Smartphones da Huawei em uma loja, em Pequim, na China.
Smartphones da Huawei em uma loja, em Pequim, na China.| Foto: FRED DUFOUR/AFP

Há praticamente uma semana, o presidente norte-americano Donald Trump assinou uma ordem executiva que, sem citar nomes, impede que empresas americanas usem telecomunicações estrangeiras que "possam oferecer risco à segurança nacional". Logo em seguida, o Departamento de Comércio do país informou a inclusão da Huawei – líder mundial de equipamentos de telecomunicações e segunda maior fabricante de celulares do mundo – em sua lista de entidades suspeitas. De lá para cá, várias empresas, de vários países, já declararam restrições aos negócios com a Huawei. No Brasil, onde a empresa é importante fornecedora de infra de telecomunições e acaba de reestrear como marca de smartphones, o governo brasileiro adianta que não seguirá, necessariamente, o posicionamento norte-americano. Mas o tema é complexo.

Nesta semana, Ren Zhengfei, fundador e CEO da Huawei, afirmou em entrevista à imprensa chinesa que a guerra comercial com a gestão de Donald Trump é como ter de reparar um avião em pleno voo, de forma a trazê-lo de volta para casa. Ele disse que os 90 dias de trégua dada pelo governo americano, após a inclusão na lista negra de comércio, não significam muito para a empresa, mas que ela está preparada para suportar as sanções.

Zhengfei também agradeceu a parceria de mais de 30 anos com as empresas fornecedoras americanas e fez um alerta: ao incluir a Huawei na lista de proibições de exportações, o governo norte-americano também abriu espaço para que qualquer empresa americana que queria vender algo a uma fabricante chinesa também tenha de obter a aprovação do governo americano.

“Então vocês da mídia não deveriam culpar as empresas americanas. Em vez disso, vocês devem falar por eles. A culpa deve caber a alguns políticos dos EUA. A mídia deve entender que essas empresas americanas e a Huawei compartilham o mesmo destino. Nós somos ambos jogadores na economia de mercado. Os políticos americanos subestimaram nossas forças”.

Ren Zhengfei, fundador e CEO da Huawei.

Ele declarou que mesmo que haja uma oferta insuficiente dos fornecedores de chips americanos, a empresa não enfrentará problemas. Isto porque já fabrica todos os chips de alta qualidade de que precisa. Zhengfei explicou que no "período pacífico", a empresa adotou uma política "1 + 1" – metade dos chips vêm de empresas americanas e metade da Huawei.

“Apesar dos custos muito mais baixos de nossos próprios chips, eu ainda compraria chips de preço mais alto dos EUA. Nossas relações estreitas com empresas americanas são o resultado de várias décadas de esforços em ambos os lados. Essas relações não serão destruídas por um pedaço de papel do governo dos EUA. Enquanto essas empresas puderem obter a aprovação de Washington, continuaremos comprando em grandes volumes delas.”

Ren Zhengfei, fundador e CEO da Huawei.

As acusações de Trump e as reações mundo afora

Os Estados Unidos têm dito que a tecnologia da Huawei para a próxima geração de redes 5G pode ser utilizada para espionar o Ocidente – com a introdução das chamadas backdoors, portas ocultas abertas para monitoramento. Os produtos da tecnologia 5G da empresa chinesa já estão proibidos nos Estados Unidos, na Austrália e na Nova Zelândia. Na Europa, países como Inglaterra e Alemanha ainda avaliam se a Huawei pode ou não continuar fornecendo equipamentos.

Após o ato de Trump, porém, esse movimento de suspeitas se intensificou. Fabricantes de semicondutores como Intel, Qualcomm, Xilinx e Broadcom anunciaram que vão congelar o fornecimento de componentes à Huawei – a Intel fornece à empresa chinesa chips para servidores e processadores para laptops, enquanto a Qualcomm fornece modems e outros processadores. As fabricantes de chips de memória Micron Technology e a Western Digital também cessaram suas vendas para a empresa chinesa.

Ainda na sexta-feira (24), as japonesas Toshiba e Panasonic anunciaram o corte de fornecimento de componentes, partes e peças. O Google, por sua vez, rescindiu a licença do Android da Huawei, impedindo seu acesso ao Google Play Services (Gmail e Chrome) e à Play Store. Essa onda de bloqueios no fornecimento levou algumas operadoras a adiarem o lançamento de aparelhos 5G da Huawei. Entre elas estão a EE e a Vodafone, no Reino Unido, e a KDDI e a NTTDocomo, no Japão.

Na China, Zhengfei, reiterou que reduzirá sua dependência de componentes americanos. Segundo o jornal japonês The Nikkei, a cada ano são gastos US$ 67 bilhões em componentes, incluindo US$ 11 bilhões de fornecedores americanos. Em relação ao Android, a Huawei já vinha desenvolvendo um sistema operacional de celulares. “Tecnicamente não é difícil desenvolver um sistema operacional. O difícil é construir um ecossistema. Este é um grande problema, e devemos ter calma”, ponderou Zhengfei.

A posição do Brasil sobre a gigante chinesa

No Brasil, não bastasse a Huawei ter presença física e estratégica na infraestrutura de telecomunicações nacional – com contratos com todas as operadoras móveis e fixas brasileiras –, a China reina como principal parceiro comercial. A Huawei chegou ao Brasil em 1998, após a privatização do Sistema Telebras. Em 20 anos de operação no país, assumiu a liderança em diversos segmentos de mercado, como em redes 4G, superando as tradicionais fornecedoras europeias – como Ericsson e Nokia – e também as companhias que a Nokia incorporou desde 2009, como francesa Alcatel, a canadense Nortel e a norte-americana Lucent.

A empresa fornece equipamentos de redes de telecomunicações e também soluções de tecnologia da informação para redes empresariais e, no ano passado, chegou a passar a Apple na liderança do mercado de smartphones. Internamente, fornece para a TIM redes 3G e 4G no Rio de Janeiro e nos estados do Sul. Para a Vivo, atende as regiões Sudeste e Sul. E para a Claro, fornece equipamentos em todo o Brasil, para as diferentes tecnologias de rede existentes.

“Os EUA acordaram para o fato de que o 5G – da Internet das coisas e das casas e indústrias conectadas – não está mais nas mãos deles. Não vejo o Brasil entrar nessa briga tecnológica. Mas, com certeza, vai sofrer pressão para banir e, de outro lado, vai sofrer pressão chinesa. O país não está numa boa posição em nenhum dos dois casos”, prevê Arthur Igreja, professor da FGV especializado em relações internacionais.

Não se pode esquecer também que, desde que a Lucent foi comprada pela Nokia, os EUA deixaram de ter um fornecedor relevante de telecomunicações, hoje disputado apenas por quatro principais players: a sueca Ericsson, a finlandesa Nokia e as chinesas Huawei e ZTE.

Presente em mais de 170 países e territórios, a fabricante chinesa conta com mais de 180 mil funcionários em todo o mundo. Nos últimos dez anos investiu US$ 60 bilhões em 15 centros de pesquisa e desenvolvimento em nível global. No ano passado, foram investidos mais de US$ 15 bilhões em P&D. No Brasil, a Huawei emprega 1.200 funcionários, com escritórios em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba e Recife. A produção de equipamentos de rede celular (Estações Rádio Base) é terceirizada para a fábrica da Flextronics em Sorocaba, onde a empresa também instalou um centro de pesquisa em Internet das Coisas (comunicação entre máquinas e equipamentos).

Durante o 63º Painel Tebrasil – principal evento corporativo do setor de telecomunicações, realizado esta semana em Brasília –, os presidentes da Claro e da Oi romperam o silêncio das operadoras manifestando a sua preocupação quanto a um eventual movimento do governo brasileiro de adotar alguma sanção ou banir a fabricante do país.

"Seria um verdadeiro inferno”, afirmou José Félix, presidente da Claro, argumentando que a empresa usa equipamentos da Huawei em todas as redes, do 2G ao 4,5G.

Nos frontes diplomático e comercial, os laços entre Brasil e China continuam se estreitando. Em visita ao país asiático, o vice-presidente da república, Hamilton Martins Mourão, presidiu a V Sessão Plenária da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (COSBAN), em 23 de maio. Ele foi recebido pelo presidente da China, Xi Jinping, pelo vice-presidente chinês, Wang Qishan, e pelo presidente da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, Wang Yang.

Em entrevista à rede estatal chinesa CGTN, Mourão afirmou que a Huawei é vista com bons olhos no Brasil, onde já está bem estabelecida e com planos e ampliar investimentos e expandir as operações. À Folha de São Paulo o vice-presidente disse que quando as coisas estão polarizadas como estão, é preciso ter flexibilidade. “Não se pode atirar para um lado só de uma hora para outra, mas tem que raciocinar com calma e aguardar o desfecho”, afirmou.

Por meio de sua assessoria de imprensa, o Itamaraty informa que, desde 2009, a China é o principal parceiro comercial do Brasil. A corrente de comércio bilateral alcançou, em 2018, US$ 98,9 bilhões (exportações de US$ 64,2 bilhões e importações de US$ 34,7 bilhões). O comércio bilateral caracteriza-se por expressivo superávit brasileiro, mantido há nove anos, e que, em 2018, atingiu o recorde histórico de US$ 29,5 bilhões.

No ano passado, os principais produtos exportados pelo Brasil foram soja, combustíveis e minérios de ferro e seus concentrados. Já os principais produtos chineses importados pelo Brasil foram plataformas de perfuração ou de exploração, dragas, produtos manufaturados em geral, circuitos impressos e outras partes para aparelhos de telefonia.

Dados do Ministério da Economia, mostram que, até 2018, a China acumulava estoque de US$ 69 bilhões de investimentos no Brasil, em 155 projetos, especialmente nos setores de energia (geração e transmissão, além de óleo e gás), infraestrutura (portuária e ferroviária), financeiro, de serviços e de inovação. No segundo semestre, deverá haver a visita do presidente Bolsonaro à China, em data a ser acordada, e a vinda do presidente chinês, Xi Jinping, ao Brasil, para participar da XI Cúpula dos BRICS, que ocorrerá em Brasília, nos dias 13 e 14 de novembro.

Já o Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC) ressalta que o ministro Marcos Pontes esteve em Barcelona, no Mobile World Congress 2019 – principal evento global de telefonia móvel, realizado no final de fevereiro. Ele participou de encontros bilaterais, inclusive com a Huawei, interessado em fomentar negócios e parcerias para o Brasil.

“A Huawei é considerada um player interessante para o Brasil. Até o momento, nenhum órgão apresentou ao ministério alguma demanda relativa à espionagem, e o ministro tem se posicionado sobre possíveis projetos para salvaguarda e segurança de informações. Outra posição do ministro é que qualquer decisão sobre a empresa depende de vários atores de governo e deve ser tomada com base em fatos após investigações, se houver”, informa o MCTIC por meio de nota.

E os consumidores brasileiros, o que podem esperar?

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Gigante chinesa Huawei voltou ao mercado brasileiro com modelos P30 Pro e P30 Lite.| Cristina Seciuk /Gazeta do Povo

Já quanto aos consumidores brasileiros, que nem bem foram apresentados aos cobiçados smartphones topo de linha da série P-30 e P-30 Lite, resta uma certa preocupação com a continuidade dos produtos. Por meio de nota, a Huawei Brasil informa que todos os smartphones existentes no portfólio da empresa, ou seja, aqueles que já foram vendidos e aqueles que estão atualmente à venda e em estoque, podem ser usados normalmente e não serão afetados.

Além disso, a empresa informa também que esses dispositivos podem continuar a usar e atualizar serviços do Google, como o Google Play, o Gmail, etc. Da mesma forma, esses produtos continuarão recebendo atualizações dos patches de segurança do Google e poderão atualizar, sem nenhum problema, todos os aplicativos disponíveis no Google Play, incluindo todos os aplicativos de terceiros.

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