
O bordão “fazemos qualquer negócio”, do personagem Samuel Blaustein, eternizado pelo falecido Marcos Plonka, no programa “A Escolinha do professor Raimundo”, se encaixava muito bem para Ouad Braquat. Um palestino que viveu 50 anos em Maringá, no Noroeste do Paraná, onde, durante as cinco décadas, foi dono de uma das lojas de confecções mais conhecidas da cidade, a Paulistana Modas.
Ouad chegou a Maringá com 11 anos e o pai o incumbiu de ser um mascate. Com tino para os negócios, o vendedor itinerante logo mostrou à família que carregava no sangue a arte de negociar. Não demorou muito para deixar de gastar sola de sapato nas ruas e mostrar toda a lábia de comerciante no balcão.
As técnicas foram sendo aprimoradas ao longo dos anos, conta a mulher dele, Adle Mohamed Salim Braquat, que o conheceu ainda criança. Perder uma venda sem antes tentar uma das mil maneiras que ele conhecia para conquistar o comprador era inaceitável, diz ela.
A arte de negociar, cativar e vender o produto era colocada em prática todos os dias pelo comerciante, que sabia, como ninguém, agradar a clientela. Um descontinho aqui, um crediário lá, um brinde acolá e pronto, dinheiro em caixa.
O poder de persuasão de Ouad sempre fascinou Adle. Os dois foram melhores amigos na adolescência. Depois de um tempo, o sentimento de amizade amadureceu. “Para namorar não foi preciso muito esforço, eu sempre fui apaixonada por ele. Digo a todos que foi amor à primeira vista”, brinca ela. Eles se casaram em 1982, seis meses após o início do namoro.
Graças aos negócios do comerciante, o casal começou a vida a dois com um carro, casa própria e o prazer de viajar para qualquer lugar do mundo de tempos em tempos. Para completar a felicidade, três filhos nasceram.
Com seu jeito espontâneo, Ouad também fez muitos amigos. “Era muito fácil se tornar amigo dele, ele era muito confiável. Muitas vezes, acabava de conhecer alguém e já levava em casa para um café ou saíamos para jantar”, conta Adle.
Ela lembra também que o marido não gostava quando rotulavam os árabes de individualistas ou alheios à cultura do Brasil. “Ele era moderno e incorporou o jeito brasileiro. Era uma pessoa muito aberta. Já visitou cultos evangélicos, messiânicos, tudo para entender melhor as pessoas e o local onde ele vivia. Tinha uma luz que era só dele”, pontua a companheira.
E, mesmo estando a milhares de quilômetros do local onde nasceu, o palestino não esquecia as raízes. Toda terça-feira seguia em direção à mesquita para cumprir com suas obrigações sagradas. Além disso, de tempos em tempos, voltava à Palestina com a família para fortalecer os laços com os irmãos e outros parentes que lá ficaram.
Em abril deste ano, Ouad passou mal e foi levado ao hospital com suspeita de um AVC. Após os exames, os médicos encontram um tumor maligno no cérebro dele. Em outubro, o comerciante foi internado em estado grave e faleceu no dia 29.
Deixa mulher e três filhos. Aos 61 anos, em decorrência de um tumor cerebral, em Maringá







