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O resultado do primeiro turno, com Flávio Bolsonaro à frente de Lula, combinado ao avanço da direita no Congresso, criou um cenário político mais favorável à aprovação de uma agenda econômica liberal defendida pelo candidato do PL.
O programa da candidatura de Flávio promete levar o crescimento sustentado do Brasil de 2% para 4% ao ano entre 2027 e 2030, com o enxugamento do Estado, a repactuação da Reforma Tributária, concessões robustas de infraestrutura e a proteção da responsabilidade fiscal.
A reconfiguração das forças partidárias reduziu a fragmentação da Câmara e ampliou o peso da direita no Congresso. O grande vetor dessa consolidação foi o desempenho do PL: o partido elegeu 121 deputados, a maior bancada da Câmara. Considerando partidos que hoje se alinham à candidatura de Flávio ou à sua agenda econômica, o bloco potencial é maior, embora a composição de uma eventual base governista ainda dependa de negociações.
No Senado, o movimento foi batizado por analistas de "onda à direita". O PL elegeu 19 das 54 vagas em disputa em 2026. Somados os parlamentares alinhados à pauta liberal-conservadora, a base de sustentação potencial chega a 41 das 81 cadeiras (49% do total). O BTG Pactual estima que possa chegar a 43.
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A agenda econômica de Flávio Bolsonaro
O diagnóstico do PL atribui urgência ao controle da expansão dos gastos públicos. O endividamento público subiu de 74,6% para 82,9% do PIB entre agosto de 2022 e agosto de 2026, um patamar que pressiona fortemente os juros.
A resposta de Flávio a esse cenário se baseia em reequilíbrio orçamentário, gestão pública eficiente, redefinição tributária com flexibilização trabalhista e choque de infraestrutura.
Reequilíbrio orçamentário e "Tesouraço" fiscal
O plano de Flávio Bolsonaro prevê a extinção de ao menos dez ministérios, redução expressiva de cargos comissionados e despesas administrativas, eliminação de penduricalhos e supersalários no funcionalismo federal e controle rígido sobre os gastos discricionários dos Três Poderes.
A implementação das medidas dependerá do instrumento legislativo escolhido. Projetos de lei ordinária exigem maioria simples, enquanto leis complementares dependem de maioria absoluta. Mudanças constitucionais, por sua vez, exigem três quintos dos votos em dois turnos – 308 deputados e 49 senadores.
Com a base consolidada no Congresso, a coalizão precisará de apoio pontual mínimo de legendas como MDB, PSD e União para destravar as medidas sem cortes profundos no plenário.
Gestão pública, estatais e OCDE
O plano de Flávio prevê reforço da Lei das Estatais contra indicações políticas, recrutamento por regras de mercado, reativação do Programa Nacional de Desestatização (PND) e retomada da adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com fim gradual do IOF cambial.
As alterações na Lei das Estatais e autorizações para alienação de empresas públicas dependem de aprovação no Congresso; o perfil majoritariamente pró-mercado do novo Senado, onde a centro-direita é favorável à pauta liberal, reduz as barreiras ideológicas que historicamente travavam projetos de desestatização nas comissões.
Redefinição tributária e flexibilização trabalhista
Os principais pontos do programa do candidato do PL sinalizam para uma revisão abrangente da reforma tributária para evitar alíquotas elevadas do Imposto sobre Valor Agregado (IVA), eliminação de exceções frutos de lobbies, garantia de não cumulatividade plena, rejeição da retomada da contribuição sindical e criação de modalidades contratuais com menor encargo sobre a folha para jovens de 18 a 24 anos e trabalhadores com mais de 50.
As leis complementares para disciplinar o IVA e reduzir os encargos sobre a folha de pagamento exigem 257 votos na Câmara e 41 no Senado. Com a esquerda ocupando cerca de um quarto da Câmara e uma parcela ainda menor do Senado, a capacidade do bloco governista de barrar destaques que onerem o setor produtivo seria significativamente maior que nas legislaturas anteriores.
Choque de infraestrutura e agro
Se eleito, Flávio Bolsonaro promete atrair R$ 900 bilhões em investimentos privados em quatro anos, via parcerias público-privadas (PPPs) e venda de ativos públicos. A prioridade é destravar obras como a Ferrogrão, a Transnordestina e o Trem do Nordeste. O licenciamento ambiental ágil e previsível para essas obras tem forte apoio nas bancadas temáticas.
Na agropecuária, o plano foca a expansão do seguro rural, o fomento aos fertilizantes nacionais e a garantia de segurança jurídica para a propriedade privada.
Marcos de segurança jurídica fundiária têm, na Frente Parlamentar da Agropecuária — ampliada pela eleição maciça de deputados do PL, PP e Republicanos no Sul, no Centro-Oeste e no Sudeste —, um canal de trânsito altamente favorável.
Mercado financeiro reage ao avanço de Flávio
Um relatório dos analistas Carlos Sequeira, Osni Carfi e Bruno Ferreira, da equipe de estratégia do BTG Pactual, apontou que o senador se consolidou como favorito para o segundo turno, impulsionado pela migração natural dos votos dos demais candidatos de centro-direita.
Na leitura do banco, o favoritismo tem efeito direto sobre os preços: "Se o candidato de direita Flávio Bolsonaro for eleito, os participantes do mercado esperarão medidas mais decisivas para enfrentar os urgentes desequilíbrios fiscais do país, desencadeando um rali nos mercados", destacam os analistas.
Thomas Haugaard, gerente de portfólio da equipe de Dívida de Mercados Emergentes da Janus Henderson Investors, uma gestora de ativos sediada no Reino Unido, vê no resultado do primeiro turno um reforço direto à tese de governabilidade.
“Isso deve facilitar a formação de coalizões e a governabilidade sob a presidência de Flávio Bolsonaro, embora o sistema congressional fragmentado e transacional do Brasil continue sendo uma importante restrição."
Para o analista, o desfecho eleitoral eleva a chance de uma orientação pró-mercado, mas há uma condicionante: "os mercados esperam uma maior clareza e propostas fiscais detalhadas para medir o verdadeiro impacto de uma eventual mudança."




