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Bolsa dólar China
Funcionários de saúde fazem blitz em área turística de Xangai (China) por causa do avanço da Covid-19: lockdown rigoroso na região afeta o mercado mundial| Foto: Alex Plavevski/EFE

O mercado financeiro está mais tenso: na última semana o Ibovespa, índice de referência da Bolsa, caiu do nível de 116 mil pontos para menos de 110 mil, e o dólar passou de R$ 4,67, no dia 18 para R$ 4,87, na cotação de fechamento desta segunda.

Uma série de fatores está contribuindo para este cenário mais adverso:

  • A redução da liquidez global e a tendência a um aumento mais forte dos juros nos Estados Unidos;
  • A perda de ritmo da economia chinesa, motivado pela extensão nos casos de Covid-19 e pelos lockdowns no país;
  • Os desdobramentos da guerra entre Rússia e Ucrânia;
  • A redução de fluxos de capitais em direção aos países emergentes.

Jennie Li, estrategista da XP Investimentos, aponta que no primeiro trimestre o Brasil vinha sendo beneficiado por um movimento de rotação por parte dos investidores. “Em um cenário de alta nos juros, em que o Fed [o banco central norte-americano] tende a se mostrar mais agressivo, os investidores procuram direcionar seus recursos para empresas geradoras de valor e não de forte crescimento", diz.

No Brasil, é o caso das empresas de commodities, favorecidas pela inflação aumentando, e de bancos, impulsionados pelos juros subindo. “A guerra entre a Rússia e a Ucrânia puxou para cima o preço das matérias-primas e os lockdowns na China acentuaram a pressão inflacionária”, afirma.

Tomas Awad, sócio-fundador da 3R Investimentos, atribuiu, também, a boa performance da bolsa brasileira a uma recuperação técnica depois de um ano em que houve um “desempenho gritante” do Brasil, se comparado a outras bolsas de países emergentes. Em 2021, o Ibovespa caiu 11,93%.

Veja, a seguir, os fatores que estão deixando os mercados mais tensos:

1. Inflação e tendência global de alta nos juros

Analistas de mercado estão enxergando potencial mudança no cenário de liquidez mundial e de baixas taxas de juro. Desde a crise de 2008, as principais estratégias para evitar um cenário econômico pior foram mais estímulos monetários e fiscais, mais endividamento e impressão de moeda. “Vivemos em um cenário onde os bancos centrais se tornaram quase os ‘super heróis’ dos mercados, prontos para salvar a todos quando um vilão se aproximasse”, sintetizam analistas da XP.

Eles complementam, afirmando que a pandemia foi o ápice desta forma de lidar internacionalmente com o dinheiro, quando os estímulos fiscais e monetários alcançaram mais de 25% do PIB global e um grande endividamento público. “Olhando pela rapidez da recuperação da economia global após o início da pandemia, é possível se afirmar que essa política teve êxito.”

Entretanto, ela deixou como legado uma pesada inflação. Nos Estados Unidos, ela é a maior em 40 anos. O consenso do mercado, apurado pela Bloomberg, sinaliza que, neste ano, os preços devem subir 6,9% naquele país; 6,1% na Alemanha; 7,1% na Inglaterra e 8,4% no Brasil.

Nesse cenário, os analistas da Monte Bravo Investimentos temem que uma postura mais agressiva do Fed possa resultar em uma recessão nos Estados Unidos.

Durante uma série de eventos do Fundo Monetário Internacional (FMI), na semana passada, o presidente do Fed, Jerome Powell, sinalizou ser apropriado que a autoridade monetária se mova mais rápido em reação às pressões inflacionárias na maior economia global, sugerindo uma alta de 0,5 ponto percentual nos juros na próxima reunião do FOMC (o equivalente ao Copom brasileiro), que acontece no início de maio.

Outro diretor do Fed, James Bullard, sinalizou que uma alta de 0,75 ponto percentual seria uma possibilidade em discussão. Segundo o Itaú, isso intensificou as discussões sobre o ritmo de aceleração dos juros por parte do BC americano. Isto contribui para reduzir o diferencial entre os juros pagos aos investidores, quando aplicam seus recursos no Brasil, que é considerado um mercado de maior risco do que os Estados Unidos.

2. Perda de ritmo da economia chinesa

Uma das principais preocupações é com a perda de ritmo de crescimento da economia chinesa, que pode afetar a venda de commodities para lá. Neste mês, o FMI revisou para baixo as projeções de crescimento do gigante asiático, de 4,8% para 4,4%.

A China dá sinais de desaquecimento. No primeiro trimestre, apesar de as exportações brasileiras para lá terem crescido 21,5% em dólares, no comparativo com igual período do ano passado, elas caíram 7% em tonelagem, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Essa queda no volume exportado pode indicar uma demanda menor por produtos brasileiros.

Nesta segunda-feira (25), de acordo com o Bradesco, os temores com uma possível implementação de lockdowns rígidos em Pequim, após a descoberta de casos de Covid-19 na cidade, levaram a tombos na bolsa de Xangai, puxando para baixo os preços das commodities. Ela fechou, nesta segunda, com a pior queda desde fevereiro de 2020.

A XP Investimentos avalia que a política de zero Covid na China e a extensão dos lockdowns para várias cidades chinesas voltaram a trazer à tona o risco de desabastecimento de vários produtos no mundo e impactos nas cadeias de suprimento global. Dados mostram que quase 800 navios estão aguardando embarques no porto de Xangai. É, aproximadamente, o dobro de navios que estavam em fila nos piores momentos de 2021.

3. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia

Outro fator que reforça um cenário mais preocupante é a guerra entre a Rússia e a Ucrânia. O conflito militar, ao lado da extensão dos lockdowns, contribuiu, segundo a XP Investimentos para atrasar a “volta ao normal” das cadeias de oferta no mundo.

O petróleo, que tinha subido 51% em 2021, teve uma alta de mais 37% neste ano. O gás natural subiu 150% na Europa e nos Estados Unidos. O trigo, base para a alimentação de bilhões de pessoas, ficou 38% mais caro em 2022. E não é só o preço que preocupa. Há também um potencial de falta de oferta que poderia atingir áreas onde a tensão já é grande, como o Oriente Médio e o Norte da África, que são atendidas principalmente por Rússia e Ucrânia.

A pressão sobre os alimentos não se restringe ao trigo. Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês) mostram que o preço da comida aumentou 18% no comparativo entre fevereiro de 2021 e 2022. Ela está 60% acima dos níveis do mesmo período de 2020.

Um impacto sobre a agricultura vem dos fertilizantes. “Como consequência dos conflitos na Ucrânia e da alta dos preços do petróleo e do gás natural, os fertilizantes também apresentam altas bruscas, além de haver dúvidas sobre o suprimento global, dada a relevância da Rússia e da Belarus na exportação de potássio e ureia”, aponta a XP. Os dois insumos tiveram uma alta, respectivamente de 160% e de 105% nos últimos 12 meses.

4. Fluxo menor de recursos para os países emergentes

Segundo a Infinity Asset, o fluxo de investimentos para mercados emergentes começa a ganhar “sérios contornos de pausa”, em meio às incertezas do impacto global da política de juros mais altos e em como isso pode se refletir em termos de atividade econômica e crescimento, mesmo considerando mercados como o Brasil um importante hedge (mecanismo de proteção) inflacionário.

Lucas Serra, analista da Toro Investimentos, lembra que a guerra na Ucrânia contribuiu para uma realocação de recursos nos países emergentes. “Com a Rússia passando a ser considerada um mercado arriscado, sobrou capital e parte veio para o Brasil.”

Os especialistas apontam que depois da entrada de um grande montante de recursos na B3 – R$ 64,1 bilhões no primeiro trimestre – é natural que haja uma acomodação, ou, até mesmo uma reversão no fluxo de capitais. Em abril, até o dia 19, tinham saído R$ 580,8 milhões.

“É natural que haja uma acomodação, ou, até mesmo uma reversão no fluxo de capitais. As sanções contra a Rússia ainda persistem, a Ucrânia não está conseguindo embarcar trigo, há os lockdowns na China e o Fed pode acelerar o ritmo da alta nos juros”, diz Pedro Serra, gerente de research da Ativa Investimentos.

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