
A dificuldade de países europeus em lidar com a crescente dívida pública continuou a mexer ontem com os mercados financeiros ao redor do mundo. As bolsas europeias amargaram novas perdas com o medo de que os governos de Grécia, Portugal e Espanha não conseguirão reduzir a dívida sem atrapalhar o crescimento do resto da União Europeia. A bolsa de Paris recuou 3,4%, a de Londres, 1,5% e a de Frankfurt, 1,8%. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) acompanhou a tendência e fechou em baixa de 1,83%, no menor nível em três meses. Um dos principais índices da Ásia, o Kospi, da Coreia do Sul, caiu 3%. O resultado da semana mostra que houve uma mudança sensível no comportamento dos investidores. Diversas bolsas acumularam baixas acima de 4% entre elas a de São Paulo, Buenos Aires, Milão, Paris, Lisboa e Madri. Fundos de investimentos bastante expostos a papéis de países emergentes passaram a desmontar suas posições porque têm percebido que a recuperação econômica pode não ser tão rápida quanto imaginavam. Na Europa, há um risco grande de a recessão ser mais longa por causa dos ajustes fiscais que os países menores do bloco serão obrigados a efetuar. Na Grécia, por exemplo, o desafio é reduzir o déficit de 12% do PIB para 3% em dois anos.
Nas últimas semanas, as oscilações nos mercados já vinham sendo mais intensas do que nos últimos meses de 2009 porque há a impressão de que a recuperação da economia dos Estados Unidos, hoje dependente de pacotes de estímulo fiscal e da política de juros zero do Fed (banco central dos EUA), perderá força no momento em que houver uma redução no apoio estatal. Nesta semana, porém, as más notícias se concentraram na Europa, o que deixou em segundo plano o fato de o relatório de desemprego nos EUA ter trazido alguns números positivos a taxa caiu para 9,7% em janeiro, o que ajudou a Bolsa de Nova Iorque a fechar em alta de 0,1% ontem.
Análise
"Muitas ações caíram muito nos últimos dias e chegaram a um bom ponto de compra. Na quinta-feira, houve um pouco de pânico. Nós vimos muitos investidores assustados com os acontecimentos na Europa, muitos estrangeiros venderam ações. Mas é justamente nesses momentos de pânico que surgem oportunidades", comentou Paulo Hegg, operador da Um Investimentos.
Em relatório divulgado ontem, o economista chefe da consultoria Lopes Filho, Júlio Hegedus Netto, observa que há uma situação extremamente delicada nas contas públicas de países europeu, o que pode refletir dificuldade de rolagem das suas dívidas. "Com isso, o risco de calote ganha força e, em contrapartida, a exigência de um ajuste fiscal rigoroso, com corte de despesas. O problema, no entanto, é que estes países continuam mergulhados na crise, o que pode ser sentido pela alta taxa de desemprego, havendo por isso a necessidade de mais medidas de estímulo fiscal ou monetário", afirmou.
Governo
Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a turbulência dos mercados não deve afetar significativamente o Brasil, porque "as commodities devem continuar em alta, mesmo passando por turbulências localizadas". "Acho que a questão é passageira. Não irá afetar o quadro mundial de aumento das commodities", afirmou.
Na opinião do secretário de Política Econômica da Fazenda, Nelson Barbosa, o nervosismo dos mercados pode levar a um ajuste mais forte no câmbio, mas ele não vê isso como um problema ontem o dólar comercial foi vendido por R$ 1,891, em alta de 0,37%. Trata-se do maior preço desde 1º de setembro de 2009. "Até agora, o impacto mais forte foi no câmbio. Ele pode deixar de contribuir para reduzir a inflação, mas gera um ganho fiscal com a redução da dívida pública", avalia. Para ter impacto sobre a inflação, a desvalorização do câmbio teria de ser persistente, e não temporária, avalia.







