Dividido, o Comitê de Política Monetária (Copom), colegiado formado pelos diretores e pelo presidente do Banco Central, optou por elevar a taxa de juros em 0,75 ponto percentual nesta quarta-feira (10), para 13,75% ao ano. Até o momento, a taxa Selic estava em 13% ao ano. Esse é o quarto aumento consecutivo nos juros, que começaram a subir em abril deste ano.
Com isso, o BC manteve acelerado o ritmo de elevação dos juros, uma vez que uma subida desta intensidade já havia sido adotada na última reunião do colegiado, em julho. Elevações de 0,75 ponto percentual na taxa Selic não eram registradas desde o início do governo Lula, em fevereiro de 2003.
A decisão do Copom veio novamente em linha com a expectativa do mercado financeiro, que já projetava, em sua grande maioria, um novo aumento de 0,75 ponto percentual desde o início de agosto. Com a decisão do BC, os juros reais brasileiros, ou seja, após o desconto da inflação, continuam sendo os maiores do mundo - segundo informações da consultoria UpTrend.
Ao final do encontro do Copom, o BC divulgou a seguinte frase: "Avaliando o cenário macroeconômico, o Copom decidiu elevar a taxa Selic para 13,75% ao ano, sem viés, por cinco votos a favor e três pela elevação da taxa Selic em 0,50 ponto percentual, com vistas a promover tempestivamente a convergência da inflação para a trajetória das metas".
De olho na inflação
A preocupação do Banco Central, ao subir os juros, é com o crescimento da inflação que, neste ano, voltou a acender a luz amarela com o aumento dos preços dos alimentos e de outros produtos básicos, como petróleo e aço. Nos últimos meses, porém, a inflação deu sinais de enfraquecimento - justamente por conta da queda dos preços dos produtos básicos.
Em julho, o IPCA, índice oficial de inflação utilizado pelo governo, somou 0,53%, abaixo do aumento de 0,74% em junho deste ano. Em agosto, houve uma forte redução: para 0,28%. Nos oito primeiros meses do ano, porém, o índice avançou 4,48%. Com isso, somente até agosto, o IPCA ficou bem próximo à meta central de 4,5% para a inflação em 2008.
No sistema de metas de inflação, que vigora no país, há um intervalo de tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. Com isso, o IPCA pode ficar entre 2,5% e 6,5% neste ano, e também em 2009, sem que a meta seja formalmente descumprida.
Para 2008, a estimativa do mercado é de que o IPCA some 6,27%. Para 2009, a projeção é de 5% - acima da meta central de 4,5%. O BC já avisou que quer trazer a inflação para o centro da meta já no próximo ano. Por isso, sobe os juros. O mercado estima que a taxa Selic avance para 14,75% ao ano no fim de 2008, ou seja, espera mais duas elevações de 0,5 ponto percentual até o final do ano.
Fatores que influenciam a decisão
Ao deliberar sobre o nível da taxa de juros, o Copom tenta antever os fatores que podem contribuir para elevar, ou baixar, a inflação brasileira e, deste modo, calibrar os juros para atingir as metas de inflação pré-determinadas. Entre os fatores avaliados estão: o nível de atividade, do emprego, da renda, da expansão do crédito, da taxa de câmbio e a situação do cenário externo.
A reunião do Copom deste mês acontece em meio à queda da inflação, por conta da redução dos preços das "commodities" (produtos básicos com cotação internacional, como alimentos, petróleo e aço, entre outros) mas ao mesmo tempo em que se registra um forte crescimento econômico e uma subida do dólar.
Se por um lado a queda das "commodities", e subsequentemente da inflação, favorecem uma postura menos agressiva do BC na definição dos juros, por outro a elevação recente do dólar, e o forte crescimento econômico, sugerem que a situação não está tão tranquila assim.
Cabo de guerra
A reunião do Copom, como é de costume, sempre gera algum tipo de debate sobre o ritmo, ou necessidade de aumento dos juros, dentro e fora do governo. Neste mês não é diferente. O BC tem avaliado que há um descompasso entre a oferta por produtos e serviços e a demanda (procura) pelos mesmos no Brasil.
Como a demanda estaria crescendo acima da oferta, a instituição teme que isso resulte em reajustes de preços e atua para desacelerar a procura por produtos e serviços. Ao mesmo tempo, quer impedir o repasse dos preços do atacado, que subiram muito no primeiro semestre de 2008, para o varejo. Argumenta ainda que, mesmo com a queda do preço das "commodities" nos últimos meses, ainda há outros setores propensos a reajustes de preços, como os Serviços.
Já o ministro da Fazenda, Guido Mantega, defensor de aumentos menores nos juros, receoso sobre o impacto da medida no crescimento da economia brasileira, avaliou nesta semana que a demanda estaria crescendo junto com a oferta por produtos e serviços e que, por isso, não haveria pressões inflacionárias decorrentes deste fator.
Mantega, assim como outros economistas considerados "desenvolvimentistas", dizem que a subida dos preços registrada nos primeiros meses do ano se deve às "commodities". Com a queda destes preços nos últimos meses, argumentam, a inflação tende a recuar também - como já está ocorrendo. Segundo disse o ministro nesta semana, a subida do dólar e seus efeitos inflacionários, por sua vez, seria "neutralizada" pela queda das "commodities".
O economista e ex-ministro da Fazenda, Delfim Neto, afirmou recentemente que há um "cabo de guerra" entre a Fazenda e o BC sobre o ritmo de subida dos juros. Por conta justamente das pressões da Fazenda, Delfim julgou que os juros subiriram 0,75 ponto percentual, para 13,75% ao ano, nesta quarta-feira, e não 0,50 ponto percentual. Segundo ele, justamente para o BC "reafirmar sua independência" no que concerne a política de juros.



