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Uma tonelada de soja produzida e processada no Brasil gera, em média, R$ 6.710 em PIB. Quando a mesma tonelada é produzida e exportada diretamente em grãos, o valor cai para R$ 1.747. A diferença, de 3,84 vezes, mostra com clareza o impacto econômico de avançar na cadeia produtiva, movimento que tem atraído cooperativas interessadas em agregar valor à produção de seus associados.
É o que três cooperativas gaúchas estão fazendo num projeto que chega a R$ 1,25 bilhão. Cotrijal, Cotripal e Cotrisal se uniram para criar a Central Cooperativa Industrial Soli3, em Cruz Alta.
“A gente precisava industrializar a soja. Não simplesmente receber, armazenar e vender para terceiros”, resume Germano Döwich, presidente da Soli3. As obras começaram em julho deste ano. “Eu brinco dizendo que quero ver a primeira gota de óleo saindo da torneira, em maio de 2028”, acrescenta.
Captura de valor na cadeia produtiva
Na primeira etapa, no início de 2028, a indústria deverá processar 3 mil toneladas da oleaginosa por dia, cerca de 1 milhão de toneladas por ano. A colheita anual nos pampas é de 19 milhões de toneladas, e, tradicionalmente, metade deste volume é embarcado na forma de grãos.
O projeto prevê a produção de óleo degomado, farelo de soja e casca peletizada. O óleo, cerca de 200 mil toneladas anuais, será fornecido a empresas que o transformarão em biodiesel. O farelo alimenta aves, bois, suínos, peixes e ainda tem excedente para exportação.
O cálculo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) não significa que uma tonelada processada gere R$ 6.710 em receita para o produtor ou para a cooperativa. O número mede o PIB de toda a cadeia. O que inclui transporte, armazenagem, processamento, energia e os negócios que usam os derivados, como o farelo na produção de carnes e o óleo no biodiesel. Quanto mais dessas etapas são realizadas dentro do Brasil, maior tende a ser o valor adicionado à economia interna.
“É uma forma de agregar mais valor à produção dos nossos associados, fortalecer as cooperativas e criar novos negócios”, afirma Nei Mânica, presidente da Cotrijal.
Aposta em esmagamento não é isolada
A Soli3 chama atenção pela escala e pelo modelo de intercooperação, mas não está sozinha.
Em outro investimento acima de R$ 1 bilhão, nos Campos Gerais do Paraná sete cooperativas lideradas pela Frísia assumiram este ano uma unidade de esmagamento de Ponta Grossa, até então da multinacional Louis Dreyfus Company (LDC). Foi a intercooperação, novamente, que permitiu reunir escala para um investimento desse porte.
Ainda no Paraná, a Cocamar opera desde 2022 uma usina de biodiesel em Maringá, com capacidade para 90 milhões de litros por ano. A cooperativa passou a transformar a soja dos associados em óleo e, depois, em biodiesel.
A Coamo, maior cooperativa da América Latina, implanta em Paranaguá uma usina de biodiesel com investimento estimado em R$ 480 milhões. A previsão é de início das operações no fim de 2027.
Já em Santa Catarina, a Cooperalfa constrói em Chapecó uma unidade de R$ 230 milhões, integrada à estrutura de processamento de soja da cooperativa.
O óleo ganhou importância estratégica na cadeia
O biodiesel ajuda a explicar por que o óleo de soja passou a ter um papel mais estratégico na cadeia. Em 2025, o Brasil produziu 9,8 bilhões de litros do biocombustível, 8,5% a mais que no ano anterior, e o óleo de soja respondeu por 65,9% das matérias-primas das usinas. Para 2026, o Cepea/Esalq, em parceria com a Abiove, estima crescimento de 10,93% no biodiesel e de 6,87% no PIB da cadeia da soja e do biodiesel, impulsionado, entre outros fatores, pela intensificação do processamento do grão.
A demanda tende a acompanhar a mistura obrigatória ao diesel. Pela lei do Combustível do Futuro, ela sai dos atuais 15% e chega a 20% em 2030, com aumentos sujeitos à avaliação do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).
“Hoje a demanda é maior que o fornecimento”, afirma o presidente da Soli3.
De olho na distribuição dos resultados
Para as cooperativas, a conta não termina no preço da soja entregue pelo produtor. Uma indústria própria permite participar dos resultados gerados depois que o grão deixa a propriedade. Döwich avalia que um investimento dessa dimensão pode beneficiar os associados tanto por melhores condições de comercialização da soja quanto pela distribuição dos resultados da operação.
É uma mudança de posição na cadeia. A soja continua sendo a matéria-prima, mas deixa de ser necessariamente o ponto final da relação da cooperativa com o produto. Ao industrializar, as cooperativas passam a disputar uma parcela maior do valor criado depois que o grão sai da propriedade e ampliam o valor que a cadeia gera para a economia brasileira.







