Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Lista de falecimentos - 29/07/2015

Nilson Didoni : a luz pelos olhos de um oftalmologista

 | Arquivo da família
(Foto: Arquivo da família)

Não é demagogia dizer que Nilson Didoni foi alguém que trouxe luz para a vida das pessoas. Luz dessas com intensidade para deixar a vida mais nítida. Luz que não irradiou só os íntimos – os que mantinha sob sua tutela sentimental – mas, principalmente, os estranhos, centenas deles. Aqueles que ele nunca tinha visto e, especialmente, as pessoas que não conseguiam enxergá-lo.

Didoni foi um oftalmologista que não se contentou em fazer da medicina a sua profissão, fez dela um dom – e o refletiu nos olhos de tantos. No dicionário, catarata é definida como a opacidade do cristalino que impede a entrada de luz nos olhos, acarretando a diminuição da visão e até a cegueira. Ultrapassando a medicina, a semântica e avançando pela literatura de Saramago, Didoni foi, de fato, alguém que transcendeu a visão superficial da vida.

“O doutor Didoni participou da Campanha das Cataratas do Lions Clube de Maringá e fez cerca de 700 cirurgias de catarata gratuitas em seu próprio consultório. Só na minha família, ele fez a cirurgia em cinco pessoas de graça. Era um profissional que não visava o lucro em primeiro plano. Se o paciente pudesse pagar, ele operava; mas se não pudesse, ele operava também. Foi um grande exemplo de ser humano”, afirmou Verdelírio Barbosa, jornalista e ex-governador do Lions Clube Maringá.

Até no momento de se despedir, Gustavo Didoni conta que o pai não deixou de surpreendê-lo. “Pessoas que eu nunca havia visto contavam que tinham vindo de outras cidades só para agradecer ao meu pai pela última vez. Ele não era do tipo que fazia algo para se gabar, ele fazia e ficava bem quietinho, sem pedir nada em troca “, relata.

Nilson era o filho mais velho de cinco irmãos batizados com a letra “N” na inicial do nome. Nascido em Rolândia, no Norte do Paraná, do berço de uma família humilde, perdeu o pai cedo, vítima de um ataque cardíaco enquanto trabalhava em uma plantação de café. Da máquina de costura da mãe saiu o sustento dos filhos e um diploma universitário para cada um deles.

Começou a carreira de oftalmologista em 1980, em Maringá, no Noroeste do estado, onde constituiu família e, mais tarde, fundou um hospital especializado no tratamento dos olhos. Também foi professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Para montar sua própria clínica, em 1982, emprestou dinheiro do tio e do sogro. “Ele era muito disciplinado e tinha muita força de vontade. Durante a semana, ele atendia na clínica em Maringá; nos fins de semana, rodava toda a região para fazer consultas e conseguir um dinheiro extra. Foi uma época em que a gente batalhou muito, mas mesmo assim havia fins de semana que não tínhamos dinheiro para comprar comida”, relembra Malu, ex-mulher de Didoni.

Ao falar do pai, Gustavo deixa uma felicidade rara escapar por entre a fresta dos lábios. “Além de meu melhor amigo, ele era um grande exemplo de caráter.” Respeitar ao próximo foi uma das lições marcantes que ele aprendeu com o pai. “Quando era garoto, estava no clube com meus amigos e fomos pegar uma bola emprestada, mas a funcionária disse que o horário para isso já tinha acabado. Eu, enfezado, disse a ela: ‘por um acaso você sabe quem eu sou? Eu sou filho do doutor Didoni’”. Ao saber da atitude malcriada do filho, Didoni tratou de dar-lhe um corretivo: “quem você acha que é, menino? Você não é melhor do que ninguém. Agora vai aprender como se trata as pessoas com respeito”, relembra o filho das palavras do pai. Didoni puxou-lhe a orelha e só soltou quilômetros depois, quando retornaram ao clube e o garoto pediu desculpas à funcionária.

Elencar as paixões e manias de Didoni é tarefa para muitos dias, diz o filho, que o descreve como um bon vivant. Beber uma dose de vermute antes das refeições, colecionar discos de rock, lavar o carro nos fins de semana – faça chuva ou sol –, e torcer para o Santos eram algumas delas.

Mas a marca registrada de Didoni era mesmo o senso de humor. Comediante irremediável, era daqueles que perdem o amigo, mas não a piada. Tinha um trocadilho na ponta da língua para qualquer situação e era especialista em fazer cair a máscara sisuda de qualquer doutor. De caso pensado, só frequentava a academia às quartas-feiras, quando passava antes pela Feira do Produtor, comprava uma sacolada de pasteis e levava-os para o pessoal da academia. Todos se fartavam enquanto ele exercitava a arte de fazer rir.

Didoni estava em casa, em 12 de junho, quando passou mal. Sofreu um enfarte e foi socorrido por um vizinho, que é médico cardiologista, mas não resistiu. Deixa os filhos, Marcela, Gustavo, Daniela; os netos, João Pedro e Luiza; e os irmãos, Neide e Nei.

Lista de falecimentos - 29/07/2015

Condolências

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.