
Parece impensável, mesmo agora, que o desastroso vazamento de óleo no Golfo do México possa derrubar a poderosa British Petroleum. Mas investidores são pagos para pensar o impensável e é exatamente isso o que eles estão fazendo.
A idéia de que a BP venha um dia a decretar falência, especialmente como parte de uma fusão que lhe permita desvinculá-la do desastre, começa a circular por Wall Street. Banqueiros e advogados já estão avaliando negócios em potencial (e calculando quando poderiam ganhar).
Dada a queda no preço das ações da BP a empresa perdeu mais de um terço de seu valor desde a explosão na plataforma Deepwater Horizon , alguns banqueiros e analistas dizem que ela começa a parecer uma boa opção de aquisição. A questão é: quem compraria a BP, considerando-se seu enorme passivo potencial?
Shell e Exxon Mobil estariam lambendo os beiços. E mentes jurídicas determinadas têm sonhado com cenários em que a BP entraria com um processo de pré-falência, jogando os custos da limpeza e, potencialmente, bilhões de dólares em ações judiciais para uma entidade corporativa distinta.
Tony Hayward, executivo-chefe da BP, tem insistido em que a gigante que dirige vai superar essa tempestade. A empresa é realmente uma máquina de fazer dinheiro: teve lucro de aproximadamente US$ 17 bilhões no ano passado.
"O vigoroso fluxo de caixa dos últimos trimestres nos colocou em condições, do ponto de vista de balanço financeiro, de assumir plenamente a responsabilidade de uma resposta aos acontecimentos no Golfo do México", disse Hayward a funcionários da empresa na sexta-feira.
Cifras
Mas isso não impediu que a turma dos negócios projetasse altos vôos de lucros potenciais. Eis algumas das contas que faz esse pessoal. Os custos da limpeza para a BP podem ser muito altos, chegando a US$ 23 bilhões, de acordo com o Credit Suisse. Além disso, a companhia pode ter de desembolsar um adicional de US$ 14 bilhões em indenizações reivindicadas por pescadores do Golfo e pela indústria do turismo. Assim, enquanto estimativas conservadoras apontam para uma conta de US$ 15 bilhões, algo em torno de US$ 40 bilhões não está fora de questão. Afinal, no que diz respeito a esse vazamento, pouca coisa saiu como o esperado.
A empresa tem cerca de US$ 12 bilhões em caixa e investimentos de curto prazo, mas já existe um debate sobre se deve cortar seus dividendos, por medo de que poderia sofrer descapitalização. Claro, há a alternativa de vender patrimônio ou pedir empréstimos, o que, no estado de coisas atual, também não é tão fácil.
"Cenário Texaco"
Mas todos esses números não falam da maior ameaça: uma condenação da empresa. A sentença poderia aumentar o custo do vazamento em centenas de bilhões de dólares. Se isso acontecesse, até mesmo a BP capitularia. Um desfecho como esse parece absurdo hoje. Mas em Wall Street os banqueiros já cunharam um termo para uma situação assim: "o cenário Texaco".
Em 1987, a Texaco foi forçada a decretar falência por não poder pagar uma indenização de US$ 1 bilhão para a Penzoil originalmente de gritantes US$ 10,53 bilhões, o valor tinha sido reduzido por ordem de um juiz. (A Penzoil foi bem-sucedida num processo contra a Texaco por "furar" sua planejada fusão com a Getty Oil, em parte porque levou o caso a um tribunal local perto de sua sede. O júri decidiu por tripla indenização.)
Imagine o caso BP sendo julgado num tribunal da Louisiana, contra o pano de fundo de uma economia local afogada em petróleo, altos índices de desemprego e uma opinião pública irada. A quanto poderia chegar a conta?
Sob o Oil Pollution Act, de 1990, a responsabilidade da BP por desastre econômico para além do custo da limpeza fica limitada a U$ 75 milhões, valor que Hayward diz ter planos de como liquidar. Mas se a BP for acusada de violar normas de segurança, o que parece provável, esse teto se torna irrelevante.
Isso não quer dizer que a BP não vá lutar contra um julgamento de grandes proporções contra ela. Depois do vazamento da Exxon Valdez, a Exxon travou uma batalha de duas décadas contra uma multa de U$ 5 bilhões por danos morais. E ganhou. A multa foi reduzida para U$ 4 bilhões e, em seguida, para U$ 2,5 bilhões. O caso acabou na Suprema Corte, que considerou as ações da Exxon "mais do que negligentes, mas não a ponto de ser mal-intencionadas" e anulou a multa. A decisão reduziu a indenização por danos a um pagamento compensatório, calculado em U$ 507,5 milhões.
"É um tanto imponderável a questão sobre se a responsabilidade seria limitada ou não", afirmou David Buik, da BGC Partners, de Londres, escrevendo sobre o caso BP. "Se o preço das ações continuar a cair, a empresa pode se tornar alvo de aquisição."
Uma vez que a Shell e a Exxon têm bilhões de dólares em caixa e à mão e valores de mercado que facilmente superam o da BP a Exxon tem o dobro do tamanho , investidores dizem que agora é a hora de fazer um acordo, desde que o comprador possa encontrar uma maneira de não levar junto os problemas legais. Isso, claro, é um grande empecilho.
Décadas de agonia
Muita gente além da própria BP acha que é bobagem sequer discutir a possibilidade de uma falência ou aquisição. Mas, no horizonte de alguns anos, essa pode ser a melhor, senão a última, esperança da companhia.
"Mesmo com uma pré-falência, a marca BP ficará definitivamente manchada", observa Robert Bryce, membro sênior do Instituto Manhattan e autor de Power Hungry: The Myths of Green Energy and the Real Fuels of the Future [algo como "Fome de energia: os mitos sobre a energia verde e os verdadeiros combustíveis do futuro"].
Sim, a BP está financeiramente sólida no momento. É pouco provável que desmorone no curto prazo, diz Bryce. "Em vez disso, a companhia vai passar as próximas décadas agonizando, atolada em processos intermináveis, sua reputação irreparavelmente abalada e as finanças enfraquecidas", prevê o analista.
Isso, a se acreditar nos banqueiros, é o desfecho otimista.
Tradução: Christian Schwartz








