Pouca gente conseguiu ignorar o derretimento das bolsas de valores. Embora o setor financeiro tenha sido o primeiro a sucumbir ao desmoronamento do castelo de cartas dos títulos hipotecários podres, é inevitável que a crise venha a afetar, de um modo ou de outro, a vida de todo mundo de investidores do mercado acionário a empresários, de banqueiros a consumidores. Não é à toa que as turbulências, e seus efeitos sobre a economia do planeta, estejam dominando as manchetes dos jornais nas últimas semanas.
Por isso, é natural que, no fim de semana, quando as bolsas (felizmente) ficam fechadas, as pessoas queiram mais é esquecer o assunto. Mas existe um tipo de passatempo que, embora possa lembrar os desagradáveis episódios recentes, deve garantir um certo divertimento. Quem estiver disposto só precisa passar na locadora, preparar a pipoca e curtir a seleção de filmes que a Gazeta do Povo preparou a partir do variado repertório de obras que retratam assuntos como quebras de bancos, fraudes no sistema financeiro e efeitos de prolongadas recessões como a Grande Depressão, que praticamente paralisou a economia norte-americana entre 1929 e 1933.
Da lista, constam filmes antigos que se passam em meio à Depressão, obras mais recentes algumas inspiradas em fatos reais sobre fraudes, colapsos e aventuras afins nas bolsas de valores e, para garantir o riso, duas comédias. Em todos eles, o espectador invariavelmente acaba pensando, mais cedo ou mais tarde: "eu sabia que ia dar problema". Aliás, o pessoal de Wall Street bem que poderia visitar a locadora neste fim de semana.
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Loucura americana (1932)
À boca pequena, há quem preveja que os americanos terão de lidar com saques bancários limitados no ano que vem, efeito colateral da recessão que se anuncia (ou da depressão que preferimos não antever?). Parece assustador? Mas há poucos anos, no advento do governo Collor de Mello, foi justamente isso que os brasileiros enfrentaram. A diferença entre os dois momentos é que o caos brasileiro ficou limitado às nossas fronteiras. E o caos americano contamina economias mundo afora, derruba mercados, confunde investidores, castiga empresas e já encarece a vida para cidadãos de todas as nacionalidades. Temos pouca memória de quebradeira entre bancos, felizmente. Por isso, dá um frio na espinha assistir as últimas seqüências de Loucura Americana, filme dirigido nos anos 30 por Frank Capra. Walter Houston faz o papel de Tom Dickson, diretor do Union National Bank, que passa a sofrer pressões do comitê da diretoria, após o colapso da bolsa, para unir-se a outro banco e substituir sua política de créditos "subprime" por outra, de créditos mais seguros. Dickson é o banqueiro "bonzinho", que empresta dinheiro para pequenos empresários em dificuldades, baseado na confiança e no princípio de que será pior se eles quebrarem e demitirem os funcionários.Mas nem suas boas intenções livram o banco de sofrer uma corrida de correntistas, assustados com mais uma onda de boatos. A multidão cresce diante dos caixas, cujo dinheiro vai acabando. Gritos e empurra-empurra indicam que a situação está fora do controle, e o banqueiro, em sua sala, acossado por um problema pessoal, desiste de lutar e contempla um revólver numa gaveta. O filme é curto 72 minutos e vale como um curioso recorte da Grande Depressão. Curiosos também são os valores envolvidos. Os empréstimos subprime variavam entre US$ 10 mil e US$ 66 mil. Nada que lembre as hipotecas de US$ 2 milhões que qualquer família americana de classe média assinou com desenvoltura nos últimos anos. E que agora não consegue pagar.
Marisa Valério
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Scarface, a vergonha de uma nação (1932)
A tentação de comparar o pânico que causavam as gangues de Chicago naquele início da década de 1930 ao sentimento que hoje provocam as gangorras do mercado financeiro é grande. Ainda mais diante do letreiro que toma a tela em preto e branco logo no início de Scarface: "o que o governo vai fazer a respeito dessa ameaça à nossa liberdade?" O discurso intervencionista que vem tomando conta de todos os debates econômicos desde o estouro da crise financeira, em meados de setembro, também se faz presente no filme dirigido por Howard Hawks, em que gangues controlam o mercado de bebidas alcoólicas em Chicago que, na época, tinham sua comercialização proibida por lei. O recado do diretor sobre o tema é transmitido às claras no discurso de um dos personagens, que brada: "Não se pode fazer com que se cumpram leis inexistentes. Façam leis e encarreguem-se de que elas sejam obedecidas". Clamor semelhante ao que fazem os keynesianos hoje, que condenam as liberdades oferecidas ao mercado de crédito nos Estados Unidos nos últimos anos e pedem por regulamentação. Tudo bem que os títulos "subprime" que degringolaram a crise financeira não empunham metralhadoras nem saem às ruas atirando em desavisados mas o pânico mundial que provocaram é digno da admiração até mesmo dos mais perigosos mafiosos.
Estelita Hass Carazzai
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Trocando as bolas (1983)
Uma aposta de dois excêntricos milionários, donos de uma corretora da bolsa de mercadorias de Nova Iorque (a Nymex), faz com que o executivo almofadinha Louis Winthorpe III (Dan Aykroyd) e o espertíssimo pé-rapado Billy Ray (Eddie Murphy) troquem de papéis. Winthorpe acaba preso e vai à ruína em questão de dias, ao passo que, com naturalidade espantosa, Billy torna-se um talentoso corretor de contratos futuros de "suco de laranja concentrado congelado" e "toucinho de porco". Estrelada por um jovem e vibrante Eddie Murphy (que raras vezes voltou a atuar tão bem), Trocando as Bolas é uma espécie de homenagem aos filmes dos anos 30 de Frank Capra (veja texto nesta página), pontuada por lições de humildade e críticas a ricaços sem escrúpulos. Deliciosamente ingênua e repleta de lances "pastelônicos", a comédia retrata o cotidiano das bolsas de mercadorias (como a Nymex e a Bolsa de Chicago) que ditam os preços de grande parte dos produtos que consumimos, do petróleo à soja, do aço ao suco de laranja, em pregões influenciados por fatores como a falta de chuva no Meio-Oeste norte-americano ou greve de petroleiros na Nigéria. E que são extremamente suscetíveis à especulação e a informações de bastidores obtidas por meios que nem sempre são os mais honestos. Em uma das cenas mais memoráveis do filme, todos os operadores da Nymex aguardam, mudos e estáticos, o pronunciamento do secretário de Agricultura dos EUA que, na tevê, está prestes a anunciar o resultado da colheita de laranjas daquele ano. (FJ)
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Wall Street: Poder e cobiça (1987)
Quando Wall Street: Poder e Cobiça foi lançado, em dezembro de 1987, houve quem dissesse que o diretor Oliver Stone tinha uma bola de cristal. Menos de dois meses antes, em 19 de outubro a "segunda-feira negra" , o pregão de Nova Iorque sofreu a maior queda de sua história, de 22% em um único dia. Na manhã seguinte, a manchete do "The New York Times" perguntava se 1987 seria a repetição de 1929, o "crash" mais famoso, que resultou na Grande Depressão. O filme, que se passa em 1985, já estava pronto quando a bolsa despencou daí o mito de que Stone teria previsto o colapso, fato que nem sequer é sugerido no roteiro protagonizado por Michael Douglas e Charlie Sheen. O cineasta teve foi muita sorte, por lançar a película justamente em meio a uma das turbulências enfrentadas de tempos em tempos pela bolsa de valores. Tal como a que anda monopolizando o noticiário nas últimas semanas. Douglas faturou o Oscar por sua interpretação do bilionário Gordon Gekko, que fez fortuna em Wall Street abusando de métodos, digamos, pouco elogiáveis. Sheen vive Buddy Fox, corretor novato que deseja tornar-se o pupilo de Gekko e, claro, ficar tão rico quanto seu mentor, qualquer que seja o preço. Embora Stone não tenha bola de cristal, é preciso admitir que o filme tem algo de profético graças a personagens como Lou, um velho corretor que sugere aos mais novos que se apeguem aos fundamentos (e deixem de lado a especulação pura e simples). Além disso, algumas das frases do inescrupuloso Gordon Gekko sintetizam muito bem o tipo de pensamento que, cedo ou tarde, leva a catástrofes financeiras: "Fazemos coisas surpreendentes enquanto todos se perguntam como as conseguimos. Você não é tão inocente para pensar que vivemos numa democracia, não é, Buddy? É o livre mercado, e você faz parte dele." (FJ)
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A fraude (1998)
Conhece a história de um banco de investimento com mais de 200 anos de história, tido como instituição financeira bastante sólida, que se encontra à beira do colapso? Não, não é preciso esperar os gênios de Hollywood filmarem o drama vivido pelo Lehman Brothers, um dos maiores dos Estados Unidos, que há três semanas declarou concordata. As locadoras já oferecem uma opção bastante similar: A Fraude, produção britânica de 1998. No caso, a instituição em risco é o tradicionalíssimo Barings Bank, da Inglaterra, o mesmo que em 1803 financiou a venda do território francês da Louisiana para os Estados Unidos. "Rogue Trader" (algo como "o especulador"), no original, é a adaptação do livro escrito pelo corretor de bolsa Nick Leeson, ele próprio responsável pelos problemas financeiros enfrentados pelo Barings.
Leeson, um jovem de 25 anos com uma carreira em ascensão em Londres, é enviado para Cingapura, então um mercado emergente. Liderando uma equipe inexperiente, mas dotado de muita ambição, Leeson logo se torna a estrela mundial do mercado de derivativos do Barings Bank. Após alguns reveses, ele começa a apostar alto para tentar reverter as perdas. O caso foi lembrado no início deste ano, quando o Société Générale, o segundo maior banco da França, anunciou ter perdido US$ 7 bilhões por causa de fraudes cometidas por um único operador. Parece que o tempo em que as turbulências econômicas se originavam em países do terceiro mundo definitivamente ficou para trás.
Rosana Félix
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As loucuras de Dick e Jane (2005)
Crise financeira não é dos assuntos mais comuns em roteiros de comédia. E esse é um ponto a favor de As Loucuras de Dick e Jane, em que Jim Carrey faz o papel de Dick Harper, um recém-promovido diretor de relações públicas da Globodyne, conglomerado à beira da falência. Não é mera coincidência o fato de a empresa fictícia lembrar a Enron: o filme é dedicado, pouco antes de subirem os créditos finais, à companhia energética que gerou um rombo bilionário após anos e anos publicando balanços financeiros maquiados.O escândalo contábil, no entanto, é mero pano de fundo para o desenrolar da história. Dick logo se vê desempregado, sem aplicações (todo os seus recursos estavam investidos em ações da Globodyne), sem seguro-desemprego (o fundo de pensão afunda junto com a empresa) e sem dinheiro para pagar a hipoteca da casa. Quando chega a ação de despejo, Dick e sua esposa Jane (Téa Leoni) só enxergam uma saída: investir na carreira de ladrões. O roteiro desta refilmagem o original foi gravado em 1977, com George Segal e Jane Fonda nos papéis principais coloca os protagonistas nas situações mais inusitadas e hilariantes. A certa altura, Dick é extraditado para o México e Jane vira cobaia de uma companhia de cosméticos. Além das referências já citadas ao "mundo real" das finanças, Dick e Jane apresenta um personagem fascinante, o CEO da Globodyne, Jack McCallister (Alec Baldwin). Trata-se de um estereótipo dos peixes grandes de Wall Street, daquele alto executivo que, não importa o que ocorra, terá sempre suas remunerações garantidas. Era para ser uma paródia de Ken Lay, o todo-poderoso da Enron, mas bem poderia ser tomado à imagem e semelhança de um Richard Fuld, ex-executivo-chefe do Lehman Brothers. Neste caso a primeira peça do dominó financeiro a que estamos assistindo desde o mês passado , não houve, até onde se sabe, fraudes propriamente ditas. Mas, no melhor estilo McCallister, que adora sumir de cena em seus helicópteros, Fuld não abriu mão de seus polpudos bônus semanas antes de o Lehman ir para o buraco. Seria cômico, não fosse trágico.
João Paulo Pimentel



