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Chips na indústria automotiva
Linha de montagem em fábrica da Volkswagen, na Alemanha: oferta já não acompanha a demanda por chips na indústria automotiva.| Foto: Ronny HartmannAFP

A pandemia do coronavírus trouxe inúmeros impactos para a indústria mundial. O primeiro deles foi a necessidade do fechamento não programado de fábricas, como medida de contenção da Covid-19, ainda no início de 2020. Agora, com o desenvolvimento e aplicação de vacinas, entretanto, a normalização das atividades de alguns segmentos está ameaçada por outro reflexo daquele movimento: o desequilíbrio na demanda por semicondutores.

Gigantes mundiais já deram o alerta para a escassez desse tipo de componente, do qual depende a produção de uma extensa gama de produtos. O primeiro segmento a sentir o baque foram as montadoras. Companhias como Volkswagen, GM, Honda e Ford se viram forçadas a reduzir ou até suspender a produção, mas os estragos não devem ficar restritos ao setor. O posicionamento mais recente veio da Samsung, maior fabricante mundial de chips. No alerta, a multinacional sul-coreana fala em um "sério desequilíbrio" na indústria de semicondutores, que pode se espalhar para outras partes da cadeia de suprimentos tecnológicos.

Oferta limitada X demanda em alta

A justificativa para a falta de chips (feitos em sua maioria na Ásia) é que, no começo da pandemia, montadoras de automóveis suspenderam suas encomendas do item justamente por causa da pausa nas linhas de produção. Em paralelo, o maior número de trabalhadores em home office, pessoas em isolamento e crianças fora da escola por todo o mundo impulsionou a venda de eletroeletrônicos como laptops, smartphones e videogames. Com isso, a produção e os estoques de semicondutores foram redirecionados.

Quando a situação da pandemia se amenizou, permitindo a retomada de atividades suspensas em ritmo superior ao esperado, as fábricas de chips não deram conta dos pedidos pelo componente. “Houve um deslocamento de aplicação e de demanda bastante significativo”, confirma Flávio Sakai, diretor da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA). A falta desse tipo de item é problema em especial para a indústria automobilística porque ela fica atualmente com 13% da produção global de semicondutores.

Em meio ao choque entre oferta e demanda vieram oscilações de preços, com reajustes que variaram entre reajustes de 5% até 250% segundo Ricardo Helmlinger, diretor da Standard America, fabricante de placas eletrônicas em Campinas (SP). Já as entregas devem permanecer impactadas ainda por alguns meses até que os fabricantes reorganizam a produção, resultando em atrasos que podem impactar linhas de produção e frear a recuperação da economia após os efeitos da pandemia.

A falta que o chip faz

Responsáveis pela paralisação da produção de montadoras no mundo todo, inclusive no Brasil, os semicondutores passaram a estar cada vez mais presentes nos automóveis. Em dez anos, a eletrônica embarcada, que tem os chips como base, representará metade do custo dos carros novos. Hoje a participação já está em 40%, segundo estudo internacional da consultoria Deloitte.

O valor é praticamente o dobro do que era há duas décadas e essa presença forte e crescente vem do aumento de novas tecnologias embutidas nos carros: freio ABS, airbags, sistema de injeção eletrônica, eletrificação, direção autônoma. Sem os componentes necessários para a fabricação, a produção deve seguir represada.

Na esteira de mais inovações, a demanda por componentes eletrônicos (que não funcionam sem semicondutores) deve crescer muito nesta década por causa da expectativa por mais veículos rodando com energia elétrica e diferentes níveis de autonomia. “Na virada dos anos 1990 para os 2000 a eletrônica era 15% a 20% do custo dos carros; hoje passa de 40% e provavelmente em 2030 vai chegar a 45% ou 50%”, diz Sakai.

Em outro comparativo, ele revela que no fim dos anos 1980 cada carro tinha entre 10 e 15 semicondutores. Hoje, por exemplo, um modelo SUV de médio porte tem cerca de 300 desses componentes.

Um Brasil sem chips

Os preços de peças para chips variam de acordo com a aplicação. Segundo Helmlinger, na Standard America, fabricante brasileira de placas eletrônicas, elas podem custar US$ 10 para cada mil peças ou US$ 50 a unidade. “Posso importar os mais caros, mas se faltar um capacitor que custa US$ 1 não monto a placa”, resume.

No Brasil, onde não há produção de chip, a indústria depende da importação e está disputando compras com o mundo todo. Há empresas que adquirem componentes lá fora e fazem a montagem, mas essas também estão com problemas em encontrar peças. Há empresários que acreditam na normalização do mercado no segundo semestre, mas muitos apostam que o fornecimento regular só ocorrerá em 2022.

Assim como ocorreu no início da pandemia, quando o Brasil se deu conta da necessidade de produção local de respiradores, a falta de chip despertou discussões no país sobre a nacionalização do produto. Apesar do impulso, o processo é difícil em razão da escala e dos preços dos asiáticos, que podem atropelar a competitividade.

Com informações do Estadão Conteúdo.

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