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Talento em pauta

Absorver trabalho alheio pode fazer mal à saúde de sua carreira

Carlos era um jovem com grande potencial para assumir desafios. Seus chefes sempre o admiraram pela capacidade de abraçar projetos e levá-los com maestria sem necessitar envolver muitas pessoas. Os profissionais que trabalhavam com o rapaz costumeiramente chamavam-lhe para rodas de geração de ideias, pois sabiam que daquela mente saíam as opiniões mais estapafúrdias, porém eficazes, que alguém pudesse imaginar. Uns, inclusive, terceirizavam suas atividades para o moço, pois, além de ele aceitar a execução de tarefas que não eram suas, fazia tudo com destreza e impecavelmente.

Porém, certa vez Carlos recebeu um grande projeto para gerir. Tratava-se da criação, desenvolvimento e adequação do novo sistema que a empresa passaria a utilizar em seis meses (tempo que deram como prazo para o jovem). Carlos se viu com uma grande chance nas mãos. Entregar o sistema dentro do prazo e das expectativas de seus superiores seria a chance para alcançar um novo degrau dentro da empresa.

Como era de costume do rapaz, montou uma estratégia para desempenhar o projeto. Desenhou um plano de ação, definiu datas limites para cada etapa da concepção e criou uma rotina que suportasse tudo o que havia se proposto a executar. Já na primeira semana, entretanto, surgiu o primeiro obstáculo. Seus chefes gostavam de lhe provocar com pedidos desafiadores, pois conheciam a competência do jovem. Como sempre, Carlos acolhia tudo, dizendo ser possível entregar aquilo e muito mais. Incrivelmente, o rapaz realmente entregava tudo que lhe era sugerido e continuava dando vazão ao desenvolvimento do sistema.

Os feitos do jovem impressionavam a cúpula da empresa e todos acreditavam que tinham um talento nas mãos. Mas, não bastassem os pedidos oriundos da chefia, volta e meia surgiam, também, pedidos de seus pares e, até, colaboradores de outras áreas da organização que conheciam essa prontidão em ajudar do rapaz. Carlos não dizia "não" para ninguém. Fossem as mínimas tarefas ou atividades mais complexas, acatava com satisfação tudo que lhe era solicitado. Assim foi pelos primeiros quatro meses do projeto.

Até que, ao fazer um relatório sobre o andamento do sistema, descobriu que estava com um grande atraso em suas entregas. Assustado, observou que há alguns meses vinha gastando mais tempo com atividades que não condiziam com o escopo de seu trabalho, do que com as próprias atribuições. Como ação de correção emergencial, estipulou como medida a negação a qualquer pedido que lhe fosse feito por demais colaboradores da empresa, até que concluísse aquele projeto. Só assumiria as solicitações que viessem de seus superiores e após medição da real necessidade e prioridade de cada pedido.

Tais precauções pareciam estancar o problema. Todavia, quando vinham lhe pedir favores informais, o rapaz não conseguia recusar. Foi então que percebeu qual era o problema que regia seu caminho rumo ao fracasso. Quanto mais tentava evitar a absorção do que não era de sua competência, mais acumulavam tarefas aparentemente ínfimas, mas que ocupavam, de certa forma, grande parte de seu tempo.

Antes de completar o quinto mês de seu prazo, percebeu que havia se atolado em uma bola de neve. Até então não havia explanado a seus superiores o atraso do projeto, pois ainda acreditava ser possível entregá-lo antes do tempo. Além disso, aglomeravam-se em sua agenda tarefas e mais tarefas provenientes de pedidos de pessoas que preferiam terceirizar suas atividades. Um misto de admiração pelo trabalho do jovem com certa dose de preguiça em executar seus próprios trabalhos. E o pobre moço, que não conseguia recusar tais pedidos, sem perceber deixava de lado a execução do trabalho que poderia ser o trampolim para um andar acima do seu no organograma da companhia.

Faltava apenas uma semana quando, desesperado, resolveu chamar seus superiores para colocar as cartas na mesa. Explicou sobre a dificuldade em executar tarefas que não eram de sua alçada e reclamou de ser considerado um suporte para assuntos aleatórios. Contou aos chefes sobre os pedidos que chegavam até ele e mostrou insatisfação em desempenhar certas funções. Após todas as reclamações, seu superior direto pediu que ponderasse sobre a forma em que ele acatava tais pedidos. É muito comum que alguns profissionais, por desinformação, transfiram afazeres para pessoas que nada têm a ver com aquilo. Porém, cabe a nós mesmos definirmos o que podemos fazer e o que não devemos assumir.

Ao fazer favores, porém, é preciso ficar claro a quem pede que aquilo não é sua prioridade. Você pode até fazer, mas apenas quando estiver disponível. Não acredito que devemos negar pedidos, mas creio que nenhuma solicitação deve ser acatada sem antes estudar se aquilo interferirá diretamente no seu trabalho, ou não. Saber dizer "não" é uma arte. Porém, dizer sim com prudência é ainda melhor.

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