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Sabe quando um assunto puxa o outro? Você está conversando com alguém sobre determinado tema e, a certa altura, aparece uma observação que faz com que o tema do debate mude totalmente? De vez em quando, aqui na coluna, acontece a mesma coisa. Na semana passada, recebi diversos e-mails comentando o que havia escrito, mas um deles me chamou mais a atenção. Foi o da Juliana, que disse mais ou menos o seguinte: "Adorei seu ponto de vista quanto ao fato de uma criança não ser um ‘gasto’, e sim um projeto de vida, o qual eu considero um "investimento para o futuro". Creio que muitas pessoas se esquecem que um dia vão envelhecer, e precisarão de seus filhos para cuidar delas. É como diz a minha avó: primeiro você cria os filhos e depois eles recriam você".

É, Juliana, essa ideia é mesmo comum. Mas queria convidá-la – e aos outros leitores também, é claro – a refletir um pouco sobre isso.

Para começar, queria chamar atenção para um dado que consta na pesquisa "O futuro da aposentadoria", feita pelo grupo HSBC em vários países. Segundo o levantamento, 80% das pessoas pesquisadas mundo afora dizem que é dever dos adultos ajudar no sustento de seus pais e sogros idosos, em caso de necessidade. Os brasileiros estão ainda acima dessa média: 92% defendem a participação das gerações mais jovens no sustento dos idosos. Podemos concluir, portanto, que essa é uma preocupação universal. E é algo antigo: quando não havia planos de aposentadoria, a sobrevivência dos mais velhos dependia de sua prole. Até meados do século passado, os filhos eram o plano de previdência dos pais.

A prática, entretanto, é outra. Segundo o mesmo relatório, 25% dos idosos brasileiros haviam dado apoio financeiro a parentes ou amigos recentemente. A sondagem mostrava ainda que 10% haviam recebido apoio financeiro. É isso mesmo: em vez de receber ajuda dos filhos e netos, nossos vovôs e vovós estão emprestando dinheiro a eles. E há mais estatísticas a comprovar isso. Segundo o IBGE, por exemplo, a renda média das famílias que incluem pessoas idosas é 16% superior à média nacional. Graças, principalmente, às aposentadorias.

Essa é uma realidade complexa. Por um lado, é natural que os mais velhos se disponham sempre a ajudar os jovens – afinal, não tem sido assim ao longo de toda a sua vida? Por outro, eles estão numa fase muito mais vulnerável, e seria mesmo mais justo se pudessem contar com apoio e conforto por parte de seus descendentes. Mais: há sempre a possibilidade de questões ligadas à administração dos recursos de país e avós despertar conflito na família. Anos atrás, conheci um rapaz que, para fazer um empréstimo à própria avó, fez contrato, reconheceu firma e registrou em cartório. Não porque tivesse qualquer problema com ela, mas porque temia que ela entregasse dinheiro a um tio dele – que, pelo seu ponto de vista, vinha explorando a velhinha havia tempos.

Ninguém quer chegar a esse ponto, certo? Por isso mesmo, a melhor estratégia é que cada geração tenha seus próprios meios de subsistência, por meio de aposentadoria, pensões, previdência complementar ou outra forma de renda – investimentos financeiros, ações, imóveis, a lista é grande. Se cada um tiver sua reservinha, emergências financeiras serão esporádicas, e aí receber ajuda será uma forma de carinho, não uma questão de dependência.

Por falar em dependência...

Por falar em dependência, 94% dos brasileiros com mais de 40 anos acreditam estar despreparados para enfrentar a aposentadoria, e temem depender de outras pessoas de acordo com a pesquisa do HSBC. O número é assustador.

Planejamento

A questão, então, não diz respeito aos filhos e ao seu papel no sustento dos pais. A questão é de planejamento. Se o brasileiro tiver informação suficiente para poder planejar seu financeiro a longo prazo, vamos poupar muita dor de cabeça nos próximos anos.

Isso inclui também a necessidade de adaptar a previdência social à realidade brasileira do século 21. Mas aí a bola passa para os políticos...

Desabafo

Escrevo algumas horas depois de participar do plantão especial que o jornal fez para a eleição. Já participei de alguns desses, mas confesso que desta vez saí um pouco chateado. Não com o resultado da eleição, mas com a campanha toda. Foi a pior que tivemos em muitos anos – muita briga, pouco conteúdo e quase nenhuma proposta séria para problemas reais do país.

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