
Morte é sinônimo de extinção. Decompõe-se a matéria, demolem-se túmulos, esvai-se a memória. Talvez a única ferramenta contra esse paulatino apagar de trajetórias conhecidas ou não seja a escrita: a dos documentos, dos jornais de época, das lápides. Cada uma à sua maneira registra anônimos e personalidades, estabelecidos ou outsiders. Foi a partir da escrita na pedra inaugural, que o dia 1.º de dezembro de 1854, foi marcado como data de abertura do Cemitério Municipal São Francisco de Paula, considerado como o cemitério mais antigo da capital.
Prestes a completar 161 anos de sua abertura, o Cemitério Municipal representa um resumo simbólico de Curitiba. Entre seus muros repousam políticos, empresários, artistas, músicos, intelectuais, poetas... Também estão aqueles que foram responsáveis por parte da escrita de nossa história. Do fundador do primeiro jornal de Curitiba, o Dezenove de Dezembro, comandado por Cândido Lopes, à atual Gazeta do Povo, liderada por Francisco Cunha Pereira Filho, jornalistas, historiadores, genealogistas e pesquisadores tão caros à preservação de nosso passado, descansam entre os muros gozando de um reconhecimento alcançado ainda em vida.
Há ainda, entre os cerca de 80 mil sepultados, os estigmatizados. Aqueles registrados sob a alcunha de escravos, indigentes, indígenas, expostos (crianças que eram abandonadas sem que sua paternidade fosse assumida) e alienados. De alguma forma subsistem nos livros de sepultamento, para lembrarmos que alguns estigmas também são carregados até a morte. Talvez tenha sido esse o motivo para que um cemitério inteiro fosse esquecido dos registros da história de Curitiba: o estigma da morte causada por uma doença infectocontagiosa, a varíola. Assim surgiu e se perdeu no século 19, o primeiro cemitério nos moldes extramuros da cidade, o Cemitério Sítio do Mato, mais conhecido como Cemitério dos Bexiguentos.
Era abril de 1818, quando em meio a uma epidemia de varíola, o capitão-mor decidiu proibir os sepultamentos das vítimas de “bexiga” na igreja matriz. A morte nessas condições era uma grande ameaça, talvez a única a coibir a prática do sepultamento no solo sagrado. Os ares contaminantes foram suficientes para que os mortos fossem expurgados para longe do quadro urbano, em um terreno meia légua a oeste do coração da cidade. Como se deu a escolha do local onde seria implantado o cemitério, seu funcionamento e até mesmo fechamento, são perguntas que os documentos infelizmente não respondem.
Efetivamente o que se tem de informações são os registros realizados pelo então vigário José Barboza de Brito, que fez a encomendação da alma de Brizida, 50 anos, aparentemente a primeira pessoa a ser sepultada no local, em 22 de abril de 1818. A ela seguiram-se as inumações de Francisca Bona, Joze Moreira e de tantos outros, inicialmente sempre sob a alcunha de “bexiguentos”. Outsiders como o sociólogo Norbert Elias nomina os discriminados e excluídos socialmente.
Nem todos os sepultamentos realizados no local foram identificados como de variolosos, o que faz crer que seu uso não tenha sido exclusivo às vítimas de doenças infectocontagiosas. O último assentamento onde consta o Cemitério Sitio do Mato data de 1866. Terá sido realmente o estigma da doença o responsável pelo seu total esquecimento e desaparecimento? Os questionamentos são muitos, o esquecimento um só. Diferente do Cemitério Municipal, rico em um discurso visual composto por um século e meio de construções e homenagens, o Cemitério Sitio do Mato subsiste e persiste em parcos registros, mantendo-se outsider.







