partidas, quais cacos de vidro de um caleidoscópio habitado por borboletas, bonecas e temas botânicos. A reservada Lígia tinha encontrado sua voz. Em tudo. Em vez da Velha Europa, o exotismo da Tailândia e do Vietnã. Seu balé? O tai chi chuan. Refúgio? Pontal do Sul. Terapia? Regar as plantas, tendo aos pés a cachorra Saigon. Sentia-se pronta, inclusive, para ensinar. Em 1995, tornou-se professora, e da “Belas”. Foram 23 anos de namoro.
“Generosidade”, “generosidade”, repetem os que conviveram com ela nos corredores da mais tradicional instituição de arte do Sul do país. Podem até lhe destacar o porte, a inteligência – mas preferem defini-la como alguém a postos para ajudar os alunos. Mesmo quando debaixo de algum arroubo passional, tanto fazia: distribuía igualmente o perfume de seu caráter. Recolhia admiração e respeito.
“Talvez por isso tenha se tornado professora”, arrisca o artista plástico Emerson Persona, que dividia com Lígia as salas de aula da Embap e desfrutava de sua amizade. “Era o seu melhor. Adorava a sala de aula”, observa a também artista – e vice-diretora da escola –, Juliane Fuganti, parceira do curso de mestrado na Universidade Federal da Bahia. Emerson e Juliane se dizem incapazes de assimilar a partida de Lígia, “assim, sem mais”. Ambos estavam na comemoração dos 60 anos – hoje entendida como a festa do adeus. “Triste, mas não poderia ser melhor lembrança”, entende a filha Giovana.
Os problemas de saúde se impuseram depois daquele 22 de abril. Lígia fez o que devia fazer. Cuidou de cada pormenor de sua licença na “Belas”. Disse “até a volta” e se retirou. A despedida se desenhou bem rápido – três semanas depois do diagnóstico. “Ela mal conseguiu começar a quimioterapia”, comenta Giovana. O ateliê, no sótão da casa, ficou tal como ela deixou: arrumado nos detalhes.
Seus Saramagos ao lado de Adélia Prado. A Remington. Nos cantos, graúdos peixes bordados – técnica que usava aliada à pintura – e as telas que formavam a instalação “Coleção particular de coisas inanimadas”, um de seus melhores trabalhos. É formado por 72 pequenas pinturas “de afeto”, nas quais retratou símbolos banais de sua biografia. Em 2011, numa exposição, falou ao público do sentido de cada imagem; e do acidente que levou seus pais. Emocionou. Não podia se furtar de dizer: a experiência da morte lhe apresentou a vida.
Deixa dois filhos – João Augusto e Giovana.
Lista de falecimentos - 22/10/2015
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