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Artigo

A economia pós-materialista

Pode ser que a causa da desaceleração não esteja em mudanças de tecnologia, mas sim numa mudança de valores. Para o bem e para o mal, nas últimas décadas os norte-americanos devotaram muito mais energia a campos pós-materialistas do que à simples produção de riqueza.

O e-book The Great Stagnation, de Tyler Cowen, é a obra de não ficção mais comentada dos últimos meses. A questão central apresentada pelo autor é a de que, até 1974, a economia norte-americana foi capaz de experimentar um crescimento impressionante numa espécie de colheita de frutas que estavam ao alcance da mão. Havia terras baratas a serem exploradas. Houve o tremendo salto educacional do pós-guerra. Revo­luções tecnológicas foram causadas pela popularização da eletricidade, dos plásticos e do carro.

Porém, continua Cowen, as frutas ao alcance da mão estão esgotadas e, desde 1974, os EUA experimentam um crescimento mais fraco, um avanço mais lento da renda familiar, menor criação de empregos, menos ganhos de produtividade, pouco aumento na expectativa de vida e pequenas taxas de progresso tecnológico.

Os dados que Cowen usa para apresentar esses gargalos são convincentes e têm resistido ao escrutínio dos analistas. Para o autor, nossa sociedade atravessa, neste momento, um platô tecnológico.

No entanto, as mesmas evidências podem ser utilizadas para contar uma história diferente. Pode ser que a causa da desaceleração não esteja em mudanças de tecnologia, mas sim numa mudança de valores. Pode ser que, numa economia industrial, as pessoas desenvolvam uma mentalidade materialista e acreditem que o aumento da renda é igual a uma maior qualidade de vida. Num mundo cada vez mais dirigido pela informação, por sua vez, a sociedade talvez passe a ter um raciocínio pós-materialista, percebendo que pode melhorar sua qualidade de vida sem necessariamente produzir mais riqueza.

Por exemplo, imagine um homem chamado Sam, que tenha vivido entre 1900 e 1974. Sam veio a um mundo de baús de gelo, carroças e, frequentemente, banheiros fora das casas. E morreu em um mundo de condicionadores de ar, Camaros e aterrissagens na Lua. A vida de Sam foi definida por mudanças dramáticas no âmbito material, e ele trabalhou duro para montar sua empresa de venda de sistemas de freio. Sam não era uma pessoa refinada, mas compreendia que, se quisesse oferecer uma vida segura à sua família, precisava gerar riqueza.

O neto de Sam, Jared, nasceu em 1978. Jared não se interessou pelo mundo dos sistemas de freio, cujos negócios estavam minguando. Ele trabalha para uma empresa que organiza conferências. Sua função é convocar palestrantes que deem lições de vida extraordinárias. Jared tem um blog sobre arte moderna e tira férias com a família em locais mais exóticos e excitantes do que os destinos de qualquer viagem feita pelo avô.

Jared tem uma vida intelectualmente muito mais vibrante do que a de Sam. Ele adora Facebook, YouTube, Wikipedia e os aplicativos do iPhone. Mas muitas dessas coisas são feitas fora da economia remunerada e convencional. A maioria é produzida por pessoas que trabalham de graça. E esses produtos não custam nada para serem consumidos.

Eles nem sequer geram muitos empregos. Cowen expõe em seu livro que a indústria automotiva criou milhões de vagas, mas o Facebook emprega só 2 mil pessoas; o Twitter, 300; e o eBay, cerca de 17 mil. São necessários apenas 14 mil funcionários para fabricar e vender iPods, um equipamento que ajuda a acabar com a ocupação das pessoas que fabricam e vendem CDs – o que significa que ele provavelmente gera perdas no mercado de trabalho.Como bem observa Cowen, muitas das inovações tecnológicas atuais produzem um enor­­me ganho de felicidade, mas pouquíssima atividade econômica.

As outras prioridades do nosso personagem Jared também geram qualidade de vida sem grandes avanços materiais ou de produtividade. Jared preocupa-se, por exemplo, em manter hábitos saudáveis e faz parte de uma geração que gasta muito mais com saúde.

Para Sam, renda e padrão de vida eram sinônimos, mas, para Jared, riqueza é diferente de qualidade de vida. E ele se interessa mais pela última. Por isso, tem experiências ricas e significativas, mas seu tipo de raciocínio também traz problemas. Por não compreender totalmente a cada vez mais relevante distinção entre riqueza e padrão de vida, ele tem a impressão de que está ficando mais rico. Como resultado, gasta mais do que pode. Muitas das dificuldades econômicas recentes, observa Cowen, derivam do fato de que muitos norte-americanos pensam que são mais ricos do que realmente são.

Para o bem e para o mal, ao longo das últimas décadas, os norte-americanos devotaram muito mais energia em campos pós-materialistas e cada vez menos esforços voltados para a simples produção de riqueza. Durante esses anos todos, os paraninfos das turmas de universitários pediram que os seus ex-alunos buscassem um propósito e não dinheiro. Muitos, ao que parece, escutaram o conselho.

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