
Se o velho ditado já diz que ninguém vem ao mundo a passeio, Rosângela Valêncio dos Santos sabia muito bem qual era sua missão: criar o filho e espantar qualquer sombra de tristeza. Reunia os amigos, fazia festas, dançava e fazia questão de observar um belo sorriso no rosto de quem mais estivesse por perto. Em dezembro do ano passado, quando fazia um tratamento de saúde, pediu ao médico para interromper os procedimentos e fazer uma festa. “E fez a festa”, conta Simony Valêncio Iozofovich, sobrinha e “filha do coração”.
Os jogos de futebol também eram pretexto para reunir todo mundo. Os jogos do Flamengo e da Seleção Brasileira eram sagrados. “Na última Copa, a família se reuniu para assistir aos jogos. O 7x1 foi uma decepção”, lamenta Simony.
Esposa de caminhoneiro, viajou muito. Conhecer lugares diferentes era uma paixão dela e se o lugar tivesse rios ou cachoeiras, então, virava amor à primeira vista. No Litoral do Paraná, onde vivia, tinha predileção pela Colônia Quintilha, onde há uma cachoeira, mas visitava também os rios de Morretes. “Um dia a gente foi passear em um recanto, em Morretes, e quando vimos ela estava descendo na tirolesa”, lembra a sobrinha. Simony tinha na tia uma confidente. Rosângela era conselheira e sempre repetia o pedido: “tenha juízo!”.
Mãe de um menino, Fernando, era uma verdadeira leoa. Costumava dizer que tinha como missão cuidar do filho. “O Fernando não nasceu da minha barriga, mas nasceu do meu coração”, afirmava. Defendia o filho e era defendida da mesma forma. Uma vez, na escola, um menino falou mal dos pais de Fernando. Ele, por sua vez, bateu no moleque. Rosângela foi chamada na escola e o filho foi enfático: “se precisar, bato de novo”. Mas esse não era o método utilizado por ela: para corrigir o filho e quem mais precisasse, recorria a uma boa conversa. “Ela corrigia com amor”.
O zelo com a família se tornou maior ainda há oito anos, quando ela descobriu um nódulo no seio. Diagnosticada com câncer de mama, precisava se submeter a uma mastectomia (retirada do seio). “Tira logo”, disse ao médico. “Ela queria mais é viver”, conta Simony. Depois de recuperada, passou a incentivar a família a fazer os exames preventivos com regularidade. Nem a doença fez com que ela mudasse a forma de encarar a vida. “Fazia tudo com muito amor, cozinhava, não colocava problemas, buscava ver o lado positivo mesmo nas situações mais difíceis”.
Participava do motoclube Estradeiros, com sede em Paranaguá, há seis anos. Com os “irmãos” de clube, fazia o que mais gostava: festa.
Há cinco anos teve de enfrentar um novo tumor. Descobriu um câncer de pulmão e retomou os tratamentos. Mesmo assim, fez o marido de Simony prometer que quando morresse seria enterrada com o colete do motoclube, teria o caixão coberto com a bandeira do Estradeiros e receberia a homenagem da aceleração das motos.
Poucos dias antes de partir, uma tragédia marcou a vida de Rosângela. Em 27 de outubro, um acidente de caminhão vitimou o filho e a nora dela. Com a saúde bastante debilitada, disse que a sua missão havia sido cumprida. Nove dias depois, passou mal e foi levada às pressas para o hospital, em Curitiba. Rosângela se foi e recebeu todas as homenagens que havia pedido. Deixa o marido, duas netas, irmãos, sobrinhos e irmãos do Estradeiros MC Brasil.







