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Cerca de 270 operários do Complexo Olímpico da Rio-2016 foram demitidos nos últimos dias pela Queiroz Galvão, que está sendo investigada na operação Lava Jato. | Pablo Jacob/Agência O Globo
Cerca de 270 operários do Complexo Olímpico da Rio-2016 foram demitidos nos últimos dias pela Queiroz Galvão, que está sendo investigada na operação Lava Jato.| Foto: Pablo Jacob/Agência O Globo

Sob o impacto da operação Lava Jato, da Polícia Federal, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro pode “encolher” R$ 87 bilhões este ano, ao custo de 1 milhão de empregos. É o que aponta estudo elaborado pelo Grupo de Economia da Infraestrutura & Soluções Ambientais da Fundação Getulio Vargas (FGV) e pelo Centro de Estudos de Direito Econômico e Social (Cedes).

O trabalho considera os efeitos da retração de gastos da Petrobras sobre toda a cadeia de fornecedores. Partindo de uma estimativa de redução de R$ 27,5 bilhões nos investimentos da petroleira este ano, foram calculadas as perdas na produção, nos empregos, nos salários e na geração de impostos.

Pedido aceito

A Justiça de São Paulo aceitou o pedido de recuperação judicial apresentado por nove empresas do grupo de engenharia OAS, que terão 60 dias para apresentar planos de pagamento de dívidas contraídas até o final de março. A empreiteira informou em comunicado que todas as dívidas assumidas a partir de abril serão integralmente cumpridas.

Pagamentos de salários e benefícios de mais de 100 mil funcionários diretos ou indiretos não serão afetados pelo processo, disse a empresa. A OAS reafirmou que vai vender ativos para se concentrar em sua “principal vocação, a construção pesada”.

Com as demissões previstas, o pagamento de salários deverá encolher R$ 13,6 bilhões, com efeitos negativos sobre o consumo de produtos, serviços e até produtos agrícolas. Além disso, os cofres públicos de União, estados e municípios deverão amargar uma redução da ordem de R$ 5,7 bilhões em arrecadação neste ano.

O impacto mais forte é visto nas grandes construtoras, que também são alvo dos investigadores que apuram suspeitas de corrupção, desvio de recursos e lavagem de dinheiro. Só nesse setor, a contribuição para o PIB deverá cair R$ 10 bilhões, com corte de 192 mil vagas, redução de R$ 1,7 bilhão nos salários pagos e recolhimentos tributários R$ 652 milhões menores.

“Se há cartel, ele deve ser punido, mas é preciso evitar custos além do necessário”, disse o coordenador do grupo, Gesner Oliveira, que também é sócio da consultoria GO Associados. Ele se refere a consequências já sentidas no dia a dia das empresas como, por exemplo, a retração do crédito. Os bancos, que deram empréstimos volumosos à estatal do petróleo e também às grandes construtoras por ela contratadas, agora tornaram-se mais exigentes na hora de conceder novos empréstimos. Os efeitos da Lava Jato sobre o sistema financeiro vêm sendo acompanhado com atenção pelo Banco Central.

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Os empréstimos tornaram-se mais difíceis mesmo para empresas e pessoas físicas que não têm nenhuma relação com o escândalo. É isso que Gesner aponta como um custo excessivo. Outro problema é o prejuízo à reputação de grupos econômicos inteiros, que atuam em diversos setores e não só nos negócios investigados.

Construção civil

As construtoras têm sentido mais diretamente os efeitos da retração do crédito e dos cortes nos investimentos de uma cliente gigante, que é a Petrobras. “Estima-se uma queda de 5% para a indústria da construção”, comentou. “Pode-se dizer que o setor está em queda livre.” Pior ainda, esse quadro se estabelece num momento delicado para a economia brasileira, que enfrenta um risco de retração. Do ponto de vista do governo, o ideal seria contar com investimentos, sobretudo do setor privado, para reaquecer a atividade econômica.

Ex-chefe do Cade diz não ter certeza sobre cartel

Ex-presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), órgão que tem entre suas atribuições punir cartéis, Gesner Oliveira avalia que as descobertas da operação Lava Jato carecem de mais estudos técnicos para se afirmar, com certeza, que havia um cartel de empreiteiras. “Não é razoável ignorar o fato que há um monopsônio e que a dinâmica de relacionamento entre as empresas tem de ser analisada em maior profundidade”, diz ele, que coordenou o Grupo de Economia da Infraestrutura & Soluções Ambientais da Fundação Getulio Vargas (FGV) e pelo Centro de Estudos de Direito Econômico e Social (Cedes).

Ele se refere à Petrobras e ao fato de ela, dado o tamanho de seu orçamento, ter enorme poder de barganha com seus fornecedores. Numa situação assim, ele acha questionável se um suposto cartel de construtoras conseguiria impor seus preços à estatal.

Mais ainda porque esse suposto cartel escapa ao figurino clássico dos arranjos para evitar a concorrência. Num modelo clássico, há homogeneidade de produtos – o que não se aplica aos serviços prestados pelas construtoras à Petrobras – e geralmente os fornecedores são poucos, o que facilita combinações prévias.

Porém, a própria estatal listou 23 empresas suspeitas de participar do suposto cartel. “É possível, sim, que o cartel tenha ocorrido”, afirmou.

Mais 70 são demitidos em obra olímpica

  • rio de janeiro

Envolvida na Lava Jato, a empreiteira Queiroz Galvão demitiu mais 70 operários da obra do Complexo Esportivo de Deodoro, no Rio de Janeiro, nesta quinta-feira (2). O clima no canteiro de obras é de tensão entre os funcionários, que contam que, até sexta-feira, outros 300 devem ser mandados embora. De acordo com um funcionário que pediu anonimato, 1,5 mil homens permanecem trabalhando.

“Os que já são contratados estão recebendo a proposta de permanecer em aviso prévio até o dia 23 ou aceitar a indenização. Mas todos estão aceitando a indenização, pois prometeram nos contratar novamente. É melhor garantir o dinheiro no bolso, porque não sabemos se a obra vai continuar”, conta o funcionário, que afirma que 200 pessoas foram demitidas nesta quarta (1).

Foi também neste dia que a Queiroz Galvão colocou em aviso prévio mais de mil trabalhadores do complexo esportivo, que sediará 11 modalidades das Olimpíadas de 2016. A obra teve início em 2014 e será convertida num parque depois dos Jogos. Os mil trabalhadores compõem praticamente toda a mão de obra envolvida diretamente na construção do complexo.

A Queiroz Galvão afirma que vem sofrendo com atrasos em pagamentos devidos pela prefeitura do Rio, que repassa os recursos federais para o empreendimento. A construtora teria recebido no começo do ano um único pagamento, de R$ 60 milhões. Outros R$ 80 milhões já deveriam ter sido pagos desde o começo do ano por avanços na obra, cujo orçamento total chega a R$ 640 milhões.

O prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), classifica o caso como “farsa para pressionar” a administração municipal e diz que a Queiroz Galvão enfrenta um problema de fluxo de caixa na obra por questões burocráticas do financiamento da Caixa Econômica. Já o Ministério do Esporte informou que “a Caixa aprovou duas medições recentes que somam R$ 25 milhões, cujos pagamentos estão autorizados” e “devem ocorrer nos próximos dias”.

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