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Varejo em crise

Inadimplência atinge 9,1 milhões de empresas, maioria de micro e pequenos negócios de serviços

Varejo
Setor de serviços é o mais atingido pela crise, que afeta até mesmo gigantes do varejo consideradas sólidas. (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

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A inadimplência das empresas bateu recorde no Brasil e chegou a 9,1 milhões de negócios com dívidas em atraso em junho de 2026, segundo dados da Serasa Experian. Juntas, elas acumulam R$ 232,9 bilhões em débitos, os maiores números da série histórica iniciada em 2016.

Em maio, eram 9 milhões de empresas negativadas e R$ 229,9 bilhões em dívidas. Em apenas um mês, portanto, o número de empresas endividadas cresceu 1,1%, enquanto o total das dívidas subiu 1,3%.

“Temos uma bomba-relógio a ser desarmada, para que a gente consiga desacelerar de maneira gradual, e não de maneira abrupta”, disse Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian em entrevista ao jornal O Globo.

Os pequenos negócios são os mais atingidos: 8,7 milhões das empresas inadimplentes são micro e pequenas, cerca de 95% do total. O setor de serviços concentra 55,7% das empresas com dívidas, seguido pelo comércio, com 32,2%, e pela indústria, com 8%.

Segundo o levantamento, cada empresa negativada tem, em média, 7,3 contas atrasadas e deve R$ 25.508,96. Entre os credores, os serviços concentram 31,6% das dívidas, seguidos por bancos e cartões, com 19,5%.

A crise atinge das pequenas às grandes e fica evidenciada com os recentes pedidos de recuperação judicial de negócios outrora considerados sólidos, como as Casas Bahia, a Marabraz, a Mobly e a Tok&Stok. O setor supermercadista também não passou incólume e viu o gigante Pão de Açúcar recorrer à reestruturação com cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas.

Ao todo, segundo levantamento do monitor RGF-Bizdoc, o número de empresas ativas em recuperação judicial no Brasil registrou um crescimento de 6,2% no primeiro semestre deste ano na comparação com o mesmo período de 2025, com 6,3 mil companhias sob reestruturação.

O cenário dramático ocorre enquanto o crédito continua caro, mesmo com o início da queda da taxa Selic. A taxa passou de 15% para 14% ao ano desde março, mas continua pesando no bolso de empresas e consumidores.

A Serasa Experian aponta que os programas de renegociação de dívidas, mesmo movimentando bilhões de reais, não impediram o avanço da inadimplência. No Pronampe, por exemplo, foram 185 mil repactuações, envolvendo R$ 26 bilhões em dívidas, enquanto o ProCred360 registrou 47 mil repactuações, somando R$ 2 bilhões.

A dificuldade das empresas acompanha o aperto financeiro das famílias, que deixam de consumir para poupar para pagar outras contas. A inadimplência entre consumidores chegou a 83,9 milhões de pessoas em julho, enquanto 74,6% da renda das famílias está comprometida com empréstimos, cartões e contas básicas. Nas famílias de menor renda, esse comprometimento chega perto de 90%.

Para Camila Abdelmalack, as renegociações ajudam, mas oferecem apenas um alívio temporário. Ela também avalia que a queda dos juros pode encontrar limites se o governo não avançar no controle das despesas e na estabilização da dívida pública.

O aumento das recuperações judiciais entre empresas maiores reforça o sinal de alerta. Para a economista, o desafio é evitar que o atual quadro de endividamento provoque uma desaceleração brusca da economia e comprometa a capacidade das empresas de manter empregos.

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