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Telão exibe apuração em tempo real da eleição nos EUA: novo ocupante da Casa Branca não deve influenciar com força as relações comerciais com o Brasil.
Telão exibe apuração em tempo real da eleição nos EUA: novo ocupante da Casa Branca não deve influenciar com força as relações comerciais com o Brasil.| Foto: Olivier Douliery/AFP

Caracterizada pela acentuada polarização, a atual eleição presidencial dos EUA deixa o mundo em expectativa para a conclusão das apurações. Para o Brasil, a definição do nome que comandará a Casa Branca nos próximos quatro anos pode significar mais ou menos proximidade no campo ideológico, mas não deve influenciar com força as relações comerciais entre os dois países.

Segundo analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, o pragmatismo característico dos EUA deve manter as pontes já construídas. Entretanto, ajustes de rota podem ser feitos no caso de uma eventual mudança de administração republicana para democrata, com uma vitória de Joe Biden sobre Donald Trump na eleição dos EUA.

Na avaliação do economista-chefe da Nova Futura Investimentos, Pedro Paulo Silveira, a questão mais premente aqui seria a ambiental. "O que eu imagino que venha a ser feito em um governo Biden é a recolocação de exigências ambientais, nos termos que já eram acordados alguns anos atrás. O que para o Brasil, num primeiro momento, pode ser desconfortável, mas o país sempre esteve muito bem nesse cenário: o Brasil sempre teve o agronegócio bem visto no exterior, então eu acredito que é capaz de se reafirmar como grande exportador de carnes, de alimentos, de minério de ferro, de tudo que a gente exporta, mas dentro de uma agenda ambiental mais adequada", avalia o especialista. "Pode ser dolorido para o governo", pondera, ao rememorar o posicionamento ideológico da gestão de Jair Bolsonaro, "mas acho que para o país é positivo".

O economista Fábio Astrauskas, CEO da Siengen, também coloca destaque no meio ambiente. Segundo ele, "o Brasil terá que rever a sua política de proteção da Amazônia para se inserir como um país competitivo no ambiente comercial" se o resultado da eleição nos EUA colocar os democratas na presidência.

Recentemente, em evento da Amcham Brasil, o ex-embaixador dos Estados Unidos para o Brasil Michael McKinley fez avaliação similar, ao afirmar que uma eventual vitória de Biden não anularia acordos firmados com o país. Segundo McKinley, “já existem fundações fortes entre o Brasil e os EUA que não vão desaparecer com uma mudança na Casa Branca”.

Durante o período de campanha, Joe Biden apontou chance de retaliação ao Brasil em relação a questões ambientai, entretanto o diplomata destaca que esse tipo de pressão não se daria apenas por parte do governo norte-americano, mas também de outros integrantes da comunidade internacional e de investidores. "Desde o começo do ano, os fundos de investimento internacionais, que somam um valor de mais de 3 trilhões de dólares, mandaram uma advertência ao Brasil sobre a preservação da Amazônia, e a União Europeia também já sinalizou boicote ao acordo comercial", destacou McKinley.

Como fica o multilateralismo com o resultado da eleição nos EUA

Apesar do foco atual do governo brasileiro em relações bilaterais, o economista-chefe da TCP Partners, Ricardo Jacomassi, avalia que a volta dos democratas ao poder nos Estados Unidos poderia favorecer o Brasil no ambiente global. Nesse sentido, Jacomassi cita a possível inclinação democrata a favorecer um ambiente de cooperação e de busca de acordos comerciais amparados por órgãos multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio.

A expectativa seria por um ambiente que "pressionaria o Brasil a buscar celeridade no acordo entre União Europeia e Mercosul, uma integração maior da América Latina", cita o especialista. Haveria ainda uma perspectiva de relações menos conflituosas com a Ásia, o que também contribuiria com menos tensões para as relações brasileiras, sem a necessidade do alinhamento ideológico percebido nos meses de gestão coincidente entre Bolsonaro e Trump e ampliando as liberdades de tratativas com nosso maior parceiro comercial.

Na contramão, em uma eventual reeleição do republicano Donald Trump, a manutenção das tensões entre norte-americanos e chineses tem tudo para afetar o Brasil, avalia Pedro Paulo Silveira. "Se [Trump] retomar o ativismo nas políticas comerciais, pode afetar o Brasil indiretamente. Digo isso porque tudo que diz respeito à China nos afeta de maneira importante. Então, se por algum motivo ele levar a cabo uma política comercial agressiva em relação à China, que desacelera o crescimento chinês, isso vai nos afetar com certeza", conclui.

Corrente comercial em queda

Desafio brasileiro para esse novo momento será retomar os patamares de exportações e importações junto aos EUA. Nos primeiros meses do ano, entre janeiro e setembro, a corrente comercial entre os dois países registrou um tombo de 25%, e regrediu a níveis comparáveis àqueles da crise de 2009. Para voltar a patamares pré-pandemia, entretanto, o Brasil terá que fazer mais do que se recuperar do coronavírus.

Na avaliação dos especialistas, uma retomada brasileira nesse campo depende muito mais de seu próprio desempenho do que de qualquer gestão que chegue ao poder nos EUA. Para Jacomassi, "perdemos por falta de competitividade do mercado brasileiro. Essa recuperação da nossa pauta exportadora para os EUA vai demorar um pouco, porque precisamos fazer algumas lições de casa para nos tornar competitivos". O economista cita aqui a necessidade de retomada e concretização das reformas tributária e administrativa.

O raciocínio é seguido pelo ex-embaixador dos EUA no Brasil Michael McKinley, que ressaltou que o Brasil precisa fazer sinalizações mais assertivas, independentemente do resultado do pleito norte-americano. Segundo o diplomata, "as reformas são importantes para falar ao mundo que o Brasil está querendo avançar".

Apesar de obstáculos próprios a serem transpostos, Jacomassi avalia que um governo Biden poderia beneficiar segmentos como o automotivo e o agronegócio. "Até porque a política de Trump foi reduzir as importações favorecendo fabricantes regionais dos EUA. Então, acho que haveria uma propensão, uma oportunidade maior para as empresas brasileiras no mercado americano de exportar", acredita. A previsão, entretanto, só valeria a partir do segundo ano de governo, em decorrência da pandemia e a necessidade de geração de empregos e preservação da economia doméstica.

No campo das oportunidades, Astrauskas destaca o acordo recente, ainda que tímido, para facilitar o comércio entre Brasil e EUA, assinado em outubro. "Não leva em consideração o aspecto tarifário, mas pode promover reaquecimento desse comércio entre os dois países". Segundo o economista, são movimentos que nascem e crescem e são pressionados pelo empresariado e serão benéficos para os dois lados, independentemente de quem esteja no governo.

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