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lista de falecimentos - 11/10/2015

Os milagreiros do povo

Ex-votos ratificam Maria Bueno como intercessora dos curitibanos | Clarissa Grassi/Arquivo pessoal
Ex-votos ratificam Maria Bueno como intercessora dos curitibanos (Foto: Clarissa Grassi/Arquivo pessoal)

Nos cemitérios de grandes cidades há sempre um túmulo cujo ocupante recebe visitas constantes, alguns pelo cunho suplicante, em que se pede auxílio em uma situação adversa; outros para o agradecimento pela obtenção da graça tão esperada. Denominados por pesquisadores como integrantes da chamada “devoção marginal”, os milagreiros povoam nossas necrópoles na posição de intercessores entre céu e terra.

Sua origem aponta para duas situações: pessoas com uma trajetória de vida ilibada e caridosa ou vítimas de mortes violentas e precoces. O afluxo aos túmulos que albergam essas personalidades geralmente se inicia logo após o sepultamento. Sejam curiosos ou pessoas que viram na partida um motivo de comoção, os visitantes lentamente se multiplicam e não demora a se ouvir os primeiros boatos sobre obtenção de graças. Muitos desses milagreiros já alçaram um posto dentro da hierarquia da igreja católica, como a menina Odette Vidal de Oliveira, mais conhecida como Odetinha. Morta aos 9 anos, em 1939, ela poderá se tornar a primeira santa carioca. Seus restos já foram transladados do Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, e os milagres estão sob investigação no processo de beatificação. Já recebeu a denominação de “serva de Deus”.

O mesmo ocorre com a Irmã Benigna, da Congregação das Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade. Maria da Conceição Santos morreu década de 1980 e foi sepultada no Cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte. Seus restos foram transladados para o Noviciado Nossa Senhora da Piedade para o processo de beatificação, mas ainda assim seu túmulo recebe diariamente dezenas de fiéis em busca de sua intercessão.

Somem-se a esses nomes o do menino Nelsinho Santana, de Araraquara, em São Paulo, da cigana Sebinca Christo de Lages, em Santa Catarina, e tantos outros em outras cidades e estados. Somente no Cemitério São Bento, em Araraquara, pelo menos 12 túmulos contam com quantidade razoável de ex-votos -- nome dado às placas de agradecimento por graças alcançadas. De Nelsino ao escravo Eduardo, o médico dr. José de Freitas Madeira, Milton, o menino de Araraquara, todos têm espaço na devoção araraquarense.

Em Curitiba, Maria da Conceição Bueno – ou somente Maria Bueno – ocupa o posto de milagreira reconhecida pela população. Seu assassinato, em janeiro de 1893, chocou a capital paranaense e os desdobramentos sobre fenômenos que ocorriam no local de sua degola correram a cidade rapidamente. Em frente ao túmulo, construído pela irmandade fundada em seu nome, milhares de ex-votos reiteram que independente da versão sobre sua morte, Maria Bueno é, sim, a milagreira para o povo curitibano.

Dois túmulos antes do de Maria Bueno, repousa Eunice Taborda Ribas. Ao contrário de sua vizinha, Eunice sofreu durante a curta trajetória de vida. A começar pela perda do pai, em 1924, durante a Revolta Paulista. A mãe, deprimida pela perda do marido, não tardou a falecer, sendo seguida da avó paterna. Sob os cuidados da tia e madrinha, foi vítima da meningite aos 6 anos. Anos mais tarde, seu irmão, Manoel, faleceu afogado no Rio Iguaçu. Eunice alçou ao posto de milagreira.

Diferentes trajetórias e versões para o desfecho de suas vidas. Institucionalizados pela Igreja Católica ou não, a força dos milagreiros reside intramuros na crença popular. Vox populi, vox dei?

Lista de falecimentos - 11/10/2015

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