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Cerveja caseira também dá dinheiro

Incentivo à produção artesanal contribui para a formação de consumidores, a cultura cervejeira e o faturamento dos fabricantes

Julio Moutinho, Luiz Felipe Araújo e Murilo Foltran, da DUM: parceria com a Gauden Bier deu escala comercial à produção | Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo
Julio Moutinho, Luiz Felipe Araújo e Murilo Foltran, da DUM: parceria com a Gauden Bier deu escala comercial à produção (Foto: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo)
Marcelo Bastos já investiu R$ 2 mil na

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Marcelo Bastos já investiu R$ 2 mil na

O analista de sistemas Marcelo Bastos, 42 anos, só poderá apreciar o terceiro lote da sua própria cerveja nas oitavas de final da Copa do Mundo, e quer fazer isso com os amigos, incentivando a seleção brasileira. Vai ser mais um teste para chegar à receita que pretende colocar em produção comercial até o fim do ano. Cervejeiro de fundo de quintal desde janeiro, Bastos investiu R$ 2 mil na compra de equipamentos e insumos, e ainda quer mais uma geladeira para reduzir o tempo de maturação e conseguir fazer a Cerveja do Cunhadão, nome provisório da marca. "A primeira ficou amarga. O resultado ficou melhor na segunda leva. Agora estou provando ingredientes, de acordo com as pesquisas que faço na internet", conta.

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A produção doméstica começou depois que ele fez um curso de cerveja na panela oferecido pela escola da microcervejaria Bodebrown, dos irmãos Paulo e Samuel Cavalcanti, em Curitiba. Nos últimos quatro anos, 1,5 mil pessoas passaram pelas aulas de homebrewing, nome dado à prática da cerveja caseira, uma tradição milenar na produção da bebida.

A Bodebrown resgatou esse histórico em um projeto pioneiro no país, reconhecido pela iniciativa e o reforço no faturamento. Além da escola, os irmãos abriram uma loja especializada para abastecer o estoque dos cervejeiros caseiros, onde também podem trocar informações e compartilhar conquistas. Juntas, loja e escola respondem por um terço do faturamento da cervejaria.

"Somos referência nacional na formação de cervejeiros informais. Além de incentivar um hobby que pode ser compartilhado com amigos e familiares, estimulamos novos negócios, ao mesmo tempo em que ampliamos a base de consumidores de cervejas artesanais", diz Samuel.

Com taxas de crescimento acima de 10% ao ano, o segmento de cervejas artesanais tem despertado a curiosidade e o interesse de quem aprecia a bebida e também parte para a produção. O aumento do consumo também exigiu profissionalização do mercado. Formado por um grupo de estudantes do Instituto de Física da Unicamp, o Lamas começou como quase todos os negócios do ramo: amigos reunidos em torno de um barril.

Cansados de peregrinar para comprar os ingredientes e acessórios necessários para a produção da bebida de cada dia, os amigos abriram uma importadora em 2010. Hoje são 9 mil consumidores ativos, que têm à disposição 1,1 mil itens em três lojas físicas – São Paulo, Campinas e Belo Horizonte – e nas vendas pela internet. No ano passado, foram R$ 3,2 milhões de faturamento e a projeção para este ano é chegar a R$ 4,6 milhões.

"Mais de 70% das vendas são para atendimento de cervejeiros caseiros. Temos ainda uma linha industrial de inox, para confecção de panelas e fermentadores, que são vendidos sob encomenda", diz Alexandre Morais, sócio da Lamas Shop.

Parcerias dão escala a "fundo de quintal"

O Paraná tem mais de 20 marcas de cerveja premiadas e demanda de consumo para 100 microcervejarias. "Em oito anos, teremos mais 80 empresas do mesmo porte", projeta o cervejeiro Samuel Cavalcanti, da Bodebrown. A produção comercial, porém, é mais criteriosa que a caseira. É preciso registrar a bebida no Ministério da Agricultura para poder vendê-la. A carga tributária é pesada (54% do valor do produto) e a rentabilidade, baixa, dizem os fabricantes. "Além dos impostos e da burocracia, o consumidor é exigente e instável, sempre está buscando novidade", explica o sócio-proprietário da Gauden Bier, Ronaldo Pinto Flor, de Curitiba.

A Gauden existe há sete anos. Produz 18 rótulos próprios e cinco com a assinatura da Madalosso, com fórmulas feitas a quatro mãos. Além disso, estabelece associações para a produção de receitas de fundo de quintal premiadas em concursos. "Buscamos linhas que não concorram na mesma trilha e ofereçam mais opções ao consumidor", diz Flor.

Essa associação funciona com a DUM, Morada, Fucking Beer e Tormenta. Ao todo, são 12 rótulos de cervejeiros artesanais que respondem por 15% do faturamento da Gauden. A empresa viabiliza o registro no Ministério da Agricultura e o processo de fábrica, sempre com a participação do cervejeiro. Estabelece uma margem de lucro e repassa o produto para ser revendido aos clientes. O autor da receita fica responsável pelo desenvolvimento da marca.

Essa foi a saída para os sócios da DUM garantirem escala comercial para a produção caseira. Os primeiros litros saíram da panela dos amigos Luiz Felipe Araújo, Murilo Foltran e Julio Moutinho em 2010 e serviam para animar a torcida nos pré-jogos do Atlético. Criaram o "filé" da marca, a Petroleum, com 12% de álcool, esgotada em menos de uma hora no primeiro festival de que participou.

Hoje são 3 mil litros por mês de três tipos diferentes, fabricados nos tonéis da Gauden Bier, de quem recebem royalties. A próxima será a Karel, com lançamento previsto para julho. "Temos outra empreitada a caminho, com o lançamento do filme Petroleum é nosso, a evolução da cerveja artesanal no Brasil", conta Araújo, cineasta de formação e cervejeiro de profissão.

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