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Balcão da tradicional Confeitaria das Famílias, no Centro: preço único dos doces subiu de R$ 4,50 para R$ 5 | Fotos: Ivonaldo Alexandre/ Gazeta do Povo
Balcão da tradicional Confeitaria das Famílias, no Centro: preço único dos doces subiu de R$ 4,50 para R$ 5| Foto: Fotos: Ivonaldo Alexandre/ Gazeta do Povo
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No almoço

Economia passa por hábitos saudáveis e alguma ousadia

Moisés Hirata (à esquerda): prato feito todo dia

Há quem seja como o lojista Moisés Hirata, 56 anos, que prefere não economizar com comida. "Não sou muito partidário", conta. Mas, mesmo sem adotar a ideia, Hirata opta quase todos os dias por almoçar pratos feitos, escolha considerada econômica em boa parte das situações. O comerciante paga R$ 12,90 pelo prato em um box do Mercado Municipal de Curitiba. A média de gastos na cidade, descartadas bebidas alcoólicas, é de R$ 15 (a quilo) a R$ 30 (a la carte) para os almoços, registra a Abrasel-PR. O dono do restaurante onde Hirata almoça, Eliseu Suguimati, disse que aumentará em R$ 1 o preço do prato em outubro, quando ocorre o dissídio dos funcionários. Até então, preferiu variar sutilmente o cardápio a aumentar o preço, raciocínio feito pela maioria dos donos de restaurante na cidade. "Pratos feitos são uma boa. Mas aí é preciso saber aonde ir para não correr o risco de comer de menos", compara Guilherme Caldas, do blog Baixa Gastronomia, da Gazeta. Para ele, a economia diária no restaurante depende dos hábitos alimentares de cada um. "Se a pessoa come muito, o melhor é ir num por pessoa [bufê livre]. Se come pouco, o quilo costuma valer mais a pena", avalia. Caldas acredita que alguns sacrifícios na etiqueta são aceitáveis se a ideia é poupar. Exemplos: no bufê a quilo, vale tirar o osso da carne e catar o que interessa na salada mista. O blogueiro também aconselha a evitar os pesados purês. Mas tudo isso tem de ser feito sem deixar a fila lenta. "Não sou muito de ficar escolhendo, até por uma questão de respeito a quem vem atrás na fila". A professora de gastronomia Patrícia Lisboa afirma que não se deve ter preconceito com bufês livres baratíssimos. "Se um restaurante for bem gerido, não vejo problema em cobrar muito pouco", diz. Ela orienta o cliente a notar detalhes que mostram o profissionalismo do estabelecimento.

Alguns deles: se a cozinha é organizada (vale escolher restaurantes em que ela é visível), se os funcionários não ficam sentados na rua, uniformizados, durante a folga. No mais, Patrícia defende que a refeição externa seja substituída pela caseira pelo menos alguns dias na semana. "Sou super a favor da marmita", conta.

Lanches

Acompanhando a tendência nacional, o preço dos lanches foi reajustado em Curitiba acima do índice geral de inflação nos últimos 12 meses. Foram 13,67% de aumento na capital contra os 12,89% da média brasileira. Não é novidade: a inflação dos lanches é historicamente mais alta que a das refeições, segundo dados do IBGE. A explicação para isso, segundo o presidente da Abrasel-PR, passa pelo tempo empregado na preparação do alimento. "Um restaurante pode cozinhar para 200 de uma vez, diferentemente das lanchonetes", avalia Luciano Bartolomeu. Outro ponto é a dificuldade em pesquisar preços, uma vez que o tempo de lanche é menor para um trabalhador do que o de almoço. Patrícia Lisboa, da PUCPR, aponta ainda o fato de os lanches muitas vezes substituírem um almoço, o que pode levar o consumidor a aceitar pagar mais caro.

O preço para comer fora de casa em Curitiba subiu menos do que média nacional dos últimos 12 meses. A alimentação fora do domicílio acumula até agosto 8,97% de inflação na cidade, abaixo dos 10,24% do índice nacional. Mas, quando esse índice é investigado em detalhes, aparece uma situação em que os curitibanos que costumam comer fora estão sofrendo bem mais no bolso do que a média dos brasileiros. É o caso dos doces (sobremesas e confeitos), que subiram 12% de preço no período. No Brasil, foram apenas 6,64%, pouco acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) geral (6,09%).

Empresários do ramo de confeitarias citam os sucessivos reajustes de matérias-primas como justificativa para os doces terem ficado tão mais caros na capital paranaense. Uma vilã é a farinha de trigo, ingrediente básico de massas de bolos e de tortas. O trigo acumula de setembro a agosto inflação de 22,88% em Curitiba, contra os 30,90% da média brasileira. O ovo também registra inflação alta na cidade: 31,91%, acima da nacional (19,69%). Em contrapartida, o açúcar refinado ficou mais barato. O preço caiu mais em Curitiba do que a média do país (-16,28% contra -14,24%).

Há ainda uma explicação de mercado para as confeitarias de Curitiba terem pesado a mão nos reajustes. Na cidade, o ramo não sente tanto o peso da concorrência quanto os restaurantes, afirma o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-PR), Luciano Bartolomeu. "As confeitarias vendem muito bem. E quem tem procura pode fazer o seu preço", afirma. Estabelecimentos que servem refeições completas – em geral, almoço –, têm hesitado em reajustar o cardápio. A inflação acumulada para refeições é de 6,98% na cidade. No Brasil, o índice é 9,51%. Os números mostram a preferência dos restaurantes por manter os preços para não perder clientela para a concorrência.

Já as docerias de Curitiba puderam aumentar os preços, sugere Bartolomeu, com base em outros dois fatores que lhes garantem a demanda. Um deles é cultural – moradores de cidades frias, como a capital paranaense, costumam ter um fraco maior por guloseimas, o que mantém a procura em alta. O segundo é que os doces estão na lista de alimentos comprados por impulso. "Doce se compra pelos olhos", opina ele.

Também partidária da ideia de que o doce é um supérfluo com apelo, a professora de gastronomia da PUC-PR, Patrícia Lisboa, avalia ainda que as confeitarias vivem um bom momento na cidade. "Existe uma onda de confeitarias gourmet, uma linha de consumo de produtos por afetividade. Você come porque está na moda, porque é bonito, porque te faz feliz. E o que está na moda cobra mais", avalia.

Preocupação mesmo, só na hora de pagar a conta

Na Confeitaria das Famílias, fundada há quase 70 anos em Curitiba, o preço único dos doces passou de R$ 4,50 para R$ 5 neste ano (11,1% a mais). Assim são vendidos pedaços de tortas, bolos e doces unitários, como quindins e madrileños. Uma prova da alta procura é que a confeitaria mantém horário estendido (até as 23 horas), incomum para o comércio curitibano.

As amigas Lucélia Semen­sato, 43 anos, e Ido­méia Sil­va, 60, pediram seus peda­ços de torta na tarde de quar­ta-feira. Nenhuma delas reconheceu saber o preço – preferiram pedir primeiro e acertar a conta depois, sem nem se preocupar com o quanto pagariam. Elas concordam que esse é o comportamento comum de quem opta por comer um doce. "Como é de vez em quando, dá para pagar R$ 5. Mas acho pior os bolos simples vendidos em supermercado, como subiram de preço. Esses dias, vi um por R$ 7", conta Lucélia.

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