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Novos negócios

"Vale do Guadalupe": o novo polo das startups em Curitiba

Proximidades do Terminal do Guadalupe, no Centro “antigo” de Curitiba, virou um polo de startups: empresas novas,  de crescimento acelerado e que têm viés tecnológico

  • PorNaiady Piva
  • 10/04/2018 19:30
As equipes das startups MadeiraMadeira, Ebanx, Olist, EadBox, Send4 , BoletoBancário.com e Tecnofit “dominaram” as paradas da Marechal Deodoro e do Centro “velho” de Curitiba. | Albari Rosa
Gazeta do Povo
As equipes das startups MadeiraMadeira, Ebanx, Olist, EadBox, Send4 , BoletoBancário.com e Tecnofit “dominaram” as paradas da Marechal Deodoro e do Centro “velho” de Curitiba.| Foto: Albari Rosa Gazeta do Povo

Ventos modernos sopram no Centro "velho" de Curitiba. Pipocam no local sedes de startups, todas empresas novas, de base tecnológica, e que aos poucos estão ganhando espaço nos cenários nacional e internacional. O "Vale do Guadalupe" emprega mais de 1.100 pessoas, e ocupa uma área de quase oito mil metros quadrados. 

As sete startups listadas pela Gazeta do Povo ficam em um raio de 500 metros do Terminal do Guadalupe. Antiga rodoviária da cidade, o local é hoje um dos principais terminais de ônibus que conectam Curitiba a sua Região Metropolitana, e o Centro às periferias da cidade. 

"A região aqui do Guadalupe sempre foi considerada meio perigosa, e começou a virar um cluster de startups", comenta Leonardo Frade. Sua empresa, a Send4, fica na mesma rua do terminal, e é a caçula da região. Foi para sede própria em novembro do ano passado (2017), após quatro meses "alojada" no escritório da vizinha BoletoBancário.com. 

No edifício da Boleto, a chance de cruzar com outro "startupeiro" no elevador é enorme. É um local emblemático. O Centro Comercial Itália foi o primeiro "maior prédio da cidade" de Curitiba, nos idos de 1980. 

O primeira a chegar ao condomínio foi o Ebanx, em maio de 2015. A empresa hoje ocupa uma área de dois mil metros quadrados em dois andares do prédio — inclusive o local onde era o antigo cinema do Shopping Itália, que fica no térreo. 

Diretor de marketing do Ebanx, André Boaventura gosta de começar suas palestras para o público curitibano dizendo onde fica a sede da fintech. Muita gente ainda vira a cara, "aquele lugar velho, abandonado". "Mas a gente gosta de pensar que estamos participando da revitalização da região". 

Nos cafés e restaurantes da Marechal Deodoro são comuns os encontros entre times de diferentes startups. A rua abriga seis dos sete escritórios listados pela reportagem e, em breve, deve receber um polo gastronômico voltado à revitalização urbana (notícia que foi recebida com animação pela turma da tecnologia). 

O início de tudo foi meio por acaso 

A ocupação da região por startups se deu meio por acaso. Ninguém combinou de construir um polo tecnológico no Guadalupe. Mas coincidiu de várias das novas empresas de tecnologia baterem na mesma trave: estamos crescendo e crescendo rápido; e precisamos de um espaço físico que dê conta disso. 

A região escolhida tem um pouco de tudo. Bancos, serviços (como cartórios e Correios), comércio de rua com diferentes faixas de preço e transporte público de massas para todas as regiões da cidade (além do Guadalupe, os terminais das praças Tiradentes e Rui Barbosa ficam próximos). 

O caso da MadeiraMadeira é emblemático. A empresa, que tem planos de faturar R$ 1 bilhão no ano de 2019, ocupa atualmente seis andares de um prédio que foi pensado para ser a sede do Citibank no Sul do Brasil. A agência do banco continua, no térreo, mas a startup domina os andares de cima. 

Até 2014, a MadeiraMadeira se dividia entre duas sedes, uma em São José dos Pinhais, município vizinho a Curitiba, e outra na periferia da cidade. "Foi quando eu descobri que o Google estava aqui no Cefet [Universidade Tecnológica] pegando os melhores engenheiros e levando para Belo Horizonte. E a gente mal conseguia contratar estagiário", lembra Robson Privado, sócio e diretor de Marketing e Produto da empresa.

A MadeiraMadeira abriu, literalmente, uma portinha em frente ao antigo Cefet (atual UTFPR), criou um escritório moderninho e começou a recrutar. Estavam em 40 pessoas quando decidiram reunir todo mundo no prédio da Marechal Deodoro, sua sede atual

Boa infraestrutura e oportunidades na crise 

Quando mudou para a sede atual, em 2016, a Eadbox já oferecia mais de 10 mil cursos à distância, e pleiteava aportes milionários. Era hora de crescer. E três fatores foram fundamentais para decidir pela rua Marechal Deodoro. 

"A presença de outras startups na região, o transporte público, que permite às pessoas chegarem com certa tranquilidade, e a proximidade de universidades de grande porte. Além da UTFPR e dois campi da UFPR, outras instituições são de fácil acesso de ônibus", explica Rafaele Bastian, gestora de Recursos Humanos da startup.

As mudanças também podem ter coincidido com um bom timing, do ponto de vista imobiliário. Boa parte das startups mudaram entre 2015 e 2017. "Com crise, várias empresas de grande porte que acabaram, saíram de Curitiba (algumas que até sairam do Brasil), desocuparam andares inteiros no Shopping Itália e em prédios da Marechal", comenta Matheus Bernert, CEO da BoletoBancário.com. 

Da crise surgiram oportunidades. Como já tinha vários amigos dentro e chegou a ser incubado em uma escritório no prédio do Itália, Matheus optou por alugar um andar inteiro (são 300 metros quadrados) para a empresa. 

Trajetória parecida com a da Tecnofit, que em outubro do ano passado recebeu um aporte de R$ 500 mil de um fundo curitibano. Em janeiro deste ano a startup, que produz soluções de gestão para o universo fitness, foi para um espaço próprio com seus mais de 30 funcionários. 

Nova leva 

A presença de startups na região do Guadalupe já deixa de ser uma coincidência e passa a ser atrativo. Além das empresas incubadas ali (como BoletoBancário.com e Tecnofit), empresas maiores já começam a olhar a região com outros olhos. 

É o caso da Olist que, no ano passado, viveu pela quarta vez a crise de ter que se mudar para um espaço maior, para comportar a equipe. 

No escritório anterior, no Cabral, chegou a um ponto de ter gente em conferência no banheiro, em busca de um local silencioso. Eram 300 metros quadrados. A Olist pegou um andar inteiro no prédio do Shopping Itália, o triplo do tamanho. E já está ficando pequeno. A vantagem é que ainda há muitos andares vagos no edifício. 

A decisão não foi meramente financeira. Tiago Dalvi, CEO da Olist, conta que viu opções até mais baratas e em prédios mais novos em regiões mais afastadas do Centro. "Um dos maiores desafios de qualquer startup é recrutar os melhores talentos. ter um escritório bem localizado, um espaço bacana". A experiência tem sido boa. 

A força do ecossistema

A proximidade física das startups tem um outro lado, além da curiosidade. Sem exceção, todas as empresas ouvidas pela Gazeta do Povo dizem tirar proveito desta proximidade em termos de negócio. Além das parcerias de mercado, muitas vezes capitaneadas por sócios e diretores, há eventos que integram o “chão de fábrica”.

Tiago Dalvi, da Olist, conta que suas equipes de tecnologia, design e de produto já estão realizando encontros de área em conjunto com as startups da região e que são abertos ao mercado, em suas respectivas áreas.

É claro que a troca de figurinhas não se circunscreve ao tal Vale do Guadalupe. Também no Centro, a cinco minutos de carro, ContabilizeiJames DeliveryRentcars.com são só alguns exemplos de startups que também participam deste movimento de troca. A Pipefy, mais ao norte, fica no mesmo prédio que a Olist ocupava até pouco tempo, e integra o mesmo time. Entre outras.

Mas a coexistência em uma pequena distância, em uma região que sofreu certa desvalorização, não deixa de ter o seu charme. “Aqui a gente tem várias opções walk distance [a distância de caminhada], algo que é muito comum no Vale do Silício [caso precise expandir o escritório]”, pondera Robson, do MadeiraMadeira.

A revitalização, que coexiste com a diversidade de habitantes do Centro (pessoas de diferentes classes sociais, e de toda a grande Curitiba) é um fator atrativo para o público que as startups atingem: o de jovens. A facilidade de chegar de ônibus e de bicicleta também agrada este público.

Ao mesmo tempo, conforme crescem, cada vez mais as startups curitibanas procuram profissionais um pouco mais velhos, principalmente para cargos sênior. A facilidade de acesso ao Centro e a proximidade de bons bairros (para moradia) nas imediações é um diferencial para atrair este público. Em especial na hora de recrutar.

Para Tiago Dalvi, da Olist, os encontros inusitados entre startupeiros contribui para o ecossistema. “Simplifica aquela história de ‘vamos marcar’, porque está todo mundo ocupado, focado no nosso negócio. Outro dia eu encontrei o Alphonse [Voigt, fundador da Ebanx] no elevador e na hora falei: vamos tomar um café no meu escritório”.

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