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Um dos assuntos mais quentes da economia de hoje passa longe de bolsas de valores, taxas de juros e do mundo das altas finanças em geral, embora tenha relações indiretas com tudo isso. A Economia da Felicidade, como vem sendo chamada, relaciona aspectos da economia tradicional com a psicologia, tomando como premissa que a finalidade inicial da atividade humana é a busca do bem-estar. Não é para isso, em resumo, que trabalhamos e investimos?

Pensando nisso, os economistas fizeram estudos aprofundados, criaram equações complexas para entender as relações entre dinheiro e felicidade, desenvolveram índices. Chegaram à conclusão de que o Produto Interno Bruto, tradicional medida da riqueza de um país, não serve para medir a felicidade. Em lugar da produção e do consumo, muitos economistas passaram a avaliar os efeitos do emprego, dos relacionamentos e da religião, entre outras variáveis, na satisfação que as pessoas demonstram em relação à vida.

"Como a avaliação que os indivíduos dão a muitas dessas coisas diferem da avaliação atribuída pelo mercado, uma renda mais alta ou um patamar de consumo maior não significa necessariamente um melhor nível de bem-estar individual. Se o aumento da renda leva a sacrificar a saúde ou a vida familiar, o resultado pode ser até mesmo uma qualidade de vida inferior", diz Eduardo Lora, economista-chefe do Banco Interamericano de Desenvolvimento e coordenador de um estudo realizado pela instituição sobre o assunto, em 2008. Em outras palavras, os economistas acadêmicos estão percebendo o que a sua vovó provavelmente dizia, há muito tempo: dinheiro não traz felicidade. Não sozinho, pelo menos.

Esse lado da conversa econômica vem a calhar para comentar o interessante e-mail enviado pelo leitor Luciano, na semana passada. Ele conta que tem lido com frequência comentários sobre finanças pessoais que seguem sempre na mesma linha: reduzir gastos, guardar dinheiro e comprar à vista. "Minha observação é que os economistas, como é natural em qualquer ciência, partem de uma visão parcial, sem considerar sistemicamente outros fatores, por exemplo, o psicológico, a felicidade pessoal, a necessidade de reconhecimento social e relações pessoais", diz.

Ele conta que tem seguido outro caminho, usando o crédito sempre que necessário. "Tenho contraído empréstimos a juros baixos, pois tenho tal condição, e venho há mais de cinco anos sempre pagando em dia, sempre pagando a fatura do cartão", prossegue. Luciano tem uma sobra mensal, coisa de R$ 700 por mês, que vai para a previdência privada. "Com o sistema de empréstimos, adquiri apartamento próprio, que valorizou muito, tenho carros bons e seguros (ainda estou pagando), e uma casa na praia. Ainda fiz viagens com minha família. Pois bem, não tenho, em dinheiro, nada economizado, e no ritmo que ando vou chegar aos 60 com patrimônio, um bom plano de previdência, e só..."

Aos 40 anos, ele está preocupado em passar bons momentos com a família, e não em atingir alguma meta financeira. "Entre economizar a qualquer custo e viver o presente, creio que a primeira opção também pode ter seus perigos", define. O maior deles: chegar aos 60, com os filhos crescidos, e perceber que trocou a convivência com eles por um plano de investimentos. Prefere desfrutar melhor do tempo que tem agora, quando eles são pequenos – "enquanto eles ainda nos acompanham", conforme escreve.

Para melhorar, uma reserva

Quem poderia dizer que ele está errado? Principalmente se tudo vem dando certo nos últimos anos? "A estratégia dele parece ser perfeita, mas não é para qualquer um", observa o consultor de investimentos Raul Ribas, da Diversinvest. "Ele fez a opção de trabalhar com recursos de terceiros, emprestados. No mundo empresarial isso é chamado de alavancagem", explica Ribas. "Se ele tem uma renda capaz de sustentar os gastos que esses financiamentos geram, vai funcionar muito bem."

Se há alguma coisa que poderia ser melhorada na estratégia de Luciano, é a formação de uma reserva de emergência. Ribas sugere que ele destine ao menos parte dos recursos que hoje vão para a previdência para uma aplicação de maior liquidez, que ele possa sacar caso passe por um período ruim. "No caso dele, como há várias prestações a serem pagas, uma perda de renda poderia ter consequências graves", diz Ribas.

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