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Bioinsumos

Em mercado de R$ 7 bilhões, quem comprava virou também fabricante

Marco Antonio Nogueira, pesquisador da Embrapa Soja, participou das pesquisas que deram origem ao primeiro inoculante biológico da Coopavel
Marco Antonio Nogueira, pesquisador da Embrapa Soja, participou das pesquisas que deram origem ao primeiro inoculante biológico da Coopavel (Foto: Maicon Leão / Embrapa)

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Bactérias e fungos que ajudam plantas a obter nutrientes ou que controlam pragas e doenças já sustentam um mercado bilionário no Brasil. Esses microrganismos benéficos, conhecidos como bioinsumos, movimentaram cerca de R$ 7 bilhões em 2025 e podem chegar perto de R$ 10 bilhões até 2030, segundo estimativa da Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos (Anpii-Bio).

Agora, cooperativas que durante anos compraram esses produtos de fornecedores e os revenderam aos associados passam a fabricá-los. E entram no mercado com uma vantagem: já têm clientes, lojas e agrônomos que visitam as lavouras. Antes de o primeiro litro sair da fábrica, o caminho até o produtor está pronto.

Foi com essa estrutura já montada que a Coopavel entrou no mercado. Com mais de 8,2 mil associados e presença em 21 municípios do Oeste e do Sudoeste do Paraná, a cooperativa inaugurou no ano passado, em Cascavel, a primeira indústria de produtos biológicos implantada por uma cooperativa no País. A Biocoop tem 12 biorreatores, tanques usados para cultivar os microrganismos, e capacidade para produzir um milhão de litros por ano. Parte da produção segue para outras cooperativas da região, que compram os produtos e os comercializam com marca própria.

“Os químicos perderão espaço para os biológicos”, afirma o presidente da Coopavel, Dilvo Grolli.

Biológicos são demandados do produtor ao consumidor final

Ele vê nessa expansão dos biológicos uma oportunidade de industrialização para a cooperativa. Grolli também relaciona essa expectativa à procura dos consumidores por alimentos produzidos com mais soluções biológicas, demanda que, em sua avaliação, percorre toda a cadeia até chegar ao agricultor.

A expansão ocorre sob um marco legal próprio. Sancionada em dezembro de 2024, a Lei de Bioinsumos trata da produção, do registro e da fiscalização desses produtos e exige registro das biofábricas e dos produtos destinados à comercialização.

A Cocamar também decidiu entrar na fabricação. Com sede em Maringá, a cooperativa já mantinha uma linha própria de fertilizantes foliares e sólidos e, mais recentemente, incorporou os biológicos. A produção da Viridian Bio fica em Paranavaí, no noroeste do Paraná. São 21,2 mil associados e atuação em cinco estados. A cooperativa informou à Gazeta do Povo que os biológicos já chegaram a todas as regiões onde atua e que o investimento faz parte de uma estratégia de longo prazo para ampliar o acesso dos associados a novas tecnologias.

Vantagem das cooperativas está na rede de relacionamentos já construída

É nesse acesso que Marco Antonio Nogueira, pesquisador da Embrapa Soja, vê uma diferença importante. Ele participou das pesquisas que deram origem ao primeiro inoculante da Coopavel, um produto com bactérias que ajudam na nutrição e no desenvolvimento das plantas, e conhece também o trabalho da Cocamar. Para Nogueira, produzir é apenas uma parte do processo. Conhecer quem está do outro lado, como as cooperativas conhecem, é uma vantagem no mercado.

"Essa capilaridade é que pode fazer a diferença em termos de adoção e melhores práticas de uso desses insumos biológicos", afirma.

Essa vantagem começa a ser testada quando o produto sai do biorreator. Muitos bioinsumos contêm organismos vivos, e armazenamento, temperatura, misturas, dose e momento da aplicação podem interferir no resultado. Fazer chegar é relativamente simples para quem já tem uma rede de distribuição. Fazer funcionar exige acompanhamento.

Bactérias "do bem" são cultivadas em laboratório e ajudam a controlar pragas em doenças na agriculturaMicrorganismos cultivados em laboratório ajudam a controlar pragas em doenças na agricultura (Foto: Antonio Neto / Embrapa)

Cerca de 90% dos produtores de Cascavel já usam os biológicos

Na região de Cascavel, o agrônomo da Coopavel Leonardo Moro acompanha cerca de 50 produtores de soja, milho, trigo e feijão. Aproximadamente 90% já utilizam algum biológico, seja na inoculação, no controle de insetos e doenças ou no manejo do solo. A adesão cresce, segundo ele, quando a resposta deixa de estar apenas na recomendação e aparece no dia a dia.

“O produtor passa a adotar com maior segurança quando consegue enxergar o resultado dentro da própria propriedade”, afirma.

Por isso, a indicação começa pelo problema que precisa ser resolvido. Histórico da área, solo, pragas, doenças e sistema de produção entram na análise antes da escolha do produto. Depois vem o acompanhamento. Se a resposta fica abaixo do esperado, é preciso descobrir se houve problema na dose, na aplicação, nas condições ambientais, na mistura ou até na própria escolha da tecnologia.

É uma relação que Erwin Soliva conhece na prática. Cooperado da Coopavel e acompanhado por Moro, ele usa biológicos há mais de três anos nos 300 hectares em que cultiva soja e milho. A equipe técnica da cooperativa orienta doses, épocas e formas de aplicação. A procedência também pesa na escolha, principalmente em um mercado no qual, segundo ele, é preciso saber quem produziu e em que condições.

“Tem que ter confiança naquilo que está comprando”, pontua.

Produto fresco, produzido na vizinhança

Helmuth Bleil Jr. também é entusiasta dos bioinsumos. Ele já utilizava biológicos antes de a Coopavel começar a fabricar. Produtor, agrônomo e gerente da Fazenda Escola do Centro FAG, trabalha com inoculantes na soja há mais de duas décadas e hoje usa biológicos nos 200 hectares que cultiva. Parte das compras passou a ser feita na própria cooperativa.

“Eu sei que é um produto de boa qualidade, produzido aqui, próximo à propriedade, um produto fresco”, afirma.

A experiência também o leva a destacar a orientação que acompanha a compra. “As cooperativas têm o trabalho de assistência técnica e, nesse trabalho, têm como difundir o uso disso”, diz Helmuth.

Retorno em sempre vem de gastar menos

Ter o produto mais perto, porém, não significa gastar menos. Bioinsumo não é uma categoria única, e o retorno depende da função que ele assume na lavoura. Na soja está um dos exemplos mais consolidados. Bactérias fixadoras de nitrogênio permitem que a planta obtenha o nutriente do ar e dispense a adubação nitrogenada, sem eliminar a necessidade dos demais nutrientes.

No milho, a substituição pode ser parcial. Segundo a Coopavel, o inoculante com a bactéria Azospirillum pode reduzir em até 25% a adubação nitrogenada de cobertura. Nogueira ressalva que essa redução depende das condições de manejo e não deve ser feita onde o agricultor já aplica menos fertilizante do que o recomendado.

Quando o objetivo é controlar pragas e doenças, a situação muda novamente. Biológicos e químicos muitas vezes continuam lado a lado. Helmuth vive essa combinação na propriedade. Nos últimos três anos, incorporou produtos biológicos ao controle de doenças da soja e do milho, mas não retirou os fungicidas. O gasto, portanto, não caiu. “O custo não dá para dizer que diminuiu porque eu continuo usando o químico. É o controle que fica melhor”, afirma.

Biológicos se integram à estratégia de mais competitividade

Há situações em que o biológico substitui outro insumo, mas há também aquelas em que representa um investimento adicional e precisa entregar resultado em produtividade, desenvolvimento da planta ou controle. “Considero mais correto avaliar a tecnologia pelo custo-benefício do sistema e não somente pelo preço do produto por hectare”, explica Moro.

Erwin Soliva também evita atribuir a evolução da lavoura a uma ferramenta só. Ele percebe benefícios principalmente no manejo de nematoides, vermes microscópicos que atacam as raízes e podem reduzir a produção, mas lembra que clima, variedade e outras práticas interferem na colheita. “É uma somatória, é um conjunto de fatores que fazem essa melhoria na agricultura”, afirma.

Reduzir gastos é uma forma de retorno. Outra é colher mais e obter uma margem melhor, mesmo com um investimento maior no manejo. Para Soliva, buscar produtividade é uma forma de reagir aos preços da soja e do milho, sobre os quais tem pouca influência. É no manejo da lavoura que ele vê espaço para agir e melhorar o resultado da propriedade. “A gente ficava muito à mercê de preço”, diz. “Na produtividade quem tem que fazer sou eu”.

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