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Empresas mais poderosas que países: Dinamarca tem embaixador para lidar com Google, Apple e Facebook

  • PorAdam Satariano
  • Copenhague
  • The New York Times
  • 21/09/2019 13:00
Foto: Laerke Posselt/The New York Times
Foto: Laerke Posselt/The New York Times| Foto:

Casper Klynge, diplomata de carreira da Dinamarca, trabalhou em alguns dos lugares mais turbulentos do mundo. Certa vez, ele passou um ano e meio participando das iniciativas de reconstrução do Afeganistão. Durante dois anos, liderou uma missão de gerenciamento de crises no Kosovo. Ainda assim, Klynge conta que sua missão internacional mais difícil talvez seja a atual: ele é o primeiro embaixador estrangeiro do mundo no setor de tecnologia.

Em 2017, a Dinamarca se tornou o primeiro país a criar formalmente um posto diplomático para representar seus interesses junto a empresas como Facebook e Google. Quando a Dinamarca concluiu que, atualmente, os gigantes da tecnologia têm tanto poder quanto muitos governos – se não mais –, Klynge foi enviado para o Vale do Silício.

"O que tem maior impacto no dia a dia da sociedade? Um país no sul da Europa, no Sudeste Asiático, na América do Sul ou uma das grandes plataformas de tecnologia?", questionou o embaixador no mês passado, em um café no centro de Copenhague, durante o encontro anual dos diplomatas da Dinamarca. "Nossos valores, instituições, democracia e direitos humanos estão sendo colocados em xeque o tempo todo, graças ao surgimento de novas tecnologias. Essas empresas deixaram de ter apenas interesses comerciais e passaram a agir como verdadeiros atores da política externa", explicou.

Mas, depois de dois anos no cargo, Klynge não se ilude quanto à importância das preocupações da Dinamarca diante dos executivos do Vale do Silício. Com 5,8 milhões de pessoas, a população da Dinamarca é menor que a da área da Baía de San Francisco. Menos de 0,3 por cento dos 2,4 bilhões de usuários globais do Facebook vivem no país escandinavo.

As empresas do Vale do Silício e seus líderes, por sua vez, nem sempre receberam Klynge muito bem. Ele nunca se reuniu com Mark Zuckerberg, do Facebook, nem com Sundar Pichai, do Google, ou Timothy D. Cook, da Apple. Autoridades dinamarquesas afirmam que é como lidar com um novo superpoder global sem qualquer transparência.

A Dinamarca é um exemplo perfeito dos muitos países pequenos que enfrentam dificuldades para lidar com os efeitos da tecnologia em sua sociedade, e que se sentem frustrados com a incapacidade de encontrar, e muito menos influenciar, as empresas que estão causando essas mudanças.

As autoridades dinamarquesas estão especialmente preocupadas com os desafios gerados pelas mudanças tecnológicas em outras democracias ocidentais: a divulgação de conteúdo falso ou politicamente conflituoso nas redes sociais, questões sobre privacidade e serviços que coletam grandes volumes de dados, cibersegurança e a quantidade limitada de impostos pagos por essas empresas fora dos Estados Unidos.

Empresas não estão abertas ao diálogo

Os obstáculos enfrentados por Klynge no Vale do Silício foram enormes. Ele conta que precisou de nove meses para se reunir com um executivo do alto escalão de uma das maiores empresas de tecnologia, cujo nome preferiu não revelar. O diplomata foi ao encontro acreditando que haveria uma conversa franca a respeito do tema acordado de antemão, incluindo impostos, cibersegurança e desinformação na internet, mas a única coisa que fizeram foi oferecer um tour pela sede da empresa.

Algumas companhias de tecnologia afirmaram que estão começando a entender melhor o trabalho de Klynge. Brad Smith, presidente da Microsoft, contou que conversa regularmente com Klynge, cuja escolha para o cargo deu uma "influência desproporcional" à Dinamarca.

"Se você quiser trocar ideias sobre questões envolvendo tecnologia, existem poucas pessoas tão bem informadas como ele", elogiou Smith.

O porta-voz do Facebook, Peter Münster, afirmou que "foram necessárias algumas reuniões para compreendermos o escopo e as intenções embutidas no cargo de Klynge. Agora, estabelecemos um diálogo positivo e construtivo com o embaixador dinamarquês de tecnologia, que é uma pessoa que conversa com franqueza e expressa tanto suas críticas quanto seus feedbacks positivos". Google e Apple preferiram não comentar, enquanto a Amazon não respondeu aos pedidos de comentário.

Pequeno, porém influente

Klynge afirma que a Dinamarca não deve ser ignorada. Como membro da União Europeia, o país pode influenciar a criação de regulamentações sobre privacidade, concorrência, moderação de conteúdo, taxa tributária e desinformação na internet.

A Dinamarca foi criticado por colocar as empresas privadas no mesmo nível dos governos soberanos, mas outros países também têm alocado recursos diplomáticos para o setor de alta tecnologia. A França, por exemplo, criou um embaixador de assuntos digitais, enquanto Austrália, Reino Unido e Alemanha criaram cargos diplomáticos dedicados a questões de tecnologia para ajudar a facilitar o investimento e o comércio. Mas a Dinamarca alega ainda ser o único país com um embaixador de tecnologia em missão internacional.

Priya Guha, ex-consulesa geral do Reino Unido em San Francisco, afirmou que, mesmo que os desafios sociais causados pelas grandes plataformas de tecnologia não parem de aumentar, as relações econômicas continuam a ser a principal prioridade dos diplomatas enviados para manter contato com essas empresas.

"A diplomacia mudou. Não estamos mais no século 20, nem em um mundo onde o que conta são as relações bilaterais com outros países", explicou Guha, que trabalha atualmente para a empresa de capital de risco Merian Ventures. "Os países devem adaptar sua visão da diplomacia para encarar essa realidade. As empresas terão uma enorme influência no mundo, e você pode recuar e esperar para ver o que acontece ou pode lidar diretamente com isso", completou.

"Negócio de longo prazo"

Cerca de 55 pessoas na Dinamarca se candidataram ao trabalho de Klynge quando a vaga foi criada. Agora, ele conta com uma equipe de 11 pessoas, das quais sete estão na Califórnia, três na Dinamarca e uma na China. Seu escritório fica em Palo Alto, na Califórnia, não muito longe da sede de muitas empresas de tecnologia.

Klynge conta que abordou as empresas como se fossem países, estabelecendo relações e redes de contato. Em vez de se dedicar às frustrantes tentativas de se reunir com funcionários do alto escalão, ele passa tempo com funcionários de baixa patente, ex-funcionários, donos de empresas concorrentes de menor porte, grupos de ativistas e autoridades do governo.

Sua equipe envia mensagens de inteligência a líderes do governo dinamarquês sobre o que acontece nessas empresas e sobre temas como segurança cibernética, o uso crescente de dados de saúde e veículos autônomos. As autoridades dinamarquesas, por sua vez, podem se basear nesses dados para legislar.

O embaixador destaca, ainda, que ficou surpreso ao notar que as empresas chinesas eram mais francas ao falar sobre questões políticas do que as norte-americanas, fato notado durante sua viagem a outros centros de tecnologia na China, Índia e países da Europa durante metade do ano.

"A diplomacia é, por natureza, um negócio de longo prazo. Nossos objetivos não são conquistados de um dia para o outro", conclui.

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