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lista de falecimentos - 13/05/2015

Nildes Maria Pietrobelli Stival: uma história que se confunde com a de Santa Felicidade

Nildes Maria Pietrobelli Stival | Fabiano Ferreira
/Arquivo pessoal
Nildes Maria Pietrobelli Stival (Foto: Fabiano Ferreira /Arquivo pessoal)

A infância de Nildes Maria Pietrobelli Stival se confunde com o crescimento do bairro Santa Felicidade, em Curitiba. A casa da família paterna ainda existe na Avenida Manoel Ribas. O estádio que leva o nome do pai Egydio Ricardo Pietrobelli – da Sociedade Operária Beneficente Iguaçu – está em pé e é prova da relevância da família italiana como formadora de parte da história. O pai e outros 39 imigrantes foram os responsáveis pela constituição do Iguaçu, de Santa Felicidade – o clube de futebol amador mais antigo de Curitiba, fundado em 19 de janeiro de 1919. Os Pietrobelli penhoraram a casa para garantir a compra do terreno em que foi construído o estádio.

O pai de Nildes recebia os imigrantes e arranjava casa para alojar as famílias que vinham da Itália; a mãe, Deolinda, trabalhava no restaurante do estádio. Da cozinha farta de receitas italianas aos bordados em ponto de cruz e rococó, dona Deolinda foi a responsável pelo aprendizado dos delicados bordados, tecidos em fio de seda, que eram muito usados em enxovais de bebês; assim como peças em crochê. Nildes era uma moça prendada, como se dizia na época. E, para cumprir a tradição, o casamento foi arranjado com um dos solteiros da família Stival, amiga dos Pietrobelli.

Aos 20 anos, Nildes casou-se com José Stival. O marido chegou a ser jogador do time do Iguaçu. Nessa época ganhou o apelido de “Borges”, em alusão a um jogador da Seleção Brasileira. Depois do nascimento dos quatro filhos, a bordadeira precisou mudar-se para o bairro Mercês devido ao trabalho do marido. Ele abriu uma casa lotérica.

Com um empréstimo do pai, Nildes adquiriu uma casa na Rua Solimões. Todos os meses fazia os pagamentos a Egydio com o dinheiro da venda dos panos de prato pintados e com os bordados. Era um empenho. Comprava o saco de algodão, lavava para tirar o açúcar, deixava os panos para quarar durante a madrugada e pegar o sereno da noite, costurava as barras e riscava o pano. Usava papel de seda para transferir o desenho usando gasolina e uma bolinha de massa de parafina. Muito anos depois, ensinou para a neta Marcella a dinâmica do riscado.

Levou anos e anos para terminar a dívida com o pai, mas, com orgulho, quitou o débito. Quando não precisou mais do dinheiro, a produção virou hobby e motivo para presentear a família e os amigos. Dos bordados aos enxovais de bebês, não tem quem não tenha guardado uma peça da avó, destaca Marcella. Depois de “aposentada”, as peças também serviam para doação a uma grávida que precisava de enxoval ou para alguma instituição de caridade.

Entre as lembranças – e são muitas – Marcella guarda as caixinhas de madeira com os aviamentos usados pela avó. Nelas estão os fios de bordar e agulhas para furar o papel, assim como o pequeno vidro original contendo gasolina. Há ainda as caixas de papelão, daquelas de camisa, nas quais foram colocados os riscos. “Uma relíquia!”, diz ela . Nildes não jogava nada fora. Botões, fitinhas e papel de presente podiam servir para alguma coisa.

Nos últimos anos, dedicava-se mais à horta e à produção de compotas. As de figo eram as mais apreciadas. “Quem chorava mais, ganhava um potinho a mais com as delícias da avó”.

Queria mais uma enxadinha para cuidar da horta, mas o presente nunca vinha, pois os netos queriam que ela se poupasse do trabalho. “Mesmo assim, ela se abaixava nos canteiros para plantar e colher verduras, mesmo tendo uma prótese de quadril”, conta a neta. “Enfim, a vida era para quê? Elétrica e dinâmica como era, Vó Nildes não poderia ter outra atitude”, resume Marcella.

Na última semana, Nildes foi ficando mais fraca por causa da dificuldade em respirar. “Foi apagando a chama lentamente”, comenta a neta Marcella. Deixa cinco filhos, 11 netos e quatro bisnetos.

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