Por que o preço do álcool não pára de subir? Até onde ele vai chegar? Seremos novamente "abandonados" pelos usineiros? Essas são algumas das perguntas que os motoristas brasileiros que possuem carro a álcool ou bicombustível certamente voltaram a se fazer nos últimos meses. Enquanto o consumidor reclama, produtores e analistas de mercado enumeram argumentos para explicar a situação.
Citam a queda da oferta estamos no pico da entressafra de cana-de-açúcar , o aumento do consumo interno e externo nos últimos anos e até o maior combate à sonegação. Acreditam que os preços tendem a se acalmar a partir de março, quando começa a moagem da cana, neste ano antecipada em dois meses. A questão "desabastecimento" é considerada fora de discussão. Para Tereza Fernandes, diretora da consultoria econômica MB Associados, "os usineiros estariam dando um tiro no pé se deixassem o país desabastecido", como aconteceu entre o fim dos anos 80 e início dos 90.
Colateral
O aspecto mais curioso que emerge das análises é que os reajustes que tanto irritam os consumidores são o efeito colateral de uma conjuntura nacional e internacional amplamente favorável à indústria sucroalcooleira do país o que tende a causar impactos positivos na economia brasileira. Com mais reais e dólares entrando na conta, usinas e produtores de cana têm condições de ampliar os investimentos, aumentando a área plantada, elevando a oferta desses produtos e gerando mais empregos e uma maior arrecadação de impostos.
Os resultados da maior procura pelo álcool e da explosão dos preços do açúcar no mercado internacional que subiram 35% apenas no ano passado já podem ser observados na indústria. Na safra passada (2005/06), havia 341 usinas em operação no Brasil, número que deve crescer para 360 no ciclo atual. Além de 15 usinas novas, outras 4 que estavam desativadas voltarão a funcionar, de acordo com a consultoria Datagro. Mais 25 unidades produtoras devem ficar prontas na safra 2007/08 e outras 49 nos próximos anos. Segundo a União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Única), o número de trabalhadores diretamente empregados no setor saltará dos atuais 800 mil para 1,15 milhão até 2010.
Na safra que começa a ser processada daqui a três dias, com pontapé inicial marcado para a usina da Cocamar, no noroeste do Paraná, o Brasil deve obter seu sexto recorde consecutivo de produção. A Datagro aposta em 16,7 bilhões de litros de álcool, 5,4% a mais que os 15,9 bilhões da temporada passada. A consultoria ProCana estima que o faturamento bruto do setor cresça 10% nesta safra e atinja a cifra de R$ 43,2 bilhões.
Irritação
Mas, em meio a toda essa pujança, é bom que as usinas se esforcem mais para manter a clientela. Independentemente do que dizem as fontes da indústria, o consumidor se irrita ao pagar pelo álcool 28% a mais do que há um ano variação que supera com folga qualquer índice de inflação do período. Além disso, as informações desencontradas sobre o real tamanho dos estoques reacendem no brasileiro a lembrança do episódio do desabastecimento.
Tereza Fernandes, da MB Associados, acredita que o ano será relativamente tranqüilo no mercado doméstico no que se refere a preços e a abastecimento. "Mas as cotações não vão voltar aos mesmos níveis do ano passado. A situação do mercado mudou", adverte. Como a acomodação definitiva da relação entre oferta e demanda deve ocorrer somente em dois ou três anos, não será de se estranhar a ocorrência de novos rebuliços na próxima entressafra.







