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Do telégrafo, passando pelo telefone e chegando à internet, o avanço da tecnologia nos últimos séculos se deu sob a premissa de que o lugar importaria cada vez menos. Por isso, causou estranheza em Wall Street o fato de corretoras estarem pagando milhões de dólares pelo direito de colocar seus computadores alguns centímetros mais perto dos servidores das Bolsas. O que essas corretoras compram é uma vantagem de poucos milissegundos – a milésima parte do segundo, tempo inferior ao de um piscar de olhos – que lhes permite chegar na frente de outros investidores.

São os chamados operadores de alta frequência (HFT, de "high frequency trading" em inglês), que usam programas de computador para realizar milhares de operações por segundo. Como no mercado acionário americano há mais de dez Bolsas de Valores em operação, os HTF lucram com diferenças de frações de centavos dos papéis negociados nos diferentes pregões. Para eles, pouquíssimo tempo vale muito dinheiro.

Apesar de agirem dentro da lei, os operadores de alta frequência são predadores, que roubam investidores comuns ao "enxergar" cotações antes deles, acusa o escritor americano Michael Lewis (autor de Moneyball, que virou filme). Em seu novo livro, Flash Boys (Editora Intrínseca), o jornalista conta a história de Brad Katsuyama e outros profissionais de Wall Street que criaram uma Bolsa à prova dessas transações predatórias.

Aberta há um ano, a IEX introduziu um atraso proposital de 0,7 milissegundo nas operações, atrapalhando os operadores de alta frequência. Para Lewis, que falou com a reportagem por telefone de sua casa em Berkeley, Califórnia, a HFT é tão pouco transparente e tornou o mercado acionário tão complexo que pode gerar uma nova crise.

Desde a publicação de Flash Boys, algo mudou nas operações de alta frequência?

Não. O livro foi lançado há apenas seis meses nos EUA e eu não esperava mesmo que mudanças acontecessem tão rapidamente. Mas a discussão e os processos começaram. O procurador-geral de Nova York está processando o Barclays por causa do seu dark pool (ambientes de negociação privados usados por grandes bancos para operações de grande volume, mas que são usados nos movimentos especulativos de HFT), o que pode ter consequências importantes. Em quanto tempo?

Eu daria dois anos. Mas o objetivo do livro não é pressionar as autoridades a corrigirem o mercado, até porque foram os reguladores que criaram o problema e mais regras proporcionariam novas oportunidades de abuso. O argumento do livro, aliás, é que não precisamos dos reguladores. Precisamos que o mercado mude. Uma das soluções, por exemplo, seria que grande parte do mercado de ações migrasse para a nova Bolsa estabelecida pelos personagens do livro. A IEX foi criada para coibir operações predatórias.

Se a alta frequência é tão prejudicial aos investidores, por que ninguém a deteve?

Boa pergunta (risos). Parte da resposta é que mesmo especialistas em finanças não entendem esse mercado. Ele se tornou muito complicado. Não se sabe muito bem o que os operadores de HFT fazem e quais efeitos têm sobre o mercado. Isso se deve a um problema de transparência e, também, ao pouco incentivo que os bancões têm para explicar o que fazem, pois ganham muito dinheiro daqueles operadores.

Qual papel os grandes bancos desempenham?

O mercado é organizado para maximizar os ganhos de Wall Street em vez de minimizar os custos para os investidores. Sempre foi assim. A diferença agora é que as pessoas estão demorando muito para entender o que está acontecendo. Grandes investidores têm uma relação comprometida com os grandes bancos. Eles dependem das pesquisas e de outros serviços oferecidos por essas instituições e, por causa disso, não querem partir para a guerra.

Entusiastas da alta frequência dizem que ela dá liquidez ao mercado e não afeta investidores comuns porque esses não operam no curto prazo.

Esses argumentos são uma cortina de fumaça para encobrir o que é de fato importante nessa discussão. A tecnologia, em si, tem sido benéfica para todos, mas ela não é a mesma coisa que alta frequência. A grande diferença é que práticas predatórias de HFT não acrescentam liquidez ao mercado. Na verdade, elas retiram liquidez. Boas práticas de HFT são só, digamos, metade do mercado.

Alguns críticos disseram que seu livro mostra só um lado da história.

Meu trabalho é mostrar a verdade. Existe uma noção, especialmente no jornalismo americano, de que a missão do jornalista é mostrar o que as pessoas dizem: você escreve que alguém disse que o céu é verde, mesmo olhando para o alto e vendo que é azul! Eu não tenho interesse em repetir a mentira contada por outra pessoa. Acho que alguns operadores de alta frequência queriam que eu fosse burro o bastante para fazer isso.

Wall Street ainda cumpre papel importante na economia ou serve apenas a especuladores?

Nas últimas décadas, diminuiu o porcentual das atividades em Wall Street que são benéficas à economia. Há muito de destrutivo por lá. Além de ser jornalista, você trabalhou em Wall Street como operador nos anos 80 (no banco Salomon Brothers). O que mudou desde então?

Na superfície, ficou mais profissional e bem comportada. Não se vê mais strippers nas salas de operação como na minha época. Era um ambiente obsceno. Desde então, do ponto de vista comportamental, Wall Street entrou na linha. Mas ficou menos provável ser punido por fazer algo muito ruim com dinheiro. Eu tenho quase certeza que, no meu tempo, o funcionário seria demitido por comprar hipotecas subprime que afundaram muitas firmas na última crise. Do lado financeiro, aquele Wall Street era mais cuidadoso, em parte porque era menos complicado. A alta frequência pode gerar crises?

O que os operadores de HFT estão fazendo com o mercado é torná-lo mais lucrativo para eles próprios. As complicações que eles estão introduzindo nas Bolsas têm total potencial para uma crise. No livro, o Goldman Sachs diz acreditar que a próxima crise será um "Flash Crash" (nome pelo qual ficou conhecida uma misteriosa queda de 9% no índice Dow Jones em questão de minutos em 2010, cuja origem pode ter sido uma operação de HFT) vezes dez e que o banco não quer ser responsável. O mercado de ações americano é instável demais.

O que mais te impressionou no mercado da HFT?

Foi o sigilo espantoso das firmas de alta frequência. Se você me perguntasse se seria mais fácil descobrir segredos do Pentágono ou das operações de HFT, eu ficaria com a primeira opção.

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