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Guinada chinesa atinge Brasil em cheio

Com a economia da China crescendo menos, país vai sofrer com a queda nas exportações de commodities, fuga de investimentos e volatilidade cambial

  • PorTalita Boros Voitch
  • 19/01/2016 20:39
A mudança chinesa é estrutural e o país, que chegou a crescer 13% em 2007 e 10,4% em 2010, deverá se manter agora em patamares mais modestos | KAZUHIRO NOGI/AFP
A mudança chinesa é estrutural e o país, que chegou a crescer 13% em 2007 e 10,4% em 2010, deverá se manter agora em patamares mais modestos| Foto: KAZUHIRO NOGI/AFP

A desaceleração da economia chinesa, que registrou no ano passado o menor crescimento em 25 anos (6,9%), vai impactar diretamente o Brasil, que tem o país asiático como principal destino da produção interna de commodities, principalmente soja, minério de ferro e petróleo.

A mudança chinesa é estrutural e o país, que chegou a crescer 13% em 2007 e 10,4% em 2010, deverá se manter agora em patamares mais modestos pelos próximos anos. Isso se deve principalmente à mudança de direção do governo chinês, que decidiu conduzir a economia para o consumo doméstico, diminuindo a cota de investimentos e exportações.

LEIA MAIS: Governo chinês fala em “aprofundar reformas”

Com investimento crescendo menos, naturalmente a demanda da China por minério de ferro, um dos produtos exportado pelo Brasil, é menor. Na prática, são menos obras públicas e menos projetos de infraestrutura. “A redução da demanda chinesa afeta o resultado da balança comercial brasileira, bastante apoiada em matérias primas. O movimento que teve início em 2011 deve continuar a piorar”, analisa o economista Alexandre Andrade, da GO Asssociados.

Desaceleração

2015 foi o quinto ano consecutivo de desaceleração da segunda maior economia global –o crescimento em 2014 já havia sido o menor desde 1990, quando o PIB registrou alta de 3,8%, resultado das sanções internacionais contra o país após o massacre da praça da Paz Celestial, no ano anterior.

Nos últimos 15 anos, as exportações para a China – de produtos como minério de ferro, soja, petróleo, celulose, açúcar e outros – resultaram na entrada de pouco mais de US$ 280 bilhões na economia brasileira, sem contar o que foi embolsado com o aumento dos embarques para dezenas de mercados que avançaram no rastro chinês.

Em 2011, o preço das commodities começou a cair e hoje se encontra em patamares bem mais baixos do que os verificados no início da queda. Atualmente o petróleo está sendo comercializado abaixo de US$ 30. Há cinco anos, o valor estava acima de US$ 100. Agora, além do preço menor, a demanda também será afetada.

Combinação negativa

A queda nas exportações brasileiras, aliada ao pânico do mercado por conta dos números chineses mais modestos e à alta de juros norte-americanos, também causa uma combinação negativa que pode levar à fuga de investimentos estrangeiros em países emergentes, como o Brasil. Sem falar na volatilidade do câmbio, influenciada diretamente pela nova condição chinesa.

O ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, já afirmou que o governo tem agido para reduzir a empurrada do dólar para cima. “O Brasil está preparado para enfrentar esse tipo de volatilidade. Temos um elevado estoque de reservas internacionais que dá ao Brasil segurança e capacidade para enfrentar essa flutuação cambial sem gerar um problema financeiro no país”, defendeu..

Segundo o professor de economia chinesa do Insper, Roberto Dumas Damas, nos próximos 10 anos a economia chinesa deverá se manter no patamar de 5% de crescimento. “Quem não utilizar essa premissa no preço de commodities, ações e câmbio estará errando. E não é para se desesperar. Essa é a nova norma”, avalia.

Impacto global

As preocupações com a economia chinesa já fizeram as Bolsas globais perderem 11% do seu valor de mercado neste ano, ou mais de US$ 4 trilhões (mais do que o dobro do PIB brasileiro no ano passado, de acordo com estimativa do FMI)

Governo chinês fala em “aprofundar reformas”

Responsável por divulgar os dados da economia chinesa, o Escritório Nacional de Estatísticas (ONE) voltou a insistir nesta terça-feira (19) nas dolorosas “transformações estruturais” em marcha no país. “É um período crucial no qual deveremos superar os desafios e continuará sendo imperiosa a necessidade de aprofundar as reformas”, afirmou o diretor do ONE, Wang Boan.

Em 2015, o setor de serviços representou 50,5% do PIB da China, superando pela primeira vez mais da metade do total, segundo a agência oficial Xinhua. Os investimentos em bens de capital, que refletem sobretudo os gastos em infraestrutura, aumentaram 10% em 2015, menos que a previsão do mercado (10,2%) e em forte desaceleração.

“A situação em 2016 continuará sendo mais ou menos a mesma de 2015 e o crescimento econômico da China seguirá confrontado a uma situação internacional complexa e volátil”, afirmou Boan. Alguns setores devem continuar sofrendo com o excesso de capacidade produtiva, mas novas áreas, como o comércio eletrônico e as energias renováveis, manterão o dinamismo, destacou o diretor do ONE.

Mesmo debilitado, o gigante asiático continua sendo um dos principais motores do crescimento planetário, o personagem mais importante do comércio internacional e um colossal consumidor de matérias-primas. A afirmação é comprovada pela queda nas Bolsas ao redor do mundo no início de janeiro após os sobressaltos registrados nos mercados chineses.

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