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Mundo virtual

Como o Google Fotos se transformou no detentor de nossas memórias

O Google Fotos sugere o nascimento de uma nova era do historiador robótico personalizado. Os trilhões de imagens que geramos se tornarão a matéria-prima para os algoritmos que vão construir narrativas sobre as nossas experiências humanas mais íntimas

  • Farhad Manjoo
  • New York Times
 | DOUG CHAYKA/NYT
DOUG CHAYKA/NYT
 
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A primeira vez que o Google Fotos me fez chorar foi como levar um tapa na cara. Em certa manhã de abril, eu olhava meu celular à espera de mais notícias sobre as mazelas globais, mas o que recebi foi um alerta do Google Fotos. Ele me avisava que os robôs processadores de imagens tinham criado uma montagem com meus vídeos. Como já tinha visto esses clipes produzidos por Inteligência Artificial antes – as montagens de ano novo do Facebook são uma praga –, eu não esperava muito. Depois de apertar play, em trinta segundos eu estava encolhido e chorava copiosamente. 

 A montagem era da minha filha de cinco anos, Samara. Por ter um pai obcecado pela câmera do celular, ela tinha quase todos os seus momentos registrados e eternizados. Minha obsessão criou um pesadelo em matéria de arquivo pessoal: vídeos e fotos de Samara e seu irmão mais velho, Khalil, ambos nascidos na era dos smartphones, agora acumulam vários terabytes de espaço – mais imagens do que qualquer ser humano teria capacidade de apreciar verdadeiramente. Alguém poderia perguntar: mas qual é o objetivo de registrar todos esses momentos? 

 Com essa montagem de dois minutos, o Google Fotos me permitiu vislumbrar uma resposta possível. 

 Os computadores do Google conseguem reconhecer rostos mesmo quando estes envelhecem. O Google Fotos também parece entender o tom e o valor emocional da interação humana: sorrisos, birras, danças de alegria e até mesmo trechos de diálogo como "feliz aniversário!" ou "bom trabalho!". A montagem, sincronizada com uma classe hollywoodiana, mistura destaques óbvios – aniversários, peças escolares – com dezenas de momentos banais de felicidade, próprios da infância. 

 É isso que quero dizer com o tal tapa na cara: quem espera que um software faça você chorar? As imagens no Instagram e no Snapchat podem mexer com você regularmente, mas o Google Fotos não é uma mídia social; é uma mídia pessoal, um serviço iniciado há três anos, principalmente como um banco de dados para abrigar nossas coleções crescentes de momentos íntimos – um serviço executado principalmente por máquinas. 

 Apelo emocional

Ainda assim, o Google Fotos se tornou um dos programas com maior apelo emocional que uso com regularidade. É notável não apenas por sua utilidade, já que acabou com qualquer dor de cabeça em relação ao armazenamento e à busca no tsunami de imagens que produzimos. Mais do que isso, o Fotos é notável pelo prognóstico que carrega da compreensão que teremos de nós mesmos mediante a fotografia. 

 Com seu foco quase total sobre a curadoria feita pela inteligência artificial, o Google Fotos sugere o nascimento de uma nova era do historiador robótico personalizado. Os trilhões de imagens que geramos se tornarão a matéria-prima para os algoritmos que vão curar as memórias e construir narrativas sobre as nossas experiências humanas mais íntimas. No futuro, os robôs saberão tudo sobre nós – e eles vão nos contar nossas próprias histórias. 

 Mas não nos adiantemos. Antes de nos apavorarmos com a ficção científica do amanhã, vale a pena admirar a utilidade básica do Google Fotos. As empresas de tecnologia têm tentado criar maneiras de gerenciar fotos digitais desde que começamos a abandonar a máquina de filme. A maioria dos esforços falhou; quanto melhores nossas câmeras, mais fotos tiramos, e, quanto mais fotos tiramos, menor a chance de darmos sentido a todo esse acúmulo de dados. 

 "Após a invenção do smartphone, tudo que o ser humano fez, tudo mesmo, já foi fotografado. Mas isso criou seus próprios problemas – começou a se tornar esmagador", disse Martin Hand, sociólogo na Queen's University, em Kingston, Ontário, e autor de "Ubiquitous Photography", uma investigação acadêmica sobre o problema da profusão de imagens. 

 Mais de uma década atrás, o mundo da tecnologia encontrou uma solução parcial para a quantidade de imagens: tornar as imagens sociais. Com o auxílio de serviços como o Flickr e, em seguida, o Facebook e Instagram, tentamos fazer uma curadoria das nossas imagens por meio dos outros. Suas melhores fotos foram as mais bem classificadas no feed de sua rede social; as piores foram aquelas que você decidiu nem postar. 

 Mas as mídias sociais criaram outro conjunto de problemas – o medo de perder o momento, um sentimento de ansiedade performática, solidão e erosão da privacidade. "Havia um sentido de que, como tudo era público, os jovens tinham constantemente de fazer uma curadoria da ideia de si mesmos para o público", disse Hand. 

 O Google também tentou fazer o jogo da foto social

 A mais antiga encarnação do Google Fotos fazia parte do Google Plus, a rede social malfadada da empresa. Alguns anos atrás, depois de perceber que as redes sociais não eram seu forte, o Google voltou a outros projetos com o Fotos. 

 Seu serviço reinventado faria três coisas: ofereceria armazenamento quase ilimitado para suas fotos (você poderia pagar mais para ter suas imagens armazenadas em tamanhos de alta resolução); serviço de nuvem para tal armazenamento, para que fosse possível o acesso de qualquer lugar; e, por fim, o mais fundamental: o Fotos iria se utilizar da famosa Inteligência Artificial do Google para abordar aquilo que era tido como o problema-chave da era smartphone: o fato de que nós todos tirarmos fotos, mas raramente as vemos. 

 "Percebemos que o usuário nunca iria reviver ou relembrar qualquer momento desses. Você tiraria centenas de fotos boas de todas as suas férias maravilhosas, mas, à medida que os anos se passassem, você provavelmente nunca olharia nenhuma delas", disse Anil Sabharwal, vice-presidente do Google que liderou a equipe responsável pelo desenvolvimento do Fotos e que hoje ainda coordena o projeto. 

 Quando começou em 2015, o Google Fotos trouxe alívio imediato. Por exemplo, o reconhecimento facial fez com que o compartilhamento de imagens se tornasse automático. Agora, quando tiro alguma foto dos meus filhos, o Google os reconhece e logo compartilha com a minha esposa – as fotos dela são compartilhadas comigo também. Incrivelmente, instantaneamente, sem pensar, agora cada um tem a coleção completa das fotos das crianças. Toda a ansiedade gerada pelo medo de perder essas imagens desapareceu. 

 E há ainda as indicações diárias do Google para rememorarmos alguns momentos. Quando o assunto é a qualidade do trabalho das máquinas de mineração da sua coleção do Google, não há como exagerar, elas sabem encontrar algo arrebatador para você. Em uma seção chamada "Antes e Depois", o software encontrará imagens da mesma pessoa, ou grupo de pessoas, em poses similares em dois períodos distintos: seus filhos no primeiro dia de escola este ano em comparação ao ano passado, ou você em frente ao Empire State Building há 10 anos e hoje. 

 No mês passado, o Google lançou um novo dispositivo doméstico, o Home Hub, um gadget ativado por voz cuja tela contém uma apresentação interminável desse tipo de memórias nostálgicas. É mágico. Eu tive o Home Hub no escritório por mais de uma semana e ele alterou profundamente a maneira como me relaciono com as fotos. Elas se tornaram vivas. 

 E mesmo que eu não consiga mais abandonar o Fotos, ele me deixa um pouco aterrorizado com o que promete para o futuro. Há uma série de pesquisas em ciências sociais que mostra como nossas memórias são profundamente alteradas por imagens. Um estudo demonstrou que tirar fotos incessantemente reduz nossa capacidade de recordar momentos do mundo que nos rodeia. As fotos também moldam nosso senso de identidade, chegando mesmo ao ponto de criar novas memórias – uma foto falsa pode chegar a convencê-lo de que algo aconteceu com você, mesmo que jamais tenha acontecido. 

 Moldando as narrativas

Tendo tudo isso em vista, preocupo-me com a maneira como a inteligência artificial, responsável pela curadoria das memórias, está moldando as narrativas que fazemos sobre nós mesmos. Penso na minha filha Samara e nas crianças como ela: como reagirão ao assistir a um vídeo que o Google produziu sobre elas. E poderão chegar a certas conclusões sobre sua infância por conta da curadoria das máquinas de uma empresa – que tem o lucro como finalidade e que é financiada por publicidade. 

 No momento, não há problemas: os vídeos do Google Fotos são leves e bonitos. Mas, se a História é exatamente sobre quem decide qual história contar, o Fotos nos lança em um novo terreno. 

 As máquinas estão entendendo cada vez melhor nosso mundo humano – é inevitável que elas moldem nossa realidade da maneira mais profunda possível, assim como aconteceu com as câmeras. 

 

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