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Outros lucram com a situação dos catadores

Mahmudur Rahman, que estuda na Universidade de Uppsala, afirma que "algumas pessoas ganharam muito dinheiro, mas não foram os trabalhadores". O prefeito da cidade, Sven-Ake Draxten, 57 anos, que gosta de um prato sueco feito de almôndegas acompanhadas de amoras, observou que as empresas locais que cobram pela alimentação, hospedagem e transporte dos trabalhadores têm prosperado, enquanto os catadores sempre são os perdedores. Ele diz que o governo precisa mudar as leis. "Nós não queremos esta situação no próximo ano", afirma.

Thongkam Persson, 57 anos, da Tailândia, se casou com um sueco e migrou para o país há 30 anos. Hoje ela administra um restaurante tailandês na cidade, mas, quando era mais jovem, trabalhou cinco temporadas coletando amoras. "Prejudica a coluna e as amoras crescem nas montanhas, então você precisa subir", descreve. E acrescenta: "os suecos têm dinheiro, então só os tailandeses, os chineses e os vietnamitas catam as frutas. Os suecos fazem caminhadas na floresta."

Promessa

Trabalhadores são iludidos, dizem suecos

A Nordic Food Group é uma das maiores indústrias de processamento de frutas silvestres da Escandinávia. Bertil Qvist, executivo da empresa, diz que a exigência de que as empresas paguem um salário mínimo para os catadores de frutas causou a dependência de intermediários na Ásia. Ele culpa estas empresas por exagerarem na previsão dos lucros. "As pessoas são convidadas a virem para cá por motivos falsos", reclama ele. "Elas acham que vão colher frutas cultivadas e não estão acostumadas com este tipo de trabalho. Nos anos bons, os catadores podem levar para casa uma pequena fortuna. Mas, em outros, a safra não é boa; este foi um ano ruim", afirma.

A população local, apesar de concordar que tenha sido um ano ruim, reclama que os trabalhadores não foram advertidos adequadamente sobre esta possibilidade. "Dizem para eles que é como ouro na floresta, é dinheiro rápido", conta Lars Riberth, pastor da igreja da cidade, que recolheu o equivalente a US$ 9 mil para ajudar os imigrantes. "É realmente escravidão". E acrescenta que é inaceitável colocar os riscos sobre os ombros dos catadores.

Este país de grandes lagos e altos pinheiros de Natal é famoso por suas frutas silvestres: amoras, mirtilos, groselhas, framboesas, morangos e muito mais. O problema é que os suecos não gostam de colhê-las, exceto quando decidem catar alguns punhados para a sobremesa. É por isso que durante décadas as grandes empresas suecas, que estão entre as maiores indústrias de processamento de frutas silvestres do mundo, importaram mão de obra para a árdua tarefa de percorrer a floresta pedregosa e escalar as montanhas para encontrar e colher frutas silvestres. Os imigrantes vinham da Tailândia, China, Bangladesh e Vietnã durante o verão. Durante anos, tudo funcionou muito bem. Entretanto, na última primavera (outono no Brasil) uma frente fria dizimou as culturas de frutas silvestres e castigou a indústria e seus trabalhadores, que tiveram uma péssima colheita pela segunda vez seguida.

Após o desastre do ano passado, que enviou muitos catadores de volta aos seus países, sobrecarregados de dívidas ao invés de lucro, as autoridades suecas passaram a exigir das empresas a garantia de um salário mínimo de cerca de US$ 2.320 dólares para a temporada. Entretanto, a fim de contornar a lei, as indústrias de frutas passaram a contratar catadores asiáticos através do recrutamento de empresas em seus países de origem. Como estas empresas não eram suecas, elas não precisavam obedecer às leis do país. Logo, elas se recusaram a pagar o mínimo aos trabalhadores após o fracasso da safra.

Vergonha

Para a Suécia, orgulhosa de possuir uma legislação trabalhista que protege os trabalhadores – e que enviou 20 membros de um partido da extrema direita anti-imigração para o parlamento nas últimas eleições – os catadores rapidamente se tornaram motivo de vergonha nacional, com a atenção voltada especialmente para os 190 trabalhadores de Bangladesh, que desembarcaram nesta modesta cidade de casas de madeira no início deste ano. Eles foram contratados em sua terra natal por uma empresa chamada Bangladesh Work Force, com a promessa de fazer fortuna colhendo frutas silvestres na Suécia – os pagamentos variavam de acordo com quem fazia a oferta.

"Muitos trabalhadores de Bangladesh chegaram a pagar até 150 mil takas, cerca de US$ 2,1 mil, para intermediários da Bangladesh Work Force, em um país onde trabalhos bem remunerados como os da indústria de vestuário pagam aproximadamente US$ 42 por mês", afirma Mahmudur Rahman, 31 anos, que estuda Biotecnologia na Universidade de Uppsala e cujo irmão e cunhado estavam entre os trabalhadores que chegaram na última primavera.

Rahman conta que os trabalhadores foram informados que receberiam cerca de US$ 10 mil em dois meses, e mesmo os catadores mais preguiçosos conseguiriam no mínimo US$ 5 mil. Para receber a quantia total, os catadores precisariam colher 60 quilos de frutas por dia. Mas, como a safra acabou sendo escassa, a maioria conseguiu colher menos de 4,5 kg, ganhando pouco ou nenhum dinheiro. "Alguns tomaram empréstimos ou venderam seus bens antes de vir para a Suécia", conta Rahman."Foi um trabalho de verão que deu errado", acrescenta.

Alternativas

Akhtar Iqbal, 43 anos, deixou para trás a esposa e três filhos para trabalhar como cozinheiro em vez de catador de frutas silvestres. Ele preparava refeições para cerca de 35 homens e recebia o montante médio do pagamento aos catadores, que acabou sendo praticamente nada. "No geral, foi muito negativo", diz ele. Para preencher os seus dias, os homens buscam empregos temporários na cidade, como pintura, jardinagem ou trabalhando em fazendas, as quais também oferecem poucas vagas.

No fim da temporada de verão (inverno no Brasil), a maioria dos catadores voltou para casa com o auxílio das igrejas locais e da Cruz Vermelha da Suécia. Outras dezenas resolveram ficar no país, alojados em quatro casas não mobiliadas, dormindo em colchões espalhados pelo chão. Arifur Rahaman, 32 anos, deixou esposa e filho em Bangladesh para sair em busca de fortuna. Certa tarde, ele sentou-se atrás da estação ferroviária da cidade para beber uma Coca-Cola com três amigos."Sem amoras, sem dinheiro", disse ele, levantando as mãos vazias para o céu.

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