
"A coisa mais honesta que se pode afirmar neste momento é que é impossível prever qualquer coisa." A frase do economista Fábio Tadeu Araújo, consultor da Brain Inteligência Corporativa, resume a deterioração do quadro econômico mundial ao longo da última semana. A combinação de dólar em alta, bolsas em baixa e crédito minguado tem fortalecido a tese de que ninguém escapará dos efeitos da crise financeira. Mas, apesar de tamanha turbulência, alguns especialistas ainda conseguem identificar setores da economia nacional que tendem a sair pouco chamuscados, mesmo que se concretize o cenário quase apocalíptico que vem sendo prenunciado.
A avaliação é que, por suas características, empresas de energia elétrica, saneamento e telecomunicações tendem a ser pouco prejudicadas. Mas mesmo empresários de outros setores até de segmentos considerados ameaçados, como o automotivo e o imobiliário vêem chances de crescer em 2009, ainda que em ritmo mais lento. Em suas declarações, eles admitem que o ano será dos menos confortáveis, mas evitam se render ao pânico.
"Deverá haver algum impacto sobre a nossa atividade, mas, por enquanto, não sentimos", diz Nélson Elias Nakid, diretor da Nakid Construções Civis. "As obras industriais que grandes empresas nos encomendaram meses atrás estão em andamento, e novas obras foram contratadas recentemente. Não houve cancelamentos. E, mesmo com as expectativas de desaceleração da economia, continua faltando material de construção, os preços continuam subindo."
Luis Napoleão Filho, proprietário do grupo imobiliário LN, reconhece que terá de alterar o perfil dos imóveis que planeja construir, mas não demonstra abalo. "Como atuamos em vários nichos, decidimos manter o número de lançamentos previstos para 2009, cerca de 2 mil unidades. Mas elevaremos a proporção de imóveis econômicos, de até R$ 100 mil, reduzindo o número de imóveis mais caros", explica. Para Napoleão, a crise de crédito não deve afetar os segmentos mais baratos porque, para eles, há recursos garantidos do FGTS com juros subsidiados e da caderneta de poupança. Segundo ele, o Grupo LN também não terá problema em se financiar, pois "tem um grande estoque de terrenos próprios e está bastante capitalizado" desde que vendeu quatro hotéis para a GP Investments, há duas semanas.
Por motivos distintos, a diretora da Ademilar Consórcio de Imóveis, Tatiana Reichmann, também se diz otimista. Segundo ela, a empresa deve crescer 40% em 2009, após uma expansão de 35% neste ano. "O consórcio não cobra juros, e por isso pode ser uma alternativa aos financiamentos, que ficarão mais caros", diz.
O setor madeireiro que figurou entre os maiores exportadores do Paraná até que o dólar começou a cair com força, a partir de 2005 vê oportunidades de recuperar parte das perdas. Antônio Rubens Canilotti, presidente da Associação Brasileira de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), explica que, se a moeda se estabilizar perto de R$ 2, beneficiará o setor, que trabalhava com projeções entre R$ 1,70 e R$ 1,80. Canilotti diz não temer uma queda severa das exportações em função da desaceleração global. "Em 2006, foram construídas 2,4 milhões de casas nos Estados Unidos. Neste ano, serão 900 mil. Acreditamos que a demanda lá chegou ao piso, e a partir de agora deve se recompor, ainda que lentamente."
Trânsito
A Brose do Brasil, fornecedora da indústria automobilística, tende a ser afetada pela esperada perda de ritmo do setor. A multinacional alemã, que produz sistemas de portas e motores elétricos em São José dos Pinhais (Grande Curitiba) e Salto (SP), deve faturar R$ 340 milhões neste ano bem mais que os R$ 240 milhões de 2007, muito em função da inauguração da unidade paulista , mas evita fazer previsões para a próxima temporada. "O momento definitivamente não é de decisões arriscadas. Vamos revisar alguns pontos de nosso planejamento, mas ainda achamos que haverá redução de velocidade, e não queda do setor", diz o presidente da empresa, José Bosco Silveira Júnior.
A curitibana Perkons, por sua vez, não teme a crise a empresa presta serviço na área de radares eletrônicos e monitoramento de trânsito em vários estados do país. "Segurança e mobilidade no trânsito são prioridades do governo. E não dependemos de empréstimos, já que nos financiamos com recursos próprios. Por isso, em 2009 devemos repetir o crescimento dos últimos anos, algo entre 15% e 20%", prevê o diretor financeiro da empresa, Eduardo Schause.




