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A possível aprovação do fim da escala 6x1 e da redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas deve provocar uma queda significativa na rentabilidade do varejo brasileiro, segundo análise da agência Fitch Ratings divulgada nesta segunda-feira (13). A estimativa aponta para uma redução entre 10% e 15% no Ebitda das empresas, além de compressão de margem de até 200 pontos-base, caso não haja medidas compensatórias.
O alerta surge em um momento delicado para o varejo nacional, que já enfrenta crescimento econômico mais lento, juros elevados e consumo pressionado pelo alto endividamento das famílias. Segundo a agência, fatores externos como tensões internacionais por causa da guerra no Oriente Médio também aumentam os riscos ao elevar custos logísticos e pressionar a inflação.
De acordo com o relatório, o aumento de custos trabalhistas tende a pressionar diretamente o caixa das empresas, especialmente naquelas com menor flexibilidade operacional. Segmentos como farmácias, varejo de moda em shoppings e restaurantes aparecem entre os mais vulneráveis por operarem em três turnos e pouca margem para ajustes de horário.
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O fim da escala 6x1 é uma das principais medidas que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) levará para a campanha à reeleição neste ano. A proposta começará a ser discutida nesta quarta-feira (15) na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados.
Porém, entidades representativas do empresariado vêm emitindo alertas preocupantes sobre os efeitos da redução da jornada, com possibilidade de aumento da inflação e do desemprego.
A Fitch destaca que alternativas como acordos trabalhistas, reorganização de turnos, redução de equipes e ganhos de produtividade podem amenizar os impactos. Sem essas ações, diz, o efeito negativo sobre o lucro deve ser imediato e relevante.
A agência aponta que, caso a proposta avance com implementação gradual, como ocorreu em países como México e Colômbia, o setor varejista teria mais tempo para adaptação e poderia segurar o repasse de parte dos custos ao consumidor. Nesse cenário, o impacto sobre a rentabilidade seria mais moderado, mas ainda presente.
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Alertas preocupantes
A reação do setor produtivo foi imediata e crítica, com entidades empresariais alertando para riscos de aumento de custos, retração econômica e pressão inflacionária. Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a medida pode reduzir o PIB em 0,7%, o equivalente a R$ 76,4 bilhões por ano.
O impacto seria ainda mais severo na indústria, com possível retração de 1,2%, além de reflexos negativos no comércio e nos serviços. O temor central é de que a redução da jornada, sem ajustes proporcionais, resulte em menos empregos e aumento de preços ao consumidor.
O presidente da CNI, Ricardo Alban, criticou duramente o momento da discussão e afirmou a aprovação neste momento “é um erro político por estar ocorrendo em um momento de pressão eleitoral”.
“Não vai ser uma discussão responsável em um momento de pressão eleitoral, populista, eleitoreira, sobre nossos deputados e senadores. Eu acho que é um erro político. Porque só se justifica como uma estratégia política”, completou.
A crítica ganhou força com um manifesto assinado por 463 entidades empresariais, que afirmam que a mudança “significa perda de empregos e inflação”. O documento defende que qualquer alteração na jornada seja feita de forma gradual, com negociação coletiva e base técnica mais aprofundada.
A Confederação Nacional do Comércio (CNC) também reforçou a necessidade de diálogo antes de qualquer avanço, destacando os possíveis impactos sobre empresas e consumidores. O setor teme que a medida amplie custos operacionais e reduza a oferta de vagas, principalmente em áreas com alta rotatividade.












