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No bolso

Demanda, competição e gordura

Franco Iacomini, colunista de Finanças Pessoais

No passado, o dólar em baixa ajudou a manter a inflação sob controle. Com a alta recente, essa situação se inverte? Dólar em alta é sinal de preços subindo no supermercado?

Ao que tudo indica, não. Três fatores contribuem para isso. O primeiro é a desaceleração na economia global. Países ricos do Hemisfério Norte estão vendo sua economia encolher e, como consequência, estão comprando menos. Assim, a demanda por matérias-primas como petróleo e aço e mercadorias alimentícias (soja, por exemplo) deve cair, o que significa preços em dólar menores. Se a cotação do dólar sobe, ficam elas por elas: para o comprador brasileiro o preço não muda porque um efeito compensa o outro.

O segundo fator é a competição. Produtos com alto índice de componentes importados, como os eletrônicos, estão em um momento de concorrência exacerbada. Quem subir perde espaço no mercado, e isso é o que ninguém quer.

Por fim, há o fator gordura. Enquanto o dólar estava em baixa, poucos foram os empresários que repassaram o benefício cambial para o consumidor. A maioria preferiu engordar as suas margens. Agora, pode aceitar ganhos um pouco menores para manter o nível de preços. É bom lembrar que, também no Brasil, a economia deve se desacelerar. Nessas condições, quem aumenta o preço corre o risco de ficar encalhado na gôndola.

São Paulo - A valorização do dólar em relação ao real nos últimos dias poderá impactar a inflação medida pelo IPCA com um acréscimo de até 0,55 ponto porcentual só no período de setembro a novembro, caso a moeda norte-americana se mantenha no nível atual, preveem analistas. Este movimento é o que os economistas chamam de impacto bruto do câmbio sobre a inflação. O IPCA nesses três meses, mantidas as condições atuais, deverá acumular alta de 1,42%, de acordo com o economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges. Esta taxa, de acordo com ele, equivale a uma média mensal de setembro a novembro da ordem de 0,47%.

A moeda norte-americana caiu 0,87% ontem (a primeira queda em 11 dias) e fechou cotada a R$ 1,709, exibindo aumento de 9,81% sobre a cotação de R$ 1,5563 do dia 29 de julho, menor taxa registrada antes do começo da tensão que levou ao aumento da aversão ao risco e à subida do dólar. "Quando ocorre uma puxada no câmbio, o impacto é contemporâneo", diz a analista da Tendências Consultoria Inte­grada Alessan­dra Ribeiro. A valorização do dólar, segundo os especialistas, reflete a corrida para a moeda norte-americana de investidores temerosos de um calote na dívida grega.

O esperado impacto do câmbio sobre a inflação justifica, em parte, a recusa da maior parte do mercado em aceitar a análise defendida pelo Banco Central e pelo Ministério da Fazenda, de que a crise internacional será deflacionária para o Brasil. Entre os argumentos da autoridade monetária para justificar o inesperado corte de 0,50 ponto porcentual da taxa básica de juros em 31 de agosto, de 12,5% para 12% ao ano, está a tese de que o repasse (pass-through) do câmbio para a inflação diminuiu nos últimos anos.

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, em entrevista recente, defendeu que o repasse para os preços atualmente vai de 3% da variação cambial no curto prazo a 8% no longo prazo. De acordo com Borges, essa transmissão já foi maior. Há três anos, o impacto da alta do dólar para o IPCA era de 6% no curto prazo e de até 17% no longo prazo. Ou seja, pelas contas de Borges, antes o repasse era de 0,6 ponto no curto prazo e ia até 1,7 ponto no longo prazo. Agora, segundo Tombini, de cada 10% de alta da moeda norte-americana, a influência na inflação iria de 0,3 ponto porcentual no curto prazo a 0,8 ponto no longo prazo.

Os analistas até concordam que o repasse diminuiu nos últimos anos em resposta a um conjunto de fatores. Entre estes fatores, de acordo com o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, encontram-se a maior abertura comercial, a diversificação da economia e a menor dependência em relação ao cenário externo. A Tendências Consul­toria Integrada, por exemplo, de acordo com Alessandra Ribeiro, trabalha com um repasse de câmbio para a inflação de 0,5 ponto porcentual a cada 10% de aumento do dólar.

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